sábado, dezembro 05, 2009

ALMA DE CEGO NÃO DERRETE

Trabalhava diariamente na calçada de uma sapataria. Sentado sobre as pernas e restos de uma caixa de geladeira. Erguia a bacia suja e desbotada quando ouvia passos em sua direção. Recebia com um sorriso de dentes gastos e agradecia com um “deus-lhe-abençoe” a um trocado qualquer que lhe deixassem.

As cores do mundo o abandonaram em uma desilusão amorosa de fim de semana. Um desalento daqueles que arranca um naco da alma e desafina os verbos. Moço, inconseqüente, jovem e apaixonado, terminara por desistir de ver o mundo e seus tons e semi-tons. Descobrira que a liquidez da alma se dava pelo encanto que entrava pelas suas janelas. Sem hesitação foi à cozinha e com uma colher de sopa arrancou fora os olhos e os atirou janela a fora. Trocou as luzes por um par de olhos vítreos e opacos.

Anos mais tarde e muitos tombos depois, conhecia os caminhos com os dedos. Na ponta de seu toque estavam os mapas de todos os lugares por onde seus pés o haviam conduzido. Quem vive no escuro aprende esbarrando e caindo pelo caminho. Nessas andanças esquecera também o sabor do doce já que é nas cores que moram o açúcar dos dias saudáveis.

Vivia a deslizar pelas calçadas e vez ou outra um banco de praça para um sono breve e sem sonhos. Um intervalo de escuridão desperta e outro adormecido. Um dia em sua mendicância ouviu um tilintar diferente em sua bacia. Com dedos sujos e longas e amarelas unhas, remexeu e misturado às moedas encontrou uma esfera estranha e coberta por um pó grosso. Seus dedos conheciam aquilo, mas sua memória o traía. Tateou, circulou, cheirou... nada. Por fim resolveu levar à boca, na esperança de que sua língua dormente pusesse fim ao seu tormento de cego. Hesitou por um instante... a vida às escuras o havia feito um tanto inconseqüente, mas sempre havia a segurança em braile a lhe resguardar. Dessa vez era pura ousadia e risco. Respirou fundo. Nada tinha a perder. Colocou na boca e depois de passear com a língua em volta deu uma mordida forte.

Por um instante sentiu a língua formigar e o ar lhe escapar pelas narinas. Antes que pudesse racionalizar o que se passava, um gosto se formou em suas papilas. Era doce. Fora traído por sua própria cegueira e terminara por levar à boca uma jujuba. Sequer podia praguejar, pois no céu de sua boca já brotavam estrelas e em seus olhos vazios uma coceira desesperada. Sentia um calor crescendo em seu interior à medida que seu corpo amolecia. Podia ouvir o próprio coração acelerando. Batia como tambores tribais, cada vez mais alto. Sentia a alma liquefazendo-se, como uma vela de natal derretendo em puro inverno. Por um instante não conseguiu mais coçar os olhos e um clarão irrompeu deles. Brilhavam forte, transparecendo as vidraças opacas das janelas de sua alma. A luz ganhou espectros e se lançou ao céu em 7 raios coloridos.

Seu corpo desprendia-se como uma casca vazia à medida que sua alma escorria pelos olhos em um arco-íris radiante, até que não passava mais de um conjunto de mulambos sujos e rotos na calçada enquanto ele mesmo, doce e colorido, jogado ao céu sem fim. Não era dia de chuva mas toda a cidade viu o arco íris.

De um outro canto qualquer, um garoto pensava nas historias que ouvia sobre aquilo. Mal sabia o quanto enganam-se em dizer que no fim do arco Iris há um pote de ouro. No início dele há uma bacia de trocados largados e seu fim se perde entre as nuvens, onde o céu nunca é o bastante e toda alma é líquida e doce.

[vejam também www.flickr.com/photos/rfalcao]

