terça-feira, julho 15, 2008

foto: Fábio Reoli




" "Coletivo: Kaos" tem o intuito de externar essa forma incessante de ir e vir coletiva e, ainda assim, individual aos olhos de cada um. Sensações que se movimentam pelos nossos olhos cotidianamente e que, muitas vezes sem percebermos, conseguem extrair uma quantidade absurda de histórias, ilustradas pela gritante quantidade de informações que envolvem os frequentadores de um caótico transporte público da grande - e nem um pouco humana - cidade de São Paulo." [F. Reoli]




Recomendo aos ilustres visitantes desse reino cafeinado uma visita pelo ensaio conjunto "Coletivo: Kaos", do amigo Reoli. Um belo ensaio fotográfico feito dentro de um ônibus coletivo, instigando outros viajantes do mundo blogueiro tais como Caio Tadeu (http://contosdeinsonia.blogspot.com/), Solange Mazzeto (http://solemazzeto.wordpress.com/), Frank Saiu, Q SE FLOG (http://qseflog.blogspot.com/2008/06/catstrofes-modernas.html), Ana Pallito, dentre vários outros talentosos escritores, assim como este enfileirador de letras que vos escreve.

O material na íntegra pode ser conferido em http://coletivokaos.zip.net/


Uma série de descostruções escritas, congeladas e deliciosamente enfileiradas. Divirtam-se.




trecho do meu texto:


"Os que chegam, devorados pelo monstro metálico, fazem seus o caminho dele. Aos que vão, a curta liberdade aparente de seguir com os próprios pés até que finde o dia e novamente sirvam de aperitivo à um outro monstro."

quinta-feira, julho 03, 2008

O HOMEM QUE ERA TERÇA-FEIRA

Não que fosse de todo um mistério o seu nascimento. Poderia se dizer, de um ponto de vista deveras abrangente, que tivera no mínimo algumas peculiaridades sobre sua concepção, visto que o pai morrera no exato momento do nascimento de sua mãe, e esta de parto; e o fato de não ter passado de 24 horas de vida, por exemplo.
Diante de tais esclarecimentos, podemos seguir adiante visto que nesta história em particular o correr das horas é por demais atroz.
Nascera precisamente ao primeiro segundo da meia-noite, como o próprio dia de quem recebera o nome: Terça-feira. Na aurora de sua infância, entre cinco e meia seis da manhã, recebeu em suas bochechas nada rosadas, os primeiros e tímidos raios de sol, fugitivos da neblina daquele dia cinzento. Precoce para sua idade, antes das 10hs da manhã, já havia tomado certa consciência de si como indivíduo e do mundo ao seu redor, por mais profundas que tais implicações pareçam.
Logo no florescer da adolescência, pouco depois do meio-dia, questões sobre o rumo a tomar, o que fazer da vida e o sentido das coisas passaram a lhe tomar a atenção. Quão efêmero é o tempo...
Dedicara até as 18hs em uma revoltada reflexão sobre tais coisas, quando lhe ocorreu que a maioridade se jogava em sua face, e a consciência, tal qual um mundo que se descobre em processo de implosão, lhe atingia em cheio. E agora? Que faria?
As 20hs de vida já lhe chegavam à soleira da porta, em cada passo do ponteiro, esse incansável andarilho que carrega o tempo [carniceiro insaciável] à sua volta. Tic Tac. Tic Tac...
Antes mesmo de decidir o que queria para si, sua curta vida de Homem-dia, já mergulhava em suas horas finais de existência (pelo menos no sentido em que a entendemos).
Tantos lugares queria ainda visitar: as montanhas nevadas da Escócia, onde correria nu sentindo o frio lhe congelar a barba; o sol escaldante do México, onde cantaria com os Mariachis embebido no ardor da tequila; o Peru, sagrada terra onde os mistérios estão incrustados nas pedras e até mesmo na posição do chapéu das mulheres Quéchua... tanto ainda para ver e tão pouco tempo. Não lhe restavam mais que duas horas, e todo o peso de uma vida puxava seus ombros para baixo e a imaginação se inebriava. Em tão avançada idade, mal sabia dizer se de fato havia estado em tantos lugares ou se apenas tomara seus anseios como parte da lembrança do que vivera de fato. Não sabia mais o que era memória e o que era invenção de sua cabeça senil.
Em tão corrida vida, vivera muito menos tempo do que esperava, e boa parte dele tinha dedicado a tentar encontrar um rumo a seguir. Agora estava velho, cansado e não podia de fato citar algo de que se orgulhasse, além do fato de ter se descoberto grávido, e da consciência de que morreria durante o parto de sua desconhecida mas ja amada filha Quarta-feira.
Assim se encerra a existência breve porém lembrada do Homem que era Terça-feira, nada deixou alem de uma filha em um mundo desolado e a pouca lembrança do nada que fizera.
Tempus Adest.
[Título inspirado no livro " O homem que era quinta-feira", de G. K. Cheston, o qual nunca li mas o título me provocou como uma tormenta]

sábado, maio 24, 2008

Humm.. nas minhas andanças terminei esquecendo de voltar pra casa.

