Sábado, Fevereiro 04, 2012

VÍCIO AMARGO E QUENTE

[...e outros pecados da língua]



Sempre tive métodos nada ortodoxos de avaliar pessoas.

O mais cruel deles é o ritual do café. Convidava com aquele sorriso de navalha para tomar um café – armadilha inclusa. Dependendo da resposta, caía de imediato na bula dos esquecidos, na caixa restrita de pessoas evitáveis.

Condeno a identidade pelo conteúdo do copo. Não nego. Sou um carrasco megalomaníaco, no que diz respeito a bons hábitos ruins. Beber café é a primeira chave do voto de confiança. Os maiores criminosos eram abstêmios do “despertar negro”. Há exceções, claro. Mesmo bandidos podem ter bom gosto, e café é a última cota da arte de permanecer atento.

Passado o primeiro passo, o da afinidade do vício, sigo para o hábito em si. Tomar pouco café é como o que não senta no boteco para o segundo chopp: faz todo o percurso mas se retrai às portas do paraíso. Tomar uma xícara pela manhã e só, não faz de você um monge de olhos abertos. No máximo um coroinha do sagrado rito, que nunca ascenderá à tocador de sino, ou mesmo de Papa da madrugada. Beber muito café – diga-se, ser um devasso da garrafa, o terror da repartição, o chato da empresa e o tormento da copeira – é qualidade de gente inquieta. O café está para a criatividade como o dinheiro para a calcinha da stripper.

Mas não é só beber e beber muito. Tem de beber do jeito certo.

- Café frio é como beijo de anjo na chuva: gelado e sem tesão. Café tem de ser quente. Arrancar aquele suspiro discreto antes do gole, disfarçando pra língua, a brasa sorrateira;

- Café fraco é coisa de gente covarde. É como ir na festa e tomar cocktail sem álcool. É aquele sujeito que usa cinto e suspensórios, porque não tem coragem pro risco de ficar sem calças. Café bom é aquele forte, que fecha um dos olhos do degustador, tamanho estalo que gera no cérebro. Se não causa aquela experiência de Lázaro, arrancado da tumba de volta à vida, não compensa. Soco no palato com suspiro de satisfação. Sensação de ter o cérebro momentaneamente pressionado contra uma bateria de caminhão por um golpe de dois tijolos.

- Café doce é coisa de gente amarga e gananciosa. Que precisa de motivo pra ficar feliz. Que precisa descarregar colheres e colheres que nunca vão dissolver e no fundo da caneca vira aquele rastro grudento e estranho que irrita a dona da casa. Na gastronomia açúcar é o ditador do sabor. Não se toma café doce, se “acrescenta um torrãozinho” pra temperar o cigarro seguinte.

Outro item que convém - talvez seja o mais importante – é a qualidade do pó. Quem economiza no pó do café não pode ser bom marido, bom amante ou bom amigo. É marido que compra pão dormido pela impaciência de esperar os 15 minutos da próxima fornada: o desdém da manhã de sábado. É quem toma banho antes do cigarro no pós-coito. É quem evita 3 minutos de empenho dos ouvidos quando o vizinho sofre. Pó de café tem de ser de boa qualidade, sob pena do ostracismo das visitas de meio de tarde e de um lado da cama vazio na manhã seguinte.

A variação da categoria é o que usa o café solúvel. É o ócio do apressado. A casualidade dos que tem o sono à toa, mas não arriscam. É o fingimento dos semi-acordados, com uma caneca de meio despertar na mão. Nem dormindo, nem acordado: um pedaço de realidade deslocado entre lá e cá.

Sempre tive preconceito, confesso. Mantive um pé atrás com os tomadores de Nescafé durante anos. Conspirava secretamente um pequeno ato de terrorismo que afetasse seu ritual, fosse um tropeço, fosse um seqüestro. Planejava silenciosamente estragar todo o seu quase-trabalho. Seria como impedir um crime grotesco: perfeitamente aceitável pela sociedade.

Mas a língua é um pedaço maldito. A mesma que degusta o bom sabor, faz pagar pelo pecado. Conheci a Espanhola. Ela tinha dotes de culinária diplomada e dom pra cozinha [Dentre outros tantos]. E... mania de Nescafé. Fui traído. Primeiro me apaixonei e perdi todos os conceitos e travas de segurança. Só me restaria – em condições normais – a salvaguarda do café. Tarde demais. Quando descobri que ela tinha aquela mania de café solúvel e leite pra começar o dia, já havia me perdido na inevitável condição de desejar acordar todas as manhãs dividindo o armário da minha caneca de café puro com a dela de Nescafé e Leite.

O amor é uma coisa estranha.