quarta-feira, outubro 21, 2009

Tum-tum

Distribuía gentilezas e sorrisos sinceros no decorrer de seus dias. Era naturalmente de boa índole. Desde cedo fora educado assim.
Ainda criança, cedia aos amigos sua vez na partida de pelada, no videogame e até na "salada-mista" com a menina de vestido floral.
Na adolescência, emprestava a bicicleta pra irmã, fazendo o percurso até em casa caminhando e por várias vezes assumia o sumiço do doce da geladeira, ainda que sequer tivesse visto. Não vivia assim como uma forma de auto-punição, muito pelo contrário.
Abria a porta para os outros, cedia a vez, fazia mesuras até aos pedintes de ponta de esquina. Fazia com prazer. Suportava as mais intensas provocações, sempre rebatendo com m sorriso de meia bochecha e um delicado "aaah eu discordo disso". Ate mesmo seu caminhado era sutil e silencioso, mesmo carregando no bolso aquele pesado molho de chaves que sempre o acompanhavam.
Agradava crianças e jovens, e os idosos o queriam adotar. Era esse tipo de gente, que se convida pro almoço logo que se conhece, e pro fim de semana antes que a o almoço acabe.
Um dia, vinha entrando com aquele sorriso de sempre, sem gestos exagerados, passos rapidos e silenciosos e a respiração perfeitamente ritmada sob a camisa branca e bem passada com um leve aroma de amaciante de lavanda. Ao chegar no meio do saguão, trocou as flores da mesinha e então abriu lentamente o paletó, deixando brevemente visíveis aquelas linhas bem distribuídas de de silver tape e dinamite, além de um cronômetro digital sobre o coração. Apertou o botão e com um breve clique mandou tudo pelos ares em uma estrondosa explosão.
Misturavam-se nacos de carne, pedaços do teto, paredes e vidro. Ninguém sobreviveu.
Teve uma vida interira de coração tranquilo e gentilezas, mas o coração de um Homem-Bomba bate uma vez só.

quarta-feira, setembro 09, 2009

Nove x Nove x Nove

Deveria ser hoje. E é.
Não do jeito planejado, não conforme a conspiração previa. Ainda assim é.
Isso não deixa menos especial, apenas nove vezes diferente e outras nove mais, importante.
No amor, nove em pé - 99 - ainda que tenha longo chão entre os pontos. No sexo, amor reverso e sacana - 69. Encaixe seguro. perfeita sincronia.
Nove é o número da perfeição, do equilíbrio. Pra mim é também um número de promessas. E isso não é só "nove horas" como se diz aqui, em referência à conversa fiada. Dou minha palavra por 9x9x9.
Que venham outros noves, dez, onze e etcéteras.
Amor sem noves fora, 9x9x9, amor.

domingo, agosto 30, 2009

Twitter

Correndo. Correndo.

Aos queridos visitantes dessa casa, desculpem a ausência dos últimos tempos.
Escorro entre os tique-taques da vida.

Me rendi e agora também estou aqui: www.twitter.com/regisfalcao


Tem novidades aqui também: www.flickr.com/photos/rfalcao

E eu prometo que logo logo vou deixar de ser teimoso e vir atualizar aqui.

domingo, julho 12, 2009

FOTOGRAFOS INVADEM CASAS NO PIAUÍ!



A edição deste domingo do Jornal "O Dia" publicou uma excelente matéria assinada pelo jornalista Edson Costa sobre o II Varal de Fotografia realizado pelo Piauí Photo Clube.
A exposição em forma de varal possui modelo informal, onde as fotos são expostas em varais e presas por pregadores de roupa. O objetivo é tanto divulgar o trabalho dos artistas como atingir os mais variados públicos, popularizando a fotografia nos mais diversos lugares. O II Varal contou com 60 fotos e em torno de 20 participantes, tendo se realizado no Encontro dos rios (vide posts anteriores).
Na matéria, cuja capa traz a foto do nosso amigo Márcio Anderson, também merecem destaque para as fotos de Nayara Nery, Maurício Pokemon, Mesquita Diniz e Felipe Mendes, além deste que escreve.
O II Varal foi organizado por João Rufino e Márcio Anderson, que encabeçam o PPC e botam essas câmeras pra funcionar, e se tudo der certo em agosto teremos a III edição.
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Agradecimentos: Edson Costa, Marcio Anderson e João Rufino.
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A reportagem de centro da Revista Metrópole onde aparecem as fotos da Nayara Nery, Regis Falcão, Maurício Pokemon, Mesquita Diniz e Felipe Mendes:


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A linda foto do Márcio Anderson que estampou a capa do Jornal:
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E a minha foto, publicada no mesmo:
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E por fim os participantes do II Varal de Fotografia do Piauí Photo Clube:
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[Vejam também: Meu Flickr]

segunda-feira, julho 06, 2009

INGLÊS NO PESCOÇO.