Aos visitantes eventuais, em breve uma bela recepção nesta casa.

sexta-feira, agosto 31, 2007

CURTAS COTIDIANIDADES

Relutante, tentava não balançar as pernas, brincar com os anéis ou beliscar o queixo - pequenos tiques adquiridos com as voltas do relógio - mantia aquela falsa expressão de comportamento adequado.
Ao lado o mundo gritava na correria louca de transeuntes sem rosto que pareciam amarrados, andando em fila indiana: quanta pressa!!
Retirou do bolso o seu lápis-rouba-sonho, ferramenta que usava para transcrever delírios em letras e desenhos estranhos, e começou a desconstruir. Despoemas, crônicas invertidas ou histórias de final duvidoso. O ofício de enfileirar letras e causar pequenos transtornos como uma forma de fugir daquele mundo corre-corre é para poucos um tique (que assim seja em forma exagerada com crises histéricas).
Repousou calmamente o lápis no bolso quando ouviu seu nome.
Essa costumava ser sua manhã no mundo engravatado dos normalóides: fingir andar reto e certinho, enquanto conspirava secretamente pra deixar o mundo um tanto mais surreal.

sexta-feira, agosto 03, 2007

ASAS DO AMANHECER

Naquela manhã tinha acordado com vontade de voar.
Não era um bocejo sorridente, nem tão pouco rugas de um despertar rabugento. Talvez o olhar de um amanhecer monótono...
Levantou da cama, e cruzou a casa com um olhar distante sem distribuir bom dias ou sorrisos de cara inchada. Simplesmente andou calmamente até a porta dos fundos sem ao menos se preocupar com o alarme ou com aquele ridículo e confortável pijama. Andou até o batente do quintal. Sequer lembrara da existência de todos aqueles prédios e olhares curiosos que sempre espreitam das varandas da vizinhança. Apenas abriu os braços e começou a voar.
Nunca fizera aquilo antes ou soubera de qualquer um que o tenha feito. Mas fez. Se lançou ao céu como se caísse pra cima. Uma desqueda invertida para um mundo de vento e nuvens.
À medida que sentia o mundo sem asas ficar à centena de pés dos seus próprios pés, misturava a sua vida blues com o azul daquele mundo leve. Pouco a pouco a existência que conhecia se distanciava. Não olhava para baixo, mas a vibração que lhe percorria a barriga e explodia no umbigo dava a certeza de que já estava à uma terrível e maravilhosa altura. Sentia a resistência do ar entre seus dedos e em seu rosto. O peso do vento livre que vez ou outra cai, tombando janela a dentro em um deslize pela cortina.
Sem pássaros ou nuvens. A rarefeita atmosfera não lhe incomodava. Sentia a gravidade perder sua jurisdição e quase não conseguia lembrar que um dia já tivera os pés no chão... alto!! Alto!!
O azul do céu agora se transformava no silencioso e descolorido frio. Nem mesmo um grito – se gritasse – seria ouvido. O silêncio parecia ser o senhor daquele novo mundo onde o tempo mais parecia uma canção de ninar em braile cantada à ponta dos dedos.
Subindo... subindo... os joelhos começaram a procurar o peito e os braços a envolver as pernas. Um abraço tão apertado quanto pudesse ser naquele mundo de regras incertas.
Começou com um formigamento que parecia vir da própria alma e deslizava para o umbigo, se espalhando pelo resto do corpo. Mesmo de olhos fechados, podia ver o brilho que saia de seu corpo embolado. E aquilo crescia. Parecia gritar dentro dele. Poderia ouvir seu corpo aos berros, não fosse aquele um mundo de silêncios. Por um instante pensou em cair pra dentro de si e aliviar a dor e o calor que agora o enlouqueciam, mergulhando em sua própria limitação e ser um buraco negro de existência cadente e retorcida. Mas não. Não faria isso. Preferiu abrir os olhos no ultimo instante e assistir sua existência explodir em um milhão de anos por segundo, em pipocos escandalosos de puro silêncio e cores berrantes em fogo. Espalhava-se pelo cosmo até que esquecesse que já tinha sido humano, tornara-se estrela entrando em nova e agora era pouco mais que uma fagulha vagando no silêncio.
Seria lembrado até que todos o esquecessem.