Quinta-feira, Janeiro 26, 2012

Sobre Rosas & Cores



Nunca havia mandado rosas. O perfume delas lhe trazia à lembrança um cheiro de morte. Isso não quer dizer que não mandaria outras flores. Mandaria girassóis, aquelas grandes e desajeitadas flores amarelas, cheias de dentes, cuja ousadia lhes fazia girar e ver meio céu por dia. Talvez optasse por orquídeas, as trepadeiras vadias cuja sobrevivência dependia de abrir as pernas e abarcar quanto caule lhe fosse possível, sem perder seu charme. Havia uma certa beleza irônica nisso.

Poderia parecer que não era romântico, o que de fato se tratava de um terrível engano. Era dos canalhas o mais romântico. Mas não desses românticos de voz melosa e braços abertos, que levava um joelho por terra e recitava o que a grande maioria entendia por poesia. Era um imoral. Um devasso, cujos poemas de amor jamais seriam publicados em um jornal qualquer do mundo, no dia dos namorados. Sua poesia era aquela que brotava na noite, sob a meia-luz de um recinto, fosse ele um inferninho cujo nome não lembraria ou um quarto de motel com placa em neon-escárnio, em uma estrada qualquer onde o mundo joga seus perdidos. Seu romantismo não tinha coração. Era todo dentes, bocas e mãos. Era versos sujos, recitados com língua dormente de álcool mas acesa como a chama dos infernos. Suas palavras eram extensão de seu próprio corpo, com uma dúzia de mãos a acariciar quem ouvisse.

Não era dado a apegos formais, mas perdia-se em vontades e imaginações devassas do amanhecer ao anoitecer, fosse ou não regido por pequenas pausas para um cigarro. Apegava-se a delírios, tesão e admiração. E não, isso não era como uma paixão qualquer, era por si um ato egoísta de ver em alguém o que tinha em si. Amava-se nos outros, e por vezes seguidas com interrupções meramente humanas.

Gritaria à janela, dançaria a dois, mas sua concepção de matrimônio era em um bar no México onde o sacerdote era um barman de traços indígenas e a valsa um misto de Rolling Stones e The Coasters, numa dança suada feita de olhares, sorrisos e coreografias improvisadas.

No mais, era um canalha confesso. Sua idéia de fidelidade era sua própria satisfação. Por sorte, sentia-se satisfeito em dar prazer tanto quanto em receber. Era culpado e admitia com um sorriso alto e olhar ordinário, desses que não se vê antes da 6ª dose de tequila.

Prometia-se, doava-se. Sem se perder do próprio umbigo. Era intenso e voraz, sempre faminto do que desejava. Não planejava amanhãs. Seguia seu próprio rumo onde seus dedos o levassem, rindo satisfeito contanto que ali, ao alcance de suas mãos estivessem todos os prazeres de que necessitava pra viver, inclusive um baseado e alguém que o atormentasse em cada um dos sentidos, fossem de seu corpo ou de sua imaginação.

Mas não mandaria rosas, nem recitaria poemas de amor qualquer, que não o amor louco: o mundo tinha muitas cores normais pra que não usasse sua própria aquarela surreal.

Domingo, Janeiro 08, 2012

08 de janeiro, dia do Fotógrafo









Hoje é dia do fotógrafo!

Isso leva inicialmente à uma reflexão: Não é o fato de ter uma câmera que faz de alguém fotógrafo. Viver da arte, estudar e principalmente ter consciência que fotografia não é apenas apertar um botão. É guardar momentos, compor com a luz, transformar o mundo com desenhos da realidade. Ser fotógrafo é dar aquele sorriso de satisfação pro seu cliente, 20 anos depois quando ele vê aquele álbum de um dos grandes momentos de sua vida. É um ato de apropriação da história alheia, devorando com os olhos e se transfomando em parte da biografia, mas não com seu nome e sim com sua arte. É não esquecer jamais que aquilo que você fotografa é que é o mais importante, você é apenas o cara que estava atrás da câmera.
"Glamour" da profissão, meus caros, não é ter seu nome lembrado, mas sim suas imagens. Isso é ser fotógrafo!

Minha imensa admiração aos grandes mestres, que abriram - e abrem - nossos olhos cada dia mais pro caminho do clique perfeito; aos colegas que atuam nas mais diversas áreas, social, publicidade, fine art, autoral e principalmente fotojornalismo. Todos tem seu mérito, seu valor e sua importância.






