terça-feira, junho 06, 2006

Um estranho no banheiro

A primeira vez que o vi foi em uma manhã de terça-feira. Eu enrolado em uma toalha, o rosto coberto de espuma. Foi no meio da trajetória, enquanto deslizava a lâmina naquele ato subversivo, quando pele e aço se unem para arrancar do semblante parte dos anos e histórias que se acumulam em forma de pêlo. Foi ali, num dos mais íntimos atos da vida de um homem, que notei sua presença. Parecia ter tomado consciência de mim ao mesmo tempo que eu dele. Ficamos lá, nos encarando, franzindo a testa e percorrendo o corpo um do outro com os olhos.
Não sei o que me perturbava mais, o fato de ter um homem semi-nu no meu banheiro, ou aquele estranho ter algo sublinearmente familiar, ainda que distante.
Sua feição se contraía. Talvez a mesma sensação de familiaridade e estranheza casadas passasse na sua cabeça.
Ficamos lá parados, barbeadores à mão. Uma espécie de duelo silencioso, como dois samurais empunhando suas lâminas travando um combate de espírito através dos olhos. Ninguém cederia.
Toquei meu rosto com uma das mãos e ele correspondeu de forma simétrica. Aproximamos os rostos e avaliamos as linhas que marcavam nossas vidas, desenhadas em traços incertos. Eu analisava com uma estranha curiosidade aquelas marcas em sua testa, entre seus olhos e nas maçãs do rosto. Marcas de noites mal-dormidas, dias estressantes e sorrisos de momentos agradáveis. Eram marcas suaves ainda, mas que com o tempo ganhariam mais destaque, dependendo das escolhas e dos fatos da vida de cada um. Havia algo naqueles olhos negros, uma espécie de brilho infantil escondido atrás de um olhar carregado de responsabilidades e uma agenda lotada. Era como um feriado bom que fica na memória e quando o sorriso de um dia feliz se manifesta, ele desliza para ver o sol. Ele parecia ver também no fundo dos meus algo intrigante.
Milhares de coisas passavam na minha cabeça naquele instante, naquela eternidade contida em segundos de tempo parado. Observava as linhas em seu rosto e me perguntava o que teria sido da vida daquele estranho. Como seria sua rotina de trabalho, sua vida social, seus amores, suas vitórias, decepções... Tudo estava escrito ali, naquele estranho rosto familiar.
Por duas ou três vezes simultaneamente ensaiamos dizer algo um ao outro. Erguemos a mão entreabindo a boca e iniciamos, obedecendo à regra das boas maneiras, cedemos a iniciativa. Cedemos e silenciamos. Ambos demos um sorriso. O que mais se fazer em tão incomum situação?
O rádio voltou a tocar, o relógio antes parado observando tudo que se desenrolava voltou a correr. Dizem que o tempo é o voyer por excelência. Tentei ignorar tudo que se passava e voltei a me barbear. Ele decidiu fazer o mesmo.
Ficamos lá eu e aquele estranho no meu banheiro, tentando tocar a vida. Quem sabe um dia eu descubra quem é aquele que de uma hora pra outra resolveu morar no meu reflexo e dividir comigo minha sombra. Quantas vezes ainda teria aquele diálogo silencioso diante do espelho com esse estranho no banheiro, até descobrir ao menos o seu nome?
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Estranhos no espelho andam povoando o mundo inclinado.
Não é novidade, mas anda tudo corrido.
Eu ainda arranjo um jeito de me clonar pra poder dar conta de tudo.
[ps:Eu vou bolar o ensaio, prometo. E vai ser muito mais colorido. Amo]
[www.fotolog.com/cafeinaman]

8 comentários:

Claudio Eugenio Luz disse...

Eita, disse e lançou bem. Do outro lado do espelho, quem? Muito bom, mesmo!

hábraços

marcos pardim disse...

rapaz, li e reli. em ambas, leitura e releitura, estremeci. sou um homem barbado há mais de 20 anos. se havia alguma possibilidade de eu escanhoar meu rosto, mostrando-me o que mais de duas décadas é capaz de fazer, ela encerrou-se neste instante. encontrar-me no espelho? melhor, não. 1 abraço

sayô disse...

caraleeo de texto porreta. Um encontro ou pq naum um reencontro com sua propria pessoa. Momento raro, precioso, que o tempo , o corre- corre diário nos rouba.
beijo em vc regis

Valéria disse...

Sócrates disse assim: "Conhece-te a ti mesmo" e algo aqui dentro de mim sempre me disse isso também e eu sabia que esta seria uma boa mão preu começar a buscar minhas "soluções"... é um caminho cheio de mergulhos num "ainda escuro", de caminhadas por labirintos e dum estar sempre à beira dos abismos... proporciona dor e gozo e dá um medo danado... até pq no final pode-se encontrar a mesma estranha criatura que começou a procurar a si mesma. mas eu não acho provável, pq no começo da procura aquela outra criatura já não era a mesma...
viajei né? mas é isso mesmo...uma viagem!
beijo e beijo
e qual o trabalho que tu tem pra mim hein estranho do espelho?

Jairo Mouzzez disse...

E aí Dr. Cafeína, ainda guarda aguardente em casa e prepara aquele bom café de sempre amigo??? Espero que sim.. me procura no orkut brother, tenho umas novidaes aí velho... inclusive um novo ser que ajudei a minha amada na construção!!!!!!!!!! Estou aqui de volta, pronto pra te devolver o teu livro e receber o meu ....hehehehehehe FULLLLLLLLL

Loba disse...

Gosto de textos assim. São profundos, ainda que pareçam superficiais. Cada um se olha no espelho como dá conta, né? Gostei deste homem do espelho! rs...
Beijocas

Valéria disse...

ei o cara do banheiro que é vc pegou vc? sumido!
beijo de saudade

eLa disse...

oi menino!
saudades de vc...
espero que as coisas andem bem por aí!
a julgar pelo encontro no espelho do banheiro, aprece que anda tdo como a gnt e El Bigodon gosta!
:-)
nossos dias estão chegando, né?
beijos!!!