Nas segundas era todo engomadinho. Levantava trinta minutos mais cedo que o de costume, pra poder fazer a barba com zelo.
Nessa ocasião trocava religiosamente as laminas do aparelho. Era dado a superstições bobas e laminas com mais de três usos atraíam má sorte.
Fazia a barba com a paciência e a precisão artística de um escultor. Mirava e deslizava suave a navalha até que julgasse seu rosto digno de uma segunda-feira.
Limpo, barbeado e com um leve tom vermelho-azulado nas maças do rosto, parecia mais profissional que o velho gerente do andar de cima com sua abusada colônia de rosas e o paletó quadrado desbotado de trinta e dois anos de empresa. Sentia-se invencível e ninguém podia contradizê-lo.
Era perfeccionista e de fato não arredava o pé até que estivesse com aquela aparência de coluna de mármore, perfeitamente lisa. Era quase como um pequeno ritual de purificação reservado exclusivamente para as segundas, já que a barba de quarta era consideravelmente menos criteriosa e a de sexta uma verdadeira incógnita desleixada. Talvez quisesse com aquele ato sanguinolento de maltrato às curvas de seu rosto, compensar a falta de limites do fim de semana, como se quisesse se livrar de tudo aquilo de condenável que fizera.
Complementava com uma bela e fina gravata atada com "nó inglês" perfeitamente arrematado. A gravata escolhida à dedo para combinar com a camisa bem passada com vincos laterais bem destacados. Ne quarta feira era a primeira que lhe viesse à mão, e da quinta em diante um "deus dará".
Mas na segunda era assim, barbeado, engravatado, alinhado. Perfeitamente concentrado e funcionário exemplar, até que o monstro da semana lhe devorasse o zelo e a vaidade dando em troca as rugas na testa e à gravata um mal feito nó de "Windsor" que resumia toda a mixórdia de sua conturbada semana.
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[visitem também: www.flickr.com/photos/rfalcao ]

sábado, julho 04, 2009

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN CONSTANTINO

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Nascido de amor profundo, entre suor e dor física ele veio ao mundo. Em silêncio, como o caçador que chega sorrateiro com o vento.
Em Lua de sexta, ele nasceu. Traz consigo a Pata do Leão do Norte e o Uivo do Lobo do Inverno.
Que sua jornada seja longa e os perigos não o assustem, bravo Benjamin. Que o mundo, esse grande dragão de dentes afiados, não vença seu escudo, e que o fio de sua espada sempre verta o primeiro sangue.
Voe alto e grite com poderosos pulmões, pois a saga começa.
Bem vindo, Benjamin.
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[Aos meus amados Carla, Gustavo e o pequeno Benjamin. Parabéns!!]

quinta-feira, julho 02, 2009







Bem, recebi ontem um e-mail com o aviso da indicação. Um tanto tarde pra concorrer, mas só a indicação ja faz cócegas no ego. Quem quiser votar, à direita e abaixo tem um selinho com o link.
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Amanhã é dia de texto novo.
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visitem também: www.flickr.com/photos/rfalcao

segunda-feira, junho 29, 2009

LESTE ÍTACA

"Quando você começar sua viagem para Ítaca, reze então para que a estrada seja longa, cheia de aventura, cheia de sabedoria.
Não tema os Lestrigões e os Ciclopes e o bravo Poseidon.
Você nunca vai encontrá-los em sua trilha se os pensamentos continuarem amplos, se uma fina emoção tocar seu corpo e seu espírito. Você nunca vai encontrar os Lestrigões, os Ciclopes e o feroz Poseidon, se não os carregar consigo em sua alma, se sua alma não os erguer diante de você.
Reze então para que a estrada seja longa. Que as manhãs de verão sejam muitas,Que você entre em portos vistos pela primeira vez com tanto prazer, com tanta alegria.Pare em mercados fenícios e compre finas mercadorias, madrepérolas e corais, âmbar e ébano,e perfumes agradáveis de todos os tipos, compre tantos perfumes agradáveis quanto puder; visite anfitriões de cidades egípcias, para aprender e aprender com aqueles que têm sabedoria.
Sempre tenha Ítaca fixa em sua mente.
Chegar lá é seu último objetivo. Mas não apresse a viagemde jeito nenhum. É melhor deixá-la durar por longos anos; e até mesmo ancorar na ilha quando vocêestiver velho, rico com tudo que tiver conquistado no caminho, sem esperar que Ítaca lhe ofereça riquezas. Ítaca lhe deu a bela viagem. Sem ela você nunca teria tomado a estrada. Mas ela já não tem o que lhe dar.
E, se você achá-la pobre, Ítaca não fraudou você. Com o grande saber conquistado, com tanta experiência, você certamente deverá ter entendido o que Ítacas significam."
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(Konstantinos Kaváfis)
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[Da série: Coisas que eu queria ter escrito.]
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[perambulando em postagens antigas do blog, me deparei com esse texto maravilhoso que me foi deixado pela querida amiga Lilith. Merece uma postagem na página principal com muito louvor]