(Foto Raul Leite - de pé à esquerda Igor Prado, à direita Caio Bruno, abaixo Regis Falcão)

(Foto Raul Leite, todas durante a cobertura dos Protestos estudantis em Teresina - à esquerda Igor Prado, Caio Bruno, Regis Falcão)


(Foto Raul Leite - à esquerda Igor Prado, Victor Gabriel, Regis Falcão, Raul Leite e Mauricio Pokemon)



Quinta-feira, Janeiro 05, 2012

COMODISMO X REVOLUÇÃO


Meus queridos amigos,

Muito bonitinho vocês dizendo pra que os protestos ocorram com florzinhas e canções. Muito poético vocês acharem que a vida é um musical da Disney e no meio da luta estudantes, prefeito e polícia vão dançar e cantar sorridentes. Muito inocente e fofinho vocês acharem que os estudantes deviam ficar na calçada balançando bandeiras e cantando de cara pintada e sem interromper as vias, apenas agitando os braços sem incomodar, como o fazem aqueles bonecos de posto de gasolina. Respeito opinião de vocês. Deve ser legal viver nesse mundinho à parte, chamando de vândalo, baderneiro, arruaceiro quem luta pelos direitos e briga com o Sistema, mas sinto informar que a vida é menos coloridinha e risonha. Não existe Revolução sem barulho, Mudança sem incômodo e muito menos Luta sem desordem. Saia da sua zona de conforto. Acorde pra vida. Não acredite em tudo o que lê do conforto de sua cadeira giroflex, na sua telinha de lcd. Vá pra rua. Veja e faça a sua opinião baseado nos seus próprios olhos.

Respeito seu direito à ter uma opinião, meu caro, mas reitero o convite pra que ela não seja superficial e baseada numa série de interesses alheios que desviam da realidade dos fatos.

A Luta é justa. Os métodos são válidos e a realidade do movimento não é aquilo que você vê de longe.

Incomoda? sim, muito! e deve incomodar! parar o trânsito, atrapalhar a ida e vinda de terceiros faz parte. Infelizmente não há como ser brando quando a questão é tão séria.

Restam duas opções: continue criticando o movimento, os "estudantes arruaceiros" do conforto de sua casa, do frescor do ar-condicionado de seu carro, alienado pela própria ignorância, pela própria falta de vontade de fazer alguma diferença no mundo, acorrentado pelo seu comodismo vergonhoso ou vá pra rua e veja com quantos gritos se faz uma mudança.

Nas palavras do Livro Vermelho:

"A revolução não é o convite um convite para um jantar, a composição de uma obra literária, a pintura de um quadro ou a confecção de um bordado, ela não pode ser assim tão refinada, calma e delicada, tão branda, tão afável e cortês, comedida e generosa. A revolução é um insurreição, é um ato de violência pelo qual uma classe derruba a outra."

#contraoaumento

#contraaintegraçao














Quarta-feira, Dezembro 07, 2011

VAGABUNDOS ILUMINADOS - (Dharma Bums)


Tenho orgulho em dizer que meus maiores ídolos são negros, junkies ou gays. Pornógrafos desregrados, agitadores. Inimigos do bom-mocismo e do conformismo. Filósofos de alma selvagem, vagabundos iluminados. Deuses-poetas. Monstros divinos, que subverteram todas as regras, contrariaram todos os costumes e padrões. Gigantes que na sua maioria teve uma vida breve e cheia de excessos. Adeptos do amor-livre, defendiam a justa causa da liberdade de escolha. O amor/sexo em todas as suas manifestações. Sagrados Terroristas que sacudiam o mundo com suas músicas insanas ou com suas letras provocantes. Baderneiros por excelência. Histéricos Hipsters, que experimentaram de tudo, de todos. Que encontraram nas drogas artificiais assim como na embriaguez da vida a dinamite para explodir o mundo. A mão que estapeia o rosto dormente dos caretas.

“Meus heróis morreram de overdose”. Trafegaram todas as estradas do corpo até que se tornassem apenas mente: mens insana, corpus fragile. Vanguardistas da benzedrina, visionários. Xamãs dopados de peiote, whisky e LSD que enxergavam tão além do que as mentes mais simplórias jamais poderão calcular.

Quando ouço alguém dizer que não os conhece, ou pior ainda, que não passavam de “Maconheiros, sujos, vagabundos, bichas”, sinto pena. E a pena é o mais negro e desprezível sentimento que se pode ter por alguém. Sinto isso por uma simples razão: por saber que a repulsa que têm pelos Divinos Deuses Escrotos, nada mais é que uma negação de algo que se sabe no fundo de sua alma. Aquele verme da inquietação que sussurra nos sonhos e os faz acordar suados e rancorosos. A negação de que do alto de seus Manolo Blanic, embaixo de seus Armani, atrás de seus mestrados e doutorados, existe uma criancinha faminta mas assustada demais para perder a “doce inocência” e experimentar um pouco de vida. Existe um pedaço de carne com nome & sobrenome orgulhoso cuja passagem pela terra será apenas de deixar marcas de sapato em tapetes caros e uma ficha limpa. Escravos do Sistema. Existe ali uma inveja inconfessa dos que andam nus e sujos, com um sorriso satisfeito, os Vagabundos Iluminados. Mais cômodo e seguro é ficar na sua poltrona confortável de sua sala perfeita que abrir os olhos.