segunda-feira, julho 16, 2007

EL PICHADOR

[imagem: grafite de autoria de Banksy]


EL PICHADOR
Caminhava apressado e desconfiado. As mãos escondidas nos bolsos. Passos curtos e ligeiramente vacilantes. Procurou um lugar com pouco movimento. Apenas alguns transeuntes e nenhum desconfiaria dele: O capuz do casaco garantiria o segredo de sua identidade. Não que tivesse algum medo de ser descoberto, já que na verdade não passava de mais um zé-ninguém perdido no mundo. Um anarquista imaginário sem grandes feitos, que não aquelas mensagens de rodapé de grandes muros.
De cedo teve vontade de causar desconforto. Perturbar, ainda que por alguns segundos. Incitar o questionamento...
Não ansiava por grandes transformações na cabeça de ninguém, ainda que fosse esse o sonho de qualquer um dos anarquistas romanticos. Limitava-se às rápidas desconstruções.
Os que já tinham visto seu trabalho talvez pensasem ser ele um escritor de rodapés porque falava aos cabisbaixos, aos perdidos do mundo de olhar rente ao chão. Tão enganados estavam... queria ele escrever em altos muros sim, se lá sua mensagem pudesse mesmo ser entendida. Não havendo jeito, preferiu aceitar-se e pichar quase junto ao chão em um grafite rápido: “você devia estar olhando acima das estrelas”
Vivia assim, confundido com um artista que escrevia em rodapés como protesto, quando na verdade era portador de nanismo. O anão pichador traduzia perto dos pés o que era pra ser dito à alma.
Bem aventurados os sonhadores.

quarta-feira, junho 06, 2007

PROVOCAÇÕES DE HUMOR CAPCIOSO

Elas são teimosas. Às vezes fúteis, desinteressadas, sorrateiras, escondidas. Mal-ditas. Malditas!

Palavras e sua intencional Arte-Sabotagem, seu incontrolável destempero ácido. Reacionarismo ortográfico...

Obsessão impressa de destruir a obsoleta tendência previsível das fileiras encarriladas desses grupos fonéticos de desalinho midiático. Esquerda? Nunca!!! A intenção é escapulir para as diagonais, transversais e retro-rotas. A dança quase erótica de letras perdidas, certeiras em desconstrução, provocação, questionamento.

Hiatos. "Hiato é o encontro de duas vogais tônicas num vocábulo, como em saída (sa-í-da). Os hiatos são sempre separados quando da divisão silábica: mô-o, ru-im, pa-ís." [Wikipedia]. Será o hiato mais um Cisma imaginário ou mero Apartheid silábico?

A vogal, liberação do ar em entonação, me foge junto do resto do fôlego. Perco vogais, consoantes, ditongos, tritongos...

... prefiro ser mais um rebelde adebto das românticas causas perdidas, desertor das construções escritas faladas ou vividas. Um agitador fonético-ortográfico das desconstruções nuas, entregues à bebida e à orgia imaginária entre os prazeres fúteis e puramente efêmeros das letras enfileiradas. Causar desconforto aos que tentam pensar reto e promissor Sultão da Inversocracia desalinhada dos bons e velhos Sonhadores.


Caminho sutilmente, espalhando Caos aos olhos que enxergam em viés inesperado. Antes isso que ver pelos olhos de um morto.


Assinado: a Poesia em Letras, que não só não está morta como bebe, fuma, grita e devaneia.

sábado, abril 14, 2007

INVASÕES BÁRBARAS


Esperou lá fora até a luz apagar e dois instantes mais. Sorrateiramente chegou à janela e adentrou o quarto tão silencioso quanto um sonho manso. Pé-ante-pé, foi ao guarda-roupas, abriu e encontrou o que procurava: a caixinha de sapatos onde ela guardava seu diário. Compulsivamente começou a apagar todas as páginas borradas de lágrimas-de-sábado. Tudo!
Retirou do bolso um pacote cheio de giz de cera e encheu com desenhos infantis as amareladas páginas e devolveu tudo ao seu lugar.
Saiu pela janela como um garoto travesso, com um sorriso exagerado de satisfação: Queria que ela guardasse na memória só as melhores lembranças.
[Dar boas histórias de presente era um passatempo que lhe fazia sorrir feliz.]

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

TODOS DANÇAM NUS NO ELEVADOR DO CAOS

[Da Série Terrorismo Poético - Primeiro Ato]


Um velho mendigo, sujo, barbado e bêbado, trajando um vestido longo vermelho daquela famosa marca. Novo, impecávelmente novo. Dança loucamente no meio da avenida na hora do Rush.