quinta-feira, junho 25, 2009

PASSEIOS DE QUINTA

Acordei com seu rosnado e o peso de suas patas na minha cama. Antes mesmo de olhar já sabia que era ele. Desvencilhou-se da corrente, das trancas e veio direto pro meu quarto, atirando-se janela a dentro. E eu podia jurar que havia deixado o tinhoso bem trancado no quarto dos fundos...
Discretamente, olhei de canto de olho fingindo dormir. Não adiantou. Logo começou a puxar o cobertor que eu usava pra me esconder – como todos sabem um cobertor quentinho pode protegê-lo de quaisquer males, do mundo ou imaginários, ainda que eles permaneçam lá fora - e nem isso adiantou. Hoje ele veio determinado, e logo começou a me morder os pés com uma insistência insuportável.
Enfim, desisti e levantei. Não há como competir com um bicho tão persistente.
Enquanto troco de roupas ele destrói mais um sapato meu em uma brincadeira furiosa. Apenas observo, me questionando se ele nunca ataca um sapato cujo outro pé já tenha sido destruído por algum senso de moral destorcida; como uma lição, ao vitimar apenas um e deixar o outro como um lembrete de que parte de mim pertence a ele; ou se seria apenas sadismo.
Abro a porta e de imediato ele se coloca ao meu lado. Já conhece minhas artimanhas e eu sei que não vai adiantar tentar sair rápido e deixá-lo trancado do lado de dentro, ou voltar ao quarto e prendê-lo de fora. Lado a lado, dividimos o caminho como siameses, desconfiados um do outro.
Sob protestos, vou e cumpro minha sina junto do meu companheiro não opcional.

Às quintas-feiras é inevitável levar meu mau humor pra passear.

terça-feira, junho 23, 2009









Quem quiser colorir os olhos, apareça!

[ E o Sr. Regis também vai expor. ; ) ]

Realização: Piauí Photo Clube.

domingo, junho 07, 2009

RITO FÚNEBRE [OU EPITÁFIO DESLETRADO AUTOACUSATÓRIO DE UM VERBERRÃO INFAME]





Faleceu na última quinta-feira mais um poeta. Morreu de Verborragia Crônica. As poucas letras dedicadas ao seu epitáfio, publicado quase imperceptivelmente na edição vespertina do periódico de sexta, entre o anúncio de um poodle perdido e um edital para o cargo de coveiro com os dizeres:

“partiu na última quinta-feira Augusto Silvério Cortez, escritor e poeta, editor semestral da coluna de crítica literária do jornal “Há Dias”. Falência múltipla da criatividade agravada por relogismo acentuado. Saudades, amigos, familiares e leitores. A missa se realizará na Catedral de Longa Viagem”

Não que fosse de todo ingrato ou mesmo injusto, mas poderia se dizer exagerado, visto que “poeta” é uma alcunha pomposa em se tratando daquele em particular. Era na verdade um letreólatra costumaz, que era flagrado comumente em ambientes de dignidade duvidosa consumindo verbos antes mesmo das dez da manhã.
Os poucos com quem conversava, menos ainda tinham dele o que falar. Esquecia aniversários, nomes e compromissos. Talvez sua mais memorável característica fosse aquela sua colônia barata, que costumava permanecer nos recintos por horas após sua partida. Diriam em justificativa talvez, que andava em fase sombria de seus dias, dedicando-se cada vez menos às letras suas e progressivamente à esvaziar páginas de outros, sem deixar de ostentar com desdém da alcunha de escritor, enquanto fechava-se na moribunda expressão de sua própria testa, a sinopse de sua vida.
Seu vício já atingira tamanha expressão que misturava sobrenomes, épocas das publicações e títulos das mais distintas e altivas edições em frases sem sentido. Se fazia isso por prazer sádico em causar confusão ou por avançada debilidade mental, nem mesmo o caixão – doado por um benemérito vereador de um partideco da câmara local – saberia responder.
Dada a profunda ausência de pauta e algum assunto de interesse público nesta noite de domingo, nossa coluna resolveu dedicar não só um breve comentário, acima verificado, como formular o não menos infame e absolutamente indigno - porém um tanto mais indicado - epitáfio que se segue:

Dia desses morreu mais um proferidor de impropérios e desinteresses. Partiu só, sem herdeiros, amigos nem obra que mereça citação. Crítico literário, pretenso poeta e medíocre jogador de sinuca. Verbólatra, fumante e torcedor do botafogo. Dada sua desimportância, seu nome será também ignorado. Não sentirão saudades amigos, familiares ou mesmo o periquito mudo que catou no quintal, vitimado pelo último inverno. Não haverá missa de sétimo dia. PS: VENDO CORCEL 73, BOM ESTADO, ÚNICO DONO INTERESSADOS TRATAR 1982-2009