Mais difícil é reconhecer que os Vagabundos são merecedores de toda a glória que os rebeldes lhes pregam e, orgulhosamente mais ainda, do desprezo que os normalóides lhes tem. Há tantos nomes e tantas alcunhas: Jim Morrison, Jack Kerouac, Bukowski, Hakim Bey, Neal, Hendrix, Burrowghs, Thompson, Ginsberg, Joplin, Winehouse, Cobain, Baudelaire, Miller, Nin... nenhuma lista seria capaz de ser justa. Menos mal. A rebeldia é alguma coisa além de nomes. Ela prefere atos, desacatos, provocações, ainda que alguns títulos sejam o topo de seu panteão místico e efêmero.

Jim Morrison, o inquieto poeta que passou de menino tímido, aterrorizado com o palco à Lagarto-Rei. Ícone da banda mais estranha já criada, The Doors, que teve seu nome inspirado em um poema de William Blake citando Huxley: “Se as portas da percepção estiverem limpas, todas as coisas se apresentarão ao homem como são: infinitas”. E era essa a grande guerrilha de Jim. Quando subia ao palco sua performance louca, contorcida e totalmente instintiva, lembrava um índio possuído, dançando aos deuses de nome secreto. Morrison foi o Grande Xamã, poeta das inquietações da alma, da busca pelos excessos e do fim dos limites. Convidava às cerimônias profanas e caóticas que acordavam a alma e faziam o corpo suar. Instigava a depravação sem censuras: Libertem-se. Suas letras são como um passeio no Jardim das Delícias Terrenas. Um agitador de voz melosa que convocava aos Santos Maculados à uma experiência fabulosa. Agitador risonho, morreu em sua banheira de uma overdose de álcool e heroína. Um Profeta místico, cujo plano secreto era roubar a “inocência” dos corajosos. “It´s everybody in?”;

Jack Kerouac. O caronista bêbado de sandálias esquisitas. O delinqüente supremo das letras. Sofria de uma aguda inquietude da alma, doença séria e altamente contagiosa. Era frenético em tudo o que fazia. Quando botava o pé na estrada, alimentado de torta de maçã e sorvete & todo o álcool e drogas que encontrasse, perambulava agitado entre os mundos, contemplando a liberdade que só os Vagabundos mais Iluminados experimentam. Vivia tudo o que podia com uma fome louca e selvagem que jamais se saciava. Era um viciado na vida. Acompanhado de sua gangue, Neil, Allen, William e outros tantos, Jack revolucionou a literatura e chocou a sociedade. Seus livros eram relatos de suas aventuras loucas, e sua prosa rica de uma poesia crua e afiada, consequência de sua escrita frenética. Um maníaco que quando possuído pelo demônio das letras, escrevia frenética e ininterruptamente. Baderneiro e provocador, dava entrevistas bêbado, respondia às perguntas em Joual (dialeto francês de Quebec), italiano, espanhol, com um tom cínico e sarcástico. Deleitava-se com a inconveniência. Sua mente iluminada aterrorizava e encantava. Despertava – e hoje o faz ainda mais – a vontade de pegar a mochila, esquecer os preconceitos, a segurança e a responsabilidade mundana, e cair na estrada. Desbravar pelo coração das cidades, sua própria alma. Kerouac é o mais potente elixir alucinógeno da insurreição particular. Ao experimentá-lo, uma estranha conseqüência se manifestará e sem que perceba o usuário tomará para si a mística receita: “Não há nenhum lugar onde pudesse permanecer sem cair no tédio e também não há lugar algum pra ir senão todos os lugares.”;

Jimmy Hendrix, o Deus Negro da guitarra. Seus acordes ousados eram como tesouras a cortar os cordões dos homens-fantoche. Enquanto nos conservatórios se aprendia a tradição nas cordas, Jimmy fazia sua guitarra gritar em microfonia, frente à fabulosa geração dos Hippies no Woodstock. Incendiava seu instrumento e o despedaçava. A guitarra nada mais era que uma ponte, um caminho para sua mensagem: “Are you Experienced?”. Jimmy “beijava o céu” entre espelhos quebrados. Era como um Caronte negro, conduzindo aqueles que chegavam mortos em sua barca elétrica ao mundo inferior, ao inferno ardente. E não é o paraíso aquele que mais arde na alma? Herdeiro do Blues e do Jazz, Hendrix foi o precursor de uma estrada iluminada de escalas pentatônicas e bends. Um Xamã, tal qual Jim Morrison, agitando almas através dos ouvidos. Vestiu uniforme e ganhou os céus como paraquedista da 101st Airborne Division, e anos mais tarde gritou ao mundo pelo fim da guerra do Vietnã. Tocava com as mãos, os dentes... nas costas. Seu corpo era todo música e sua alma, baderna. Morreu sufocado no próprio vômito. A quantidade de vinho encontrada em seu corpo impressionou os legistas. Eu digo: morreu embebido na própria falta de limites, como um espartano em Termópilas, eternamente lembrado e risonhamente satisfeito. Profetizara anos antes: “Sou o cara que terá de morrer quando chegar minha hora, então me deixem viver minha vida da forma que eu quiser”;