O garotinho de cachos loiros e lindos olhos verdes no ápice de seus 9 anos de idade sobe no telhado de casa e se masturba à vista de todos enquanto brada com uma risada insana: “-Deus não passa de um velho safado!!!”.

Deitado no altar, chora o padre gordo usando uma coroa de espinhos e um ensanguentado manto vermelho do mesmo tom de sua Lingerie, abraçando a imagem da Virgem Maria. Em sua cinta-liga, farelos de hóstias e amassada dentro do cálice de ouro a homilia do dia; “queria morder tua carne ainda no corpo e sentir o sangue quente escorrer na boca, Senhor”.

A velhinha assiste à novela das 8 com um sorriso efêmero enquanto acaricia a cabeça do Rotweiller de seu neto que repousa entre suas coxas. Ele lhe retribui lambendo indecorosamente suas partes.

Todos aqueles carros com um único cartaz no pára-brisas: Logo abaixo da foto de um colorido girassol e em letras garrafais: BEBEZINHOS NATIMORTOS SÃO BENVINDOS À COZINHA DO NHECDONALD´S.

Um casal de idosos saindo do elevador. Ele sentindo-se um Jim Morrison da terceira idade, cantarola Wild Child; ela traz na mão uma versão moderna do Kama-Sutra e na virilha a tatuagem do coelhinho da Playboy . Ambos trajando nada mais que óculos de praia.

Todos dançam nus no elevador do Caos. A promessa do êxtase provocativo é como um pequeno Cocktail Molotov Poético: causa a fagulha explosiva do Terrorismo Romântico.

domingo, janeiro 28, 2007

NOITES DE SÁBADO

“Colocava o cinto e ligava o carro vagarosamente. Apertava o play [sempre tinha suas trilhas sonoras especiais à mão]; conferia o cabelo e a maquiagem no espelho [tinha um jeitinho de colocar o cabelo ligeiramente sobre o olho...]. Nem mesmo três quarteirões adiante, já estava com o esguicho sobre o pára-brisas. Era louca por aquela sensação de dirigir na chuva...”
[todas as chuvas são suas, das tormentas que derrubam a casa aos chuviscos que descem incertos pelo lado. Amo...]

sexta-feira, janeiro 05, 2007

DESASTRONIRONAUTA PULULANTE

O desastronauta perpétuo, desastrado andarilho do mundo imaginário, levara esse tempo perambulando suas [ir]realidades, fuçando letras passadas e imaginações semi-esquecidas. Sonhando...
Era de fato estranho seu relacionamento com os números em giro do relógio, e tornava-se um tanto imprevisível em suas aparições e sumiços: fazia vezes de Coelho Atrasado e Gato de Cheshire, aparecendo em partes, correndo e desaparecendo em todo sem deixar de estar ali mesmo.
Na favorita data, desamarrou laços de fita colorida, entregou caixas, sorriu, chorou, pulou e, como o faz reticentemente, sonhou. Esteve onde devia estar e continua...
Nos seis que teimam em virar sete trezentas e sessenta e tantas vezes, recolheu-se com sua amada boneca de olhar interrogativo e borbulhou inebriantes fogos coloridos na ponta da língua.
Agora era a vez de fazer os dormentes projetinhos pululantes saírem da gaveta um a um e começarem a fazer bagunça. Tinha um calendário novinho em folha pra transformar suas desconstruções em um desfile para olhos tantos quantos resolvessem assim passear.
Da terra inclinada do avesso do espelho, restam coisas por demais a contar, em um outro passeio assim corrido, pois "- é tarde! é tarde!! é tarde!!!"...

sábado, dezembro 23, 2006

Pela chaminé empoirada, descem presentes coloridos. Amanhã tem Post de Natal...

ps: eu definitivamente AMO o natal...

domingo, dezembro 03, 2006

O MÁGICO AMARELO

O mágico amarelo era um daqueles mistérios estranhos que surgem na cabeça durante uma cochilada na cadeira e ficam na memória.
Ele transformava letras soltas em versos sorridentes com um simples gesto. De sua cartola cartola brilhante saíam estranhas criaturas: borbolefantes, interrogrilos, crocodilírios, tamanduárvores e outros tantos...
De suas mangas compridas voavam estrelas, e dos dedos pipocos coloridos. Mini fogos-de-artifício...
Nas cartas de baralho, aqueles leques bem distribuídos de possibilidades, entre ases vermelhos e negros, sempre surgia uma foto velha de um tempo remoto que só o espectador via, e só faria isso por uma pequena fração de segundo, o bastante pra fazer aparecer num passe de mágica um turbilhão de memórias...
Mas o mágico era estranho. Transformava coelhos em anões de jardim com compulsiva vontade de conhecer o mundo; e esboços de um dia cinzento em olhinhos apertados e bochechas contraídas.
Um dia resolveu, só por curiosidade, usar o truque do desaparecimento. Apontou para si a varinha e um clarão esfumaçado tomou o palco.
Abracadabra...

segunda-feira, outubro 30, 2006

SOBRE DOMINGO, 29 DE OUTUBRO E AS ESCOLHAS

"L'art est mort. Ne consommez pas son cadavre!"
[A arte morreu. Não consumam o seu cadáver!]