[Qualquer coincidência com nomes e fatos do cotidiano é inteira responsabilidade da vida, a mais sádica espectadora dos dias e infortúnios do mundo]
[Com a devida Venia, dedico este texto ao grande mestre Yosif Landau. Por pura ironia do destino, logo após publicar no meu blog iniciei minha peregrinação de leituras, coincidentemente no blog dele esbarrei em um texto de despedida de sua autoria. Escrevi antes de ler o dele e achei conveniente acrescentar esta pequena dedicatória. ]

terça-feira, fevereiro 10, 2009

DESASTRONAUTA


[imagem do artista Weno, publicada originalmente em sua home: http://www.weno.com.br/]



O Desastronauta caminhava nas entrelinhas de seu espaço circunflexo. Árbitro de suas próprias incoerências, investigava seus desfazeres e recusas assumidas.
Era costume ser inconveniente em suas auto-avaliações. Já fora o grande Ponto Duplo, lorde desbravador de desgaláxias e outros lugares imaginários; já perambulara com pés trocados em irrealidades fingindo ser malabarista; já tentou fugir de si enquanto dormia, em busca de conhecer novos tijolos que não amarelos. Amarelou-se e fingiu que ele nao era consigo mesmo.

Recentemente ganhara o prêmio de coadjuvante em sua grande obra de meia lauda, e co-quase-semi roteirista de sua tragicômiga história.

Há um tempo vestira um avental pentalóide e recebra o cargo de artífice de si mesmo, função na qual já nascera, mas agora recebera por três vezes a incumbência de dar andamento.:
Não tinha preguiça das andanças, muito pelo contrário, gostava das desventuras e de fortes emoções. Divertia-se em capturar instantes e explodir em letras o que lhe vinha aos olhos e à alma, mas sofria de uma persistente síndrome de comodismo sedentário. Talvez tivesse adquirido tal enfermidade macabra exercendo o labutário estressadinho do seu outro eu, praticado oito horas por dia.

Escolheria viver de deslizes e outras coisas sorridentes, se fosse uma opção, mas o grunido do bicho-bucho não perdoa.
Mas... não aguentava mais aqueles tempos normalóides. Era hora de voltar às estrelas e percorrer os desmundos imaginários com todos aqueles trololós e onomatopéias saltitantes. Era hora de voltar a devorar livros e fazer as letras escorregarem docemente goela a baixo; de saltitar em uma perna só, desviando de cometinhas azulados e fazer caretas ao monstro-frevo-aleluia, esse maldito devorador de asas e cores.


... e saltou o Desastronauta pro mundo do espelho outra vez, de onde nunca deveria ter saído.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Concurso "Contos de Teresina"

Enfim, concluídas as análises do Concurso Contos de Teresina, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, foi finalmente divulgado o resultado.
No concurso, para o qual tive a honra de ser convidado para compor a banca de juízes junto do grande mestre Assis Brasil (tietagem mode on), renomado escritor piauiense; e do também escritor João Bosco da Silva, concorreram 24 obras. Muitas delas bem escritas, instigantes e provocativas. Outras porém, nem tanto.
Os dois primeiros colocados serão publicados na próxima edição da revista Cadernos de Teresina.
Os vencedores foram:

1° Redemoinho de emoções, de Ana Maria Quessada

2° Quando a morte se chama Crispim, de Raimundo Nonato Lopes

3° O velho, de Célia Silva Forte




Além do destaque para:

O assassinador, de Antônio José Fontenele da Silva; O furto de Caim, de Antônio de Pádua Ribeiro; A mulher que amava o monstro, de Eugênio Carlos do Rego; O sábio artesão, de Glauber dos Santos Teixeira e O conto de quinta, de Sâmara Eugênia Viana Moura.


Foi uma experiência muito interessante, principalmente por ter me dado a oportunidade de conhecer o mestre Assis, com o qual aproveitei a deixa pra expor um projetinho futuro que logo falarei aqui.
Por hora é isso.