Allen Ginsberg, poeta-anarquista, rebelde romântico. O Santo Veado. Escondia atrás de sua barba farta e seus óculos fundo-de-garrafa um gênio sublime que fascinava a quem contemplasse suas letras. Seu poema Howl (uivo) é uma das mais apaixonantes odes à geração Beat, à insurreição poética e ébria de uma época e aos seus companheiros, os outros deuses loucos do panteão. Foi autor do mais vendido livro de poesias da história da América. Homosexual, teve colhões pra assumir seus amores e desejos, inclusive em fotos, onde posava abraçado nu com seus amantes no ápice da política Macarthista. Usuário de LSD, ativista dos direitos humanos, Zen-budista. Junto de Kerouac e Burroughs, revolucionou a linguagem literária da segunda metade do século XX. Guru da rebelião e terrorista da contracultura, Ginsberg foi um dos grandes agitadores, que gritava aos ouvidos adormecidos do mundo, estagnados na normalidade, nos padrões e no conformismo. Inquestionavelmente foi o Anjo psicótico e nu, cuja luz fabulosa ilumina as mentes inquietas até hoje.

E quanto a você, amigo de nariz torcido, de alma acorrentada e mente arenosa, é provável que continue assim, limitado pela sua própria cegueira ignorante. Pela sua concepção patética da vida. Tenho pena. Sei que viverá uma vida insossa, cheia de regras e normas de conduta. Nunca sentirá sua consciência transportada à um paraíso, seja artificial ou literal, literário. Provavelmente nunca experimentará a aventura do conflito, a coragem libertadora do questionamento e o grito que faz tremer a alma. Chegará ao fim dos seus dias, com a falsa sensação de ter vivido. De que a tranqüilidade de seus anos e a comodidade de seus dias valeram à pena, ainda que saiba no fundo da alma que a mediocridade de suas escolhas somente lhe renderá a insatisfação. O esquecimento será sua herança. Pobre de ti, abastado amigo, que em uma existência invisível e longa, não conseguiu compreender que o tesouro sagrado só é alcançado pelos Vagabundos de alma nobre, os Iluminados pela poesia e pelas incertezas. Os livres de preconceitos sexuais, sociais e étnicos. Os que partem cedo do casulo da carne, e ainda assim deixam aos olhos sem vendas, o mapa místico da verdade, coisa que em vinte vidas você não descobrirá, ainda que esteja aí pichado na sua frente. Tenha uma vida longa, tranqüila e próspera. Certifique-se de ter trancado as portas, abaixado as vistas e levantado a tampa. A arte-Sabotagem passará longe de ti, ela odeia os fracos de espírito, os covardes, os nomais. À ela, como bem disse Kerouac, “só interessam os loucos, os que estão loucos para viver, para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões...mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite”.

Dedicado aos espíritos livres, agitadores e baderneiros. Aos Sonhadores que têm orgulho da nudez e de serem chamados de rebeldes. Serpentes de trejeitos felinos. Reis Invisíveis do mundo que desperta quando os olhos se fecham, que jamais ficarão sentados na ilha de seu próprio umbigo enquanto a noite grita.










Quinta-feira, Dezembro 01, 2011

Despertar


Existe algo de miraculoso e sagrado nas grandes forças da natureza. Ninguém lembra das benfeitorias tão bem quanto dos estragos. Uma Usina Nuclear derretendo, uma enxurrada levando ratos e velhas beatas esgoto abaixo, o chão engolindo criancinhas e estátuas.

Há também os eventos silenciosos. Eles acontecem sorrateiros, em um plano de existência que por vezes contagia à uns tantos, mas é percebido por poucos e provavelmente ninguém compreenderá o contexto geral. É exatamente essa a ideia. É uma espécie de Revolução e Sexo – toda orgia é uma guerra – que acontece quando grandes forças da natureza que se encontram adormecidas, terminam por se misturar. O Despertar de ambos poderia sacudir trópicos, deslocar o eixo da terra ou mesmo rasgar páginas e páginas de poemas tolos.

É algo entre um furacão e um terremoto. Um mini-cataclisma que inicia com um tremor e logo se transforma em estrondo e gritos de pânico. O mais estranho é que a sensação lembra a de um gozo, porém nem de longe tão melancólica ou instantânea. É uma espécie de dança Xamânica com Big Bang e alguma dose de sadomasoquismo. Um sentimento de queimação e formigamento que em segundos se transforma em euforia e incêndio.

A alma grita e ri como a gargalhada de uma profetiza louca, uma velha cigana cantando na chuva. Um incesto – sim, todas as tormentas tempestuosas são da mesma família estranha – sórdido, vagabundo... iluminado! Um uivo degenerado e insano que faria os mais apressados vanguardistas sentirem vergonha (leia-se Inveja)!