Cada povo tem o govenante que merece. Que venha o fogo e consuma o pouco que restou.

[Cartaz e frase: França, Maio de 68]

segunda-feira, outubro 16, 2006

LADO A

Recompôs-se, tratando de esconder a surpresa mas traído pelo rubor das faces. Olhou o relógio e constatou que mal passaram 30 segundos desde a última olhada. Colocou-se de pernas cruzadas elegantemente uma vez mais e tentou pensar sobre outras coisas, enquanto esperava o doce calafrio fugir de suas carnes.
Às vezes os sonhos escorregam pela nuca e dão aquele arrepio gostoso que faz a boca encher de saliva e as mãos se apertarem. Tinha aquela incoerente mania de perder-se em possibilidades tocadas no gramophone de sua imaginação.

sábado, outubro 14, 2006

SOPA DE LETRAS

Arremedo em escritas as palavras em digestão.
Embaralhando a língua nas estrelas apagadas do céu da boca, cravo os dentes naqueles versos nunca ditos por esses lábios desertores.
Não sairão! Não sairão!
Engulo em seco, empurrando goela-abaixo pronomes pessoais e reticências. O faria a noite inteira, não fosse essa interrogação engasgada na garganta...
Sufocado, entalado, vomito verborrágico a sopa de letras mal-digeridas daquele jantar. Antes tivesse me alimentado da chama das velas que desenhavam a penumbra. Queimaria menos, a gastrite que essa palavras gordas, saturadas de ambigüidade e entonação duvidosa me causam...
É o castigo por essa fome desgraçada de palavras enfileiradas, frases e versos. Me torno um bulímico devorador de letras infames.
......................
[Sr. Pan, crie vergonha e ajeite meu template. tenho saudade dos meus links. hunf.]

sábado, outubro 07, 2006

Cores cores.

Aquele universo de cores que perambulavam à sua volta, trazia uma interrogação em cada. Cores sorridentes, cores afoitas , cores compulsivas, cores exóticas, cores da madrugada, cores sumidas, cores incertas...
Aquarelecia em suspiros longos e lágrimas escondidas. Era um tal de "pinte-se tudo" e "espalhe tons"... transtornava olhos desprovidos de cor com suas aberrantes ilustrações e só, já que por mais que tentassem, cores nao iriam ver.
Pincéis em forma de letras eram o instrumento, e imaginações, suas telas favoritas. Fugia do impressionismo com doses de surrealismo torto e cartum. Desenhava fora das linhas e pintava até as molduras. Cores subversivas que repousavam em delicados traços fugidos de um delírio.
Praticava dança de salão com aqueles azuis mais guardados e rumba com os vermelhos. Tcha-tcha-tchá com as mais animadas.
Cores perambulam sempre e vão pelo caminho que escolhem...
Latas de tinta esparramada em forma de sorrisos de sábados saudosos...

domingo, outubro 01, 2006

Teresa e seus amores - Parte Final

Enfim, a última parte de Teresa. Aos que tiveram paciência de regar os olhos com a doce cajuína, agradecimentos enviados do lado de cá.
[à doce boneca de olhos interrogativos e beijos açucarados]

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Teresa então arregalou os olhos. Só então se apercebia de quem era ele e do que havia lhe pedido.
O índio sacudiu suas quatro asas poderosas, retirou da tanga a faca feita com o grito da mãe do pescador Crispim. Ela brilhava como a lua.
- Teresa, Teresina minha amada, eu arrancaria do bucho do céu todo o azul, se tu me pedisse. Mataria de novo o boi-estrela, de quem Nêga Catirina devorou a língua, e até gritaria mais alto que a voz-trovão de teu pai, se tu assim me pedisse.
- Tua mãe deu de presente aos de minha linhagem uma moradia em seu vestido. Por que iria eu negar-te uma estrela, se é isso que me pedes como prova de amor?