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Confira abaixo a matéria da página da FCMC:

Literatura
Divulgado resultado do Concurso Contos de Teresina30/1/2009 11:51:24
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Depois de alguns meses de espera, nesta sexta-feira foi divulgado o resultado do Concurso Contos Cidade de Teresina 2008, promovido pela Prefeitura Municipal de Teresina, através da Fundação Municipal de Cultura Monsenhor Chaves, que premia os melhores autores com textos deste gênero tendo a cidade como referência.
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O concurso foi aberto em junho e teve dezenas de inscritos, sendo que três foram premiados. De acordo com o parecer da comissão julgadora, em primeiro lugar ficou o conto “Redemoinho de emoções”, de Ana Maria Quessada; em segundo, ficou o conto “Quando a morte se chama Crispim”, de Raimundo Nonato Lopes; o terceiro colocado foi “O velho”, de Célia Silva Forte.
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O concurso tem a finalidade de incentivar a ambientação de contos na cidade, dando ênfase às manifestações culturais locais, a seu espaço físico ou à história do município. A premiação atribuída pelo concurso é a seguinte: 1º lugar: publicação, pela FCMC, na Revista Cadernos de Teresina e a quantia de R$ 1.000,00 (um mil reais); 2º lugar: publicação do conto na Revista “Cadernos de Teresina”; edição de nº. 42 e outorga de menção honrosa; 3º lugar: outorga de menção honrosa.
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De acordo com o Coordenador de Editoração e Literatura da FMCMC, César Augusto Barros, o resultado do concurso teve um atraso devido um problema com um dos avaliadores. “A falta de compromisso de um deles prejudicou enormemente a finalização do resultado, postergando e terminando por não entregar a sua avaliação, o que levou a Coordenação a convidar um quarto avaliador para completar as análises. Isso de certa forma gabaritou ainda mais a comissão, pois o substituto foi o mestre Assis Brasil”, frisa.
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Além disso, como a qualidade de alguns trabalhos foi bastante elevada, a Comissão, formada também por João Bosco da Silva e Régis Falcão de Área Leão, sugeriu que fossem destacados os contos “O assassinador”, de Antônio José Fontenele da Silva; “O furto de Caim”, de Antônio de Pádua Ribeiro; “A mulher que amava o monstro”, de Eugênio Carlos do Rego”; “O sábio artesão”, de Glauber dos Santos Teixeira e “O conto de quinta”, de Sâmara Eugênia Viana Moura.
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Neste ano, o concurso será lançada no mês de março e a Coordenação de Literatura promoverá algumas mudanças no regulamento.
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[Errata: escreveram meu nome errado, o certo é: Regis de Arêa Leão Falcão Filho, mas enfim...]

terça-feira, dezembro 30, 2008

COTTON CLUB




Nas terças-feiras sentava ao fundo de um bar, rodeado daquele cheiro ocre de cerveja velha e fumaça adormecida. Cheiro de suor de ontem e beijos de amanhã, carregados nos olhares que se cruzam no balcão em um flerte embriagado.
Costumava sentar e observar tudo. Era quase como uma fotografia empoeirada na parede, cujos olhos ninguém saberia dizer ao certo para onde apontavam. Era tão ali, empoleirado em seus próprios pensamentos, que passava despercebido aos outros. Era como ninguém, nada. Era tal qual a fumaça azulada de seu cigarro: uma presença ignorada, traída apenas pelo seu cheiro.
Observava com olhos de esfinge, em uma expressão inexata, imprecisa. Era ao mesmo tempo um espelho que refletia um olhar qualquer que o encontrasse; bem como uma máscara de si mesmo. Fosse de carnaval, de um baile à moda antiga, de ritualística sagrada ou forjada pela dureza de seus próprios ontens.
Outro gole. A bebida lhe queimava a garganta. Era como as palavras que nunca dissera. Aquelas longas conversas que tinha com ele mesmo em diálogos imaginários que sempre terminavam em choro de uma parte de si. Senão em tragédia, em homicídio selvagem. O assassino de si, condenado a carregar seu próprio corpo sobre o ombro, sendo por vezes seu alter ego o cadáver das escolhas, levado com esforço; por vezes os seus anseios e paixões mais doces. Era seu carrasco e também sua vítima. Por isso bebia. Tinha de sentir que ainda controlava algo.
Mas às vezes apenas observava os outros. Ria-se por dentro da comédia da vida alheia. Não queria saber seus nomes, seus endereços e muito menos aonde iriam depois do bar. Queria apenas olhar. Ler seus passos e tentar adivinhar o que viria a seguir, dentro daquele instante de validade limitada à quatro paredes.
Via através do copo, tal qual uma lente de aumento. Entre as gotas suadas do copo e o malte barato que suas posses podiam pagar. In vino veritas.ou In whisky,que seja. O álcool revelava-lhe os indivíduos de forma clara. Ou talvez apenas inebriasse sua mente de uma forma criativa.
Já estivera tantas vezes ali, sentado naquela mesa no fim do mundo, esquecido de si. Perdido de si. Nunca estivera mais em si... e assim jogado, largado à própria miséria naquela espelunca, sentia-se um pouco mais importante. Um pouco mais centrado, ainda que seu corpo nunca encontrasse equilíbrio para cruzar as oito quadras que o separavam de sua casa sem se ferir.
Olhava mais uma vez em volta. Escrevia em sua memória cada um dos personagens sem nome e sem rosto daquela noite. Não importava. Amanhã nada lembraria. Pagava a conta com três notas amassadas. Receberia moedas em troco. Odiava moedas, aquelas pequenas coisas sujas e quase sem valor, condenadas a viver perdidas entre bolsos e latas de pedintes.
Seguiria naqueles trôpegos passos de bêbado, tão incertos quanto sua mente, sentindo o mundo girar à sua volta - isso lhe causava uma agradável sensação egocêntrica. Depois de lutar contra seus próprios pés e a fechadura, cairia profundamente em sua cama. Entregue ao delírio ébrio, ao sono perturbado.
Outra vez acordaria e ainda seria um reflexo de sim mesmo, e agora com ressaca de sua própria vida.