Imagine o encontro da pólvora com a chama, mas com uma sensação de se lamber uma nuvem temperada por relâmpagos. Um misto de luz, metanfetamina e incenso, com a cor daquelas manhãs douradas e também do céu tempestuoso de dezembro.

Gnóstico e anarquista.

Eles riem dos que ainda andam para frente: Coitados, tão apegados à segurança de seus sapatos lustrosos que esqueceram dos atalhos, dos caminhos incertos, pedregosos e cheios de curvas. Eles riem histéricos. Esqueceram como andar para frente. Suas aventuras são inquietas demais para o caminho. Terremoto et Furacão, mas com o beneficio da clandestinidade, o silêncio ensurdecedor do anarquismo das causas banais: Abaixo à Monarquia Monocromática das Certezas. A vida precisa de mais cor, mais caos, mais incertezas, mais sonhos.

Que o mundo seja engolido pela loucura apocalíptica deles.

Terremoto et Furacão, destrua a estrada amarela. Nada sobre da velha casa, nenhuma construção sobre alicerces. O teto são as estrelas, o caminho ilimitado. Tudo o que restará são marcas de gozo e o cheiro vermelho de sexo, além de uma vida de convicções abaladas.

Insurreição e Volúpia!

E na dança das ampulhetas atômicas, uma coisa é certa: Quando se fala sobre forças da natureza, a imprevisibilidade de seu sono é perturbadora!

Sexta-feira, Setembro 02, 2011

Desculpem-nos o transtorno...



[Av. Frei Serafim]


Somos de uma geração de frustrados. Sim, frustrados. Nascemos - e tomo aqui meus 29 anos como referência - em uma era democrática. No papel ao menos.

Lembro da minha infância quando ouvia com paixão as histórias dos que sofreram a ditadura militar. Dos que militaram com bravura em tempos de longe mais difíceis, onde a panfletagem marginal e a guerrilha eram as estratégias. Haviam poucas câmeras, fotográficas ou filmadoras, e a então Rede Social era feita no boca-à-boca. Naqueles anos, ser um rebelde era uma tarefa árdua e somente os verdadeiros apaixonados seguiam firmes em sua luta.

Lembro do início da adolescência, quando assistia pela TV os “Caras-Pintadas”, que pouco à pouco chegaram à avenida e logo engrossaram as fileiras, provando uma vez mais a força do povo, derrubaram um presidente. Foi lindo, ainda que recentemente o mesmo tirano de sorriso amarelo e jeito fanfarrão tenha voltado a ocupar um lugar de poder. Falha da nossa memória, por demais curta.

Lembro com sorrisos nostálgicos do início da minha vida acadêmica, quando recém egresso no Curso de História da UFPI, me apaixonava pelos grandes mártires das Revoluções Históricas de séculos atrás.

Lembro de pouco tempo depois, quando conheci nomes que me marcariam mais ainda como Bob Dylan, Hakin Bey, Bansky, Nietzsche. Tantos outros. Uns já conhecia, mas não de verdade, daquele jeito de sentar à mesa pra um café e duas xícaras de ideais revolucionários brotarem do peito.

Muitos dos que já leram meus textos, provavelmente perceberam que boa parte do que escrevi é uma espécie de manifesto rebelde. Das causas banais, principalmente. Lembro de ter vivido com um sentimento agudo de frustração, que me corroeu silenciosamente – às vezes nem tanto – e escorria em forma de letras, vez ou outra. Frustração de não ter uma causa, uma luta, uma Guerrilha. Mas Causas temos de sobra e Ação nos falta por demais. Minha maior frustração é ter sido um acomodado confesso. Esperava com aquela visão poética o dia em que as massas iriam às ruas e os protestos ganhariam corpo. O dia não chegou e o rebelde em mim juntou malas e fugiu. Foi buscar um tanto de insurreição em outros terrenos mais imaginários e menos pacíficos. O preço da vida adulta.

Tudo mudou. Uma força inimaginável assumiu o poder. A tão sonhada Democracia, vestiu nova roupa, ganhou novo contexto e em sua linguagem pós pós-moderna, recebeu um novo nome: Redes Sociais. Centenas de milhares de mentes, vozes e idéias se conectando, articulando, organizando... tudo em tempo real. Em modo virtual.

O que parece um contra senso, na verdade chamo de evolução. Se antes os rebeldes se valiam de códigos secretos, mensagens encriptadas e afins, hoje tudo é feito às vistas do mundo. O modo quase perfeito da rebeldia. Quase. Como todas as grandes idéias dos homens, também pode ser corrompida pro uso mal-intencionado.

Hoje acordamos pra um novo momento. Na melhor das hipóteses, somos precursores ativos – ou não – de uma nova forma de luta. Uma nova estratégia de batalha, que se afirma e justifica nas ruas, mas que nasce, ganha seu poder e se transforma no mundo digital. Na pós pós-modernidade, as lutas se dão com exércitos de “zeros e uns”, que quando fora do conforto de suas cadeiras giratórias e telas de LCD, são “uns mais uns” mais tantos.