Poty cravou fundo a faca no peito. Do talho escorriam sonhos e cores. A cor do vermelho-único do urucum.
Teresa desesperava-se, enquanto Poty se desmanchava em sangue.
- O que você fez ???
Tentava falar enquanto o soluço roubava sua voz e as lágrimas lhe escorriam dos olhos.
Poty sorria.
- Minha doce Teresa, meu sangue vermelho pinta o agora, mas meu brilho-estrela escreverá na noite dos dias-amanhã o teu nome e o meu. Aqui parto pra cumprir minha promessa. Meus pés velozes não mais tocarão essa terra, mas se teus olhos me beijarem no céu todas as noites, irei brilhar tua cor e ser estrela de um só dono, até que teus pés miúdos também larguem esse chão cinza e voltes pro útero da noite, onde te espero. Não demore, minha amada, ansioso parto pra te brilhar noites a fio, esperando o beijo doce de teus lábios de mulher com jeito de menina.

- Leva em teu vôo meu olhar, meus beijos e minha alma, doce e louco Poty. Hei de todos os dias cantar ao vento esperando tu chegar na noite, e quando te vir minha voz cantará o silêncio, até que minha mãe se compadeça de meu sofrimento e me dê casa em ti, minha estrela amada.

E Poty subiu.
De suas asas poderosas saiam tornados. Em seu sangue vermelho único faiscavam gotas cintilantes. Num pipoco estridente, saíram cores histéricas e músicas atordoantes. O índio subia alto e aos poucos era menos gente e mais sonho. No meio da noite negra, nascia uma nova estrela. Brilhava verde no céu, enquanto as outras eram azuis ou vermelhas. Aquele era o tom de verde da cidade-mulher, sua amada.
E foi assim que nasceu a estrela de cor única, feita de sonho de um amor separado e imaginação ”

- Poty morreu, vovó?
- Não, minha querida. Ele virou uma estrela.
- Por causa do presente da noite ao índio curioso, né?
- Sim... e porque sua Teresa amava estrelas, e queria uma só dela.
- E o que aconteceu com Teresa?

“Teresa sentou e chorou. Passaram-se dias sem que ela saísse dali ou desviasse o olhar perdido do céu. Foram tantas as lágrimas que escorreram de seus olhos brilhantes que ali nasceu um rio. Um rio de forte correnteza, que desliza por toda aquela terra imaginária, onde os seres feitos de mágica iam festejar em tempos remotos.
O rio de lagrimas de Teresa, gotas tristes de saudade, carregava a felicidade das lembranças, o tesouro dos sorrisos e as borboletas imaginárias que nascem no meio da barriga em dias felizes, tudo encharcado pela dor das despedidas.
Por onde cruza o rio de Teresa, que hoje chamam de Poty, nascem girassóis insanos e outras flores subversivas, de cor apaixonada e saudade pintada em melodia.”

- Teresa chorou um rio inteiro. É muito amor em uma pessoa só, mamãedinha.
A velha repousou o cachimbo sobre o vestido desbotado, e com um sorriso brincou apertando o nariz de Teresa:
- Um dia seu coraçãozinho também vai crescer, querida. Vai se encher tanto de amor por alguém, que vai vazar pra alma, subir pros lábios em forma de sorrisos bobos e pros olhos em um olhar perdido, e depois escorrer pras pernas, onde vai virar aquela tremedeira incerta.
Teresa riu marota, apoiando o queixo nas mãos e querendo pra si um amor que causasse tanto rebuliço.
- Teresa não teve filhos, vovó?

“Teresa ainda espera o dia de ir morar com seu amado. Às vezes chora de novo por seu índio, fazendo subir as águas do rio. Há quem diga que ela chorou outro rio por um tal Monge Parnahyba que morreu salvando-a do tenebroso Crispim-pescador, que de tanto guardar maldade nas idéias, ganhou uma cabeça inchada como uma cuia. Mas isso é só fuxico sem rumo daquela cidade esverdeada.
Quando chega setembro e os outros meses de perto, o calor da saudade consome Teresa. É um B-r-o-bró de desejos. Nessa época, a noite tem pena de sua filha, e usa aquele vestido enfeitado e brilhante, pra matar parte da saudade que Teresa tem de beijar seu índio-estela amado. Ele pega carona no corisco e escapole pra dentro de Teresa, nadando no reflexo do rio, até que chegue o dia dos dois terem um só riso-poema, no toque de beijos apaixonados.
Ela, que tem o dom de transformar tudo o que toca, danou-se a parir arte, música e poesia na forma de filhos talentosos. Eles são gerados na imaginação e paridos do bucho do Piau, e se espalham por todo canto. Dizem que eles são parte do plano de sua mãe de misturar de novo os mundos, pra que a mágica saia das lembranças e volte pro mundo dos homens.”