quinta-feira, dezembro 18, 2008

O VELHO PREGADOR

Do alto de um tronco caído, esbravejava o velho. Usava uma coroa de alumínio e vestia-se com a sujeira de sua própria existência. Em seus olhos insanos fervilhava uma fúria ígnea. De sua boca uma profusão verborrágica de aforismos e revoltas. Clamores pelo levante; pela luta. Pelo retorno das milícias armadas conspirando contra os tiranos senhores da nossa era. Protestos pela tomada do poder pelos insanos - os únicos com capacidade de arrancar do caos e da anarquia uma nova ordem.
Clamores por uma era sem farsas, no que havia se tornado o grande teatro do poder. Pregava a morte pela fogueira daquela que antes se chamava Justiça, a grande defensora de espada afiada, que resolveu abaixar a calcinha por uns trocados e se tornar a maior das prostitutas, no que ousava chamar de Ditadura das Meretrizes, no país da Bordelândia. Gesticulava como um louco – quiçá um maestro no doce delírio de reger a mais bela das sinfonias – enquanto amaldiçoava cada um dos membros de sua curta platéia de Homens-de-pedra. Rochosos seres cegos surdos e loucos, cuja alma era tão seca e dura quanto seu coração impenetrável. – antes palavras fossem marretas.
Gritava, gesticulava, vociferava em despudorado reclame. Talvez fosse ainda um dos poucos homens de carne e virtude, que via nas palavras mais força do que mero entretenimento. Fosse quem sabe apenas um maltrapilho, açoitado pelo infortúnio de ter a cabeça longe do chão e um coração sem joelhos numa era onde pensar era “desnecessário”. Fosse o que fosse, pregava às pedras de forma inflamada e fabulosa, ainda que estivesse nu.
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Bem, nem preciso dizer que os últimos tempos foram deveras caóticos aqui. Não tenho conseguido postar e mal tive tempo de ler e comentar os blogs amigos, que sabem o quanto os admiro. Agora enfim, as coisas começam a se acalmar. Tudo está justo e em breve estará perfeito.
Resolvi estabelecer as segundas e quinta feiras, como dias oficiais de postagem. Nem que seja uma bobagem qualquer. Vou me obrigar a recriar o hábito de postar.
Portanto amigos, declaro outra vez inaugurada esta casa e agora com pelo menos duas postagens por semana!
Grande abraço!

segunda-feira, setembro 22, 2008

INTERLÚDIO

Recentemente fui convidado pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves, para compor a banca julgadora do Concurso Literário Contos de Teresina 2008 http://www.fcmc.pi.gov.br/base.asp?ID=2074.
Foi uma grande honra receber esse convite, principalmente pelo fato de um dos meus contos, "Teresa e seus amores" (postado em 4 partes aqui em: http://coffeeanddreams.blogspot.com/2006_09_01_archive.html) ter sido o segundo colocado na edição de 2006 do concurso http://www.fcmc.pi.gov.br/base.asp?ID=702.
Foram 24 obras inscritas, e algumas se mostram bem promissoras. É realmente delicioso ler em primeira mão obras de escritores iniciantes no mercado com narrativas criativas e ás vezes até mesmo invejáveis.
Em breve vamos conhecer os grandes vencedores.

Agora o Sr. Cafeinado tem de voltar à maratona diária.
Câmbio e desligo.

terça-feira, setembro 16, 2008

GUERRAS IMAGINÁRIAS

"Montando seu elefante alado, o Homem de lata avançava impiedoso contra o exército de pinóquio, mutilando aqueles horríveis fantoches de madeira - como odiava aquele sorriso fingido estampado naquelas caras-de-pau.
Do front circense, malabaristas ateavam fogo aos normalóides, que em meio às convulsões pirocinéticas dançavam uma valsa quântica de luzes hipnóticas. Os homens-bala se atiravam contra os biscoitos alemães montados em seus camelos filosóficos, derrubando aqueles muros imaginários de séculos de conceitos.
De súbito uma grande sobra pairou sobre o campo de batalha, todos olharam assustados e..."