Quando tive a notícia, estava à quase mil quilômetros de casa. Confesso que minha primeira reação foi a descrença. Mea Culpa. Cheguei. No penúltimo dia dos protestos, como quem chega à praia no dia D, aos trancos e barrancos, mas cheguei.

Aos que acompanharam os noticiários e/ou vivenciaram, sabem que Teresina mergulhou em dias difíceis. A mão pesada da ganância favorecida e legalizada atacou uma vez mais e com seus dedos esguios mergulhou descaradamente em nossos bolsos. Eis que aí o grande trunfo, a mais afiada das armas e perigosa das guerrilheiras gritou: A Opinião Popular. Uma Revolução que começou engatinhando como uma brincadeira quase sem autoconfiança, se transformou em um dos grandes marcos da história local. A multidão de Caras-Pintadas digitais tomou as ruas, queimou pneus, fechou lojas, parou veículos, arrastou transeuntes pra sua luta e mudou o curso do que já era tradição: o aumento desmedido das passagens do transporte público.

Cinco, dez, vinte mil. Quem sabe? No quarto dia de protestos, a peregrinação percorreu as principais avenidas, parando ônibus e outros veículos, arrastando mais e mais manifestantes. Vi adolescentes pichando ônibus e paredes, policiais recuando assustados com medo do povo, gritos inflamados e milhares de incansáveis guerrilheiros sob um sol escaldante, marchando com um sorriso assustador. Era de meter medo, e deveria. É o Estado que deve temer seu povo, nunca o inverso.

Senti uma inveja dos colegas que estavam no início de tudo, dos que receberam spray de pimenta no rosto, dos que caíram correndo da cavalaria, dos mártires sem nome, que passaram despercebidos. Mas fui! Levei minha arma mais perigosa, aquela de tiro certeiro, que “Mata Fascistas” (três salves á Woody Guthrie) e guarda pros olhos o que a mente não esquece: Minha câmera fotográfica. Minha fiel parceira com quem dividi os tantos quilômetros de caminhada e correria. Que me rendeu uma parte da capa de um grande jornal local hoje, que paga meu sustento. Gritei com cliques, protestei com poses. Minha pequena, quase nenhuma contribuição, foi estar lá e guardar não apenas na memória, mas em dados - digitais, assim como o estopim da guerrilha – pequenas frações da história, que ainda que não chegue aos livros, vai ser por muitos anos e para tantos não apenas uma história à contar, mas um sossego à alma dos insurgentes pós pós-modernos.

Não me pergunte se sinto pena dos grandes, que tiveram seus preciosos ônibus incendiados, destruídos. Revoluções não são feitas com afagos, mas com músicas de protesto e suor. Com sangue e fogo. Que eles saibam que seus veículos nos são ainda mais preciosos. Dependemos deles pra trabalhar, estudar, amar. O pecado maior não foi de quem gritou, mas de quem silenciou. Que sirva de lição, e uma lição mútua!

Aos verdadeiros heróis, o meu agradecimento banal é simples: Sonhem. Sonhos moldam o mundo e dão Cor à vida. Seja ela flamejante e negra, tomando o céu, seja ela verde e amarela, tomando os rostos, seja ela azul, na assinatura de um documento.


Desculpem-nos o transtorno, mas não há revolução sem barulho.

#VITORIADOPOVOTHE




[Av. Maranhão - Manifestantes param o trânsito]





[Av. João XXIII - Manifestantes ateiam fogo à um ônibus]




[Av. João XXIII - Manifestantes assistem às chamas e fumaça tomarem os céus]





[Ponte Isidoro França - Manifestantes marcham sobre a ponte rumo ao centro da cidade]




[Praça da Liberdade 5º e último dia de protesto - Estudantes comemoram a vitória]






Sábado, Outubro 30, 2010

Partidas e amanhãs tardios





As paredes do cômodo eram feitas de livros velhos e fotografias desgastadas. Uma luz parca teimava em invadir as frestas da janela de vidro fosco, empoeirado e confuso como sua própria vida. Não era uma manhã tão diferente das outras, salvo pelo majestoso azul do céu ter sido trocado por um cinza duvidoso, aquele de dias nublados onde sonho e domingo se misturam.

Não descia ali fazia tempo. A guerrilha precisava de descanso ainda que o desejo constante fosse de grito. Nos últimos meses havia se tornado mais espectador de sua vida que uma alma inquieta suportava, mas mesmo as bombas precisam de dias de silêncio.

O problema do sossego é o costume. Ele se instala devagar adormecendo o corpo e entorpecendo a mente, e quando menos se espera o coração ganha um ritmo de tique-taque e as pernas entram no compasso de um passeio de fim de tarde.