Teresa dormia com um sorriso nos lábios. Sonhava com amores incríveis, homens-estrela e cajuína. Sonhava com o mundo como ele era antes dos homens inventarem a tal realidade. Sua avó acendia o cachimbo uma vez mais, e daquela brasa diferente subiam formas encantadas desenhadas pela fumaça. Ela, que também era filha da imaginação, se perdia em lembranças da adolescência, quando os que hoje são personagens de histórias eram seus amigos de roda. Tempo em que os olhos sabiam ver e todas as maravilhas da realidade fantástica viviam suas aventuras. Bons tempos que hoje são histórias, contos e lendas.
Deu uma longa tragada no cachimbo.
- são histórias, e devem ser contadas, pois enquanto alguém se lembrar elas não terão Fim...

sexta-feira, setembro 22, 2006

Teresa e seus amores - Parte III

Conforme anunciado anteriormente, Teresa será publicada aqui em 4 partes. Essa é a penúltima...
[o sorriso interrogativo foi passear em horas longas, mas quando estiver de volta os olhos desiguais ainda estarão aqui. Sempre... Amo. Amo...]

.........................................

[continuação]


“Os dois dançavam e cantavam. Teresa, que havia aprendido também o dom do vento, misturava-se ao homem-pássaro-brisa. Poty, que fora tocado por Teresa, cantava em assovio entre as folhas de um jeito encantado, como nunca havia feito antes.
Dançaram, até cansar e cair no chão de fim de tarde. Um formigueiro de sorrisos fugia dos dois.
- Tenho sede. -disse ela, enxugando o rosto com as mãos.
O índio passou a mão nos lábios de Teresa e do açúcar que lhes escorria, moldou uma taça rústica. Entregou a ela. Estendeu as mãos abertas ao cajueiro d`ouro e este lhe deu os três cajus mas bem feitos de suas galhas. Poty espremeu os frutos entre os dedos, fazendo escorrer um suco cristalino para dentro da taça. Afastou-se um pouco e sem tirar os olhos de Teresa, sussurrou algo à bebida, que em um redemoinho borbulhante tornou-se da cor do bronze. Com um sorriso entregou à Teresa.
- O que você fez?
- Contei um segredo a ele. Em troca, ele virou cajuína. Virou um espelho da cor dos seus olhos.
Ela experimentou a bebida e se deliciou.
- Um presente pra você.
Ele riu, todo convencido. Os dois ficaram até o sol ir sonhar e a noite aparecer, olhando pra eles misteriosa.
Estrelas pipocavam no céu. Há tempos a noite não usava aquele vestido de festa.
- São lindas, não são? As estrelas... - falou Teresa, parecendo uma criança. Deu uma risada longa, fechando os olhos. Sonhadora.
- Tenho vontade de tocá-las, mordê-las... Ter uma delas só pra mim.
O índio riu ao lembrar de quem eram algumas daquelas estrelas.
- Quero um presente de você. - falou o filho do vento.
- Um presente... - repetiu ela como se já soubesse o que viria.
- O que quer de mim, veloz Poty, filho do vento-águia com o índio curioso?
- Quero seu poema mais doce recitado com o sorriso mais belo e entregue em um beijo duas vezes infinito.
Respirou fundo.
-... pedes um tesouro sem preço e que já é teu, belo Poty. Desde sempre.
Ele se agitava.
- Mas não vou te entregar assim. Ouça-me bem, filho do vento do norte. Já me ensinaste os segredos da mata, a magia do vento e a sussurrar encantos para a cajuína. Tudo isso são cores a mais pro sonho... Da primeira vez que te olhei já era mais que tua. Desde antes do sorriso do sol queimar o céu e fazer nascer a noite. Já eras meu antes mesmo do açúcar fugir da boca da imaginação e se esconder no sorriso dos sonhadores. Nossa história é mais antiga que os amores, que as cores...
Quero de ti, doce índio dourado, uma estrela. Uma estrela pra selar nossa união. Uma estrela só minha pra que seja só nossa.
O índio ergueu-se. Olhava sério para Teresa.
- Nossa história já era contada no zunido das flechas rasgando o ar, no tempo dos deuses, quando os mundos estavam em guerra. Mãe Terra pariu o cajueiro, pra que de meus dedos escapulisse o suco de oferenda a você. Desde que o vento era uma sensação não-nascida, nosso amor já era contado.
- Teresa, filha da negra Noite misteriosa com o Corisco zangado e barulhento, me pedes uma prenda cara, mas eu, Poty, filho da Águia-vento do norte com o Índio curioso que soltou a noite da tucumã, tenho palavra.
Teresa então arregalou os olhos. Só então se apercebia de quem era ele e do que havia lhe pedido.
[a seguir, a última parte...]
[www.fotolog.com/cafeinaman]