... teve seu lápis e papel arrancado bruscamente de suas mãos, sob um olhar ameaçador:

- Fascista!! Fascista!! - gritava o garotinho, enquanto era conduzido à diretoria.

quinta-feira, agosto 07, 2008

ESTÁTUA SERÁ SEU NOME?




“Nada mais são do que fórmulas. Problemática incerta tratada com decisões frágeis e goles ébrios, frutos de uma árvore imaginária de flores estranhas escondidas entre suas folhas e dorminhocos em sua sombra. Fórmulas falhas de dias covardes e madrugadas ousadas donde nasceram sonhos e amanhãs pouco menos que fictícios. No hoje dorme a inamovabilidade e a observação masoquista de como as coisas acontecem ou deixam de acontecer.
E como às vezes não há nada a se fazer...”
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Fragmento de uma coisa antiga que resolvi retomar. Aguardem.
[texto, foto e cara de tacho: Regis, o infame e pretensioso colecionador de desocupações]

sábado, agosto 02, 2008

O HOMEM QUE OBSERVA


Há um homem sentado na sobmra de uma grande árvore cinza. Ele está lá sem parecer estar. Sob a longa aba do chapéu que lhe cobre quase todo o rosto, ele observa. Observa como se na verdade estivesse apenas sonhando ou quem sabe visse em um lugar diferente de seus olhos.

Ele vê as duas nascentes mananciais percorrerem um longo caminho até se encontrarem, transformando-se em um único rio. Suas águas antes diferentes, agora têm a mesma cor. Um só rio, que sinuoso e leve escorre entre os mundos...
Ele vê algo que não consegue definir se são borboletas ou pequenas fadas fugitivas da cidade do crepúsculo na 13ª hora. Elas dançam diante de seus olhos. Seus pés não tocam o chão e sua música animada parece brotar das folhas e se diluir no vento.
Ele vê a grande marcha de homens solitários que segue seu caminho silencioso. Cada um com uma túnica de cor particular, e na mão uma lanterna. Um é todos e todos são um. Conscientemente, eles nunca se conheceram.
Ao seu lado, repousam duas pedras: uma preta e outra branca, tal qual dois pares de asas daquelas estranhas aves que voam harmonicamente, trazendo o amanhecer.
Ele vê uma loira e sorridente criança brincar. Há flores em seus pés e um enorme sol a ilumina. O sol lentamente evapora a água dos dois-rios-em-um, fazendo-a subir em forma de vapor e nuvens gorduchas de chuva vindoura.
O homem sentado ri, enquanto entende – quem sabe pela primeira vez? – entende como tudo se conecta. Tudo funciona como um grande mecanismo. Um grande arranjo de engrenagens feitas de coisas, lugares, pessoas e animais. Pequenas porções do mesmo fluxo, que girando no mesmo sentido ou no oposto, convergem para o mesmo ponto. O Ponto Zero. A Matriz Universal de onde tudo parte e depois retorna, tal qual a chuva que desliza suave escorrendo para a nascente do manancial e recomeça todo o ciclo. No ápice de sua individualidade, Todos são também Um.
Em sua bolsa, há também uma lanterna, tal qual a dos homens encapuzados. Teria andado pelos mesmos caminhos que eles ou sua hora ainda viria? Quem sabe... outra vez? Havia também uma corda, que em momentos distintos já prendera cada um de seus pés. Em seus bolsos, o Ouro, a Mirra e o Incenso.
Bebendo o líquido doce de sua taça, ele fecha os grandes botões de ouro de seu manto, ajeita a espada em sua cintura e recolhe seu cajado. Sob a aba de seu chapéu infinito, ele observa a noite chegar no brilho da grande estrela. Onde antes era o sol, agora sentava a lua com seu véu a ocultar suas intenções. O homem ri satisfeito em sua contemplação, enquanto em um ato quase imperceptível, sua mão desliza pelo cajado e os dedos chegam ao topo, apontando para o céu, tal qual sua outra mão sobre o alforge aponta o chão. Era hora de voltar à estrada. Para ele, a noite era clara e lanternas não eram necessárias.
Quem sabe em seu caminho, no meio desse grande fluxo, também parasse para dançar à beira do abismo, mas agora ele andava com firmes passos ouvindo o guizo das 32 contas do colar em seu pescoço.