terça-feira, setembro 19, 2006

Teresa e seus amores - Parte II

Do mundo dos sonhos, retorna o desconstrutor com mais um pedacinho de Teresa...
PARTE II DE IV
[continuação]
“ Teresa não conseguia esquecer aquele índio lindo, e em seu sono chamou por ele. Estava caminhando naquela chapada alta. Faceira, colhia flores. Poty a acompanhava com os olhos, se escondendo no assovio do vento das asas dos pássaros dali e no deslize das folhas. Teresa sabia que ele estava lá, mas fingia que não havia notado. Gostava de brincar daquele jeito. Uma brisa correu e mordeu sua orelha:
- vem menina da noite nos olhos. A floresta inteira esqueceu como cantar quando tu foste pra longe. - Sussurrou no ouvido dela. Saiu tão rápido quanto veio, e ela então acordou. Acordou e encontrou três penas no travesseiro: uma verde, uma amarela e uma branca.
Teresa arrumou as penas em um colar e correu em busca do vento. Entrou fundo na mata, sem medo. Na verdade adentrava do domínio de seus sonhos, que eram frondosas árvores de frutos adocicados. Embaixo do Cajueiro d´ouro sentou esperando seu amado.
O vento, sorrateiro como ele, esgueirou-se entre as folhas e sussurrou docemente:
- Sabia que você viria... -Dobrou no ar, levantando folhas.
- Minha curiosidade sempre vence meus pés...
- Belas penas ornamentam seu pescoço. -Riu o índio sentindo-se convencido.
- Surpresas que o vento traz durante os sonhos. -Brincou ela enroscando os dedos no colar.
O vento levantou folhas no ar, rodopiou e deu forma ao índio dourado com pinturas coloridas no corpo e pulseiras trançadas de penas brancas, verdes e amarelas. Ele sorria largamente.
Os olhos de Teresa brilhavam. Tinha um sorriso poético nos lábios.
Poty era da floresta como o açúcar é dos sonhos. Conhecia cada pedra, árvore criatura e som. Conduziu Teresa por caminhos que os homens acordados não conhecem. Catou para ela flores únicas, de cores variadas e cada uma delas tinha uma nota musical. Um ramalhete de cores e música, presas por duas flores de cor incerta: um bemol para dias tristes e um sustenido para dias melhores.
Poty ensinou à Teresa como se vestir de bicho, se esconder sob escamas de peixe, enxergar como o anum e a correr como a capivara. Teresa se perdia sem notar (nem resistir). Poty ensinou à Teresa como arrancar o sangue-tinta das sementes miúdas, para pintar desejos vermelhos em sua imaginação.
- Eu nunca havia visto um vermelho como esse. -disse Teresa olhando para os dedos manchados.
- Foi o desejo em pessoa que misturou tons até chegar a essa cor. Pra proteger seu tesouro, o vermelho único, o escondeu no ventre marrom do urucum-sem-graça.
Teresa esticou os dedos vermelhos e começou a desenhar no ar. Escreveu seu nome tão junto ao de Poty que não se podia dizer onde terminava um e começava o outro. O índio ficou tão maravilhado que mal percebia o vento fugindo de suas asas pra dançar com as folhas.
- Você consegue desenhar sons...
Teresa ria vitoriosa. Prendera Poty ainda mais em seus encantos.
- Desenhar sons é escrever a alma. Ensino a você.
Poty ensinou à Teresa os segredos da mata. Teresa ensinou a Poty a poesia desenhada.
Os dois sentaram sob o Cajueiro d`ouro e conversaram como se já se conhecessem desde sempre. A noite nos olhos dela roubaram o coração de Poty e os dele faziam-na tremer. Conversaram sobre a mágica no vento, verde das árvores e a tinta dos sonhos, pois aquele povo-pássaro sabia bem de sonhos...”

- Teresa fazia poemas, mamãedinha?
- Teresa por si só era um poema.
- E ensinou ele a escrever...
A garota ficou perdida com um olhar distante.
- Ensinou ele a desenhar sons, escrever a alma... Teresa tinha um dom secreto, que nem mesmo ela sabia possuir: tudo o que tocava virava arte, poesia e melodia.

“O índio-pássaro rodopiou em forma de vento ao redor da filha da noite, deslizando entre as árvores, fazendo uma doce melodia flutuante surgir. Teresa dançava fazendo seu vestido se misturar com o próprio vento. Começava a cantar...”

- Mas ela não tinha voz de trovão?
Indagou a pequenina.
- Sim. Cantava com uma voz de trovão, mas daqueles trovões de chuva calma da madrugada, que lhe embalam o sono de uma forma mágica. Faz você dormir sorrindo, se perdendo entre as cobertas.
[continua...]