Mas como bom inquieto, resolvera sair do conforto e outra vez assumir seu posto. Transitava pelo recinto admirando suas histórias e armas, relembrando dias passados quando o mundo era deliciosamente mais complicado. Uma velha foto com Kerouac, em uma noitada qualquer em São Francisco; Nietzsche em uma mesa de bar sem metade do bigode – ganhar aquela aposta me valeu o dia, pensou - Hakin bay, Baudelaire, Che e Bauman discutindo modelos de governo em um inferninho da zona baixa de Paris... todas fotos feitas na velha Dragonflex, a devoradora de instantes.

Debaixo de uma lona desbotada, uma caixa de madeira com apliques em silk de Pop Art. Guardava ali seus acessórios favoritos, ferramentas e fetiches. Páginas em branco e traquitanas sem uma utilidade aparente. Um desenho de Camões com seu tapa-olhos – todo bom pirata precisa de um. Poetas, igualmente – estruturas de sílica e uma placa de bronze esperando inscrição.

Sem dar tempo ao seu próprio bom senso, começou a encher a mochila verde com seu maquinário duvidoso. A rebeldia era uma poesia supersticiosa. Devia ser feita rápida e sem muito cálculo ou os sapatos do convencional teimariam em não dar lugar ao All Star do vandalismo romântico. A arte sabotagem não pode perder tempo com o esmero do planejamento sob pena de se tornar estratégia mecânica. Brota do desassossego imediato que quanto mais inconveniente, mais se grava nas histórias secretas das pequenas lutas contra os grandes ditadores. E o conformismo é o pior dos tiranos.

Não mais que dez minutos e já estava na estrada. Bob Dylan e Jim Morrison cantavam a partida breve, antes que o sol voltasse. Outra vez caçaria fascistas do comodismo, daria nomes falsos, provocaria desordem e a arte sabotagem silenciosa, sem esquecer da regra de ouro: Nunca seja pego.



Quarta-feira, Junho 23, 2010

NORTE MAGNÉTICO


Acordou com aquela estranha sensação de ausência. Não sabia exatamente o que, mas algo estava faltando. Revirou as cobertas, olhou embaixo da cama. No banheiro, na cozinha, no quintal... nada. Continuava a peregrinação em cada cômodo, gaveta e caixa, sem sinal do que buscava. A certeza de que algo está errado é como um silêncio constrangedor, um comichão que começa atrás do pescoço e se alonga imaginação à dentro.

Sentou na velha poltrona de couro batido e começou a revirar CDs. Talvez fosse uma canção que lhe faltasse, ou um filme... não. Também não era isso. Deu outra volta pela casa, foi aos armários da cozinha, o microondas com cheiro de pipoca e até à geladeira com uma lasanha à espera do almoço. Parou diante do balcão e olhou pela janela. Viu o balanço brincando com o vento no sol afetuoso da manhã. Deu um sorriso e com passadas bem marcadas chegou à sala, deitando pesadamente no divã com um suspiro entrecortado. Aquela dúvida incoerente se dissipara, e com um olhar para a mesa de centro percebeu que sua bússola da sorte também sumira. A alucinação que o acompanhava havia partido, mas ao menos tinha levado a bússola consigo. É sempre bom saber o caminho.

Há dias em que o delírio voluntário nos abandona e os dias são um tanto menos surreais.

Outros nem tanto.

Quarta-feira, Abril 21, 2010

Dr. MORTE



[Imagem retirada da internet]

Vivia da morte alheia. Simples assim. Seu ganha-pão era baseado na arte de coser, reestruturar, forrar e maquiar defuntos. Quanto mais trágica, mutilante e violenta, maior o benefício de seus bolsos. Não que fosse um explorador, longe disso, mas sua arte não era barata.

Algodão silvestre, papel francês da gramatura ideal e serragem de pinho virgem para o recheio. Base, sombra, blush e delineador importados para a cobertura. Nenhuma mulher era tão caprichosa e detalhista no uso dos cosméticos quanto ele.

O fato é que sentia prazer naquilo. Gostava de se debruçar sobre corpos rasgados e feridos, despidos de suas vestes e pudores. Sobre sua mesa metálica e fria todos os orgulhos se esvaem.

Quando seu pincel-navalha trabalhava nacos de carne, sentia uma satisfação de escultor grego, de pintor europeu. Imaginava-se um Rembrandt, um Da Vinci, um Michellangelo em uma versão necrótica, retratando uma lembrança residual qualquer de vida em um pedaço morto que um dia teve um nome. Sim, já teve. Pra ele era um cliente, não o Sr. Antonio, o Sr. João, Dona Tereza. Não podia se dar ao luxo do apego e chamá-los pelo nome. Preferia pensá-los como uma obra encomendada de sua galeria sóbria e seu trabalho uma vernissage incomum. Trabalhava-os como um bloco de mármore cuja beleza aguarda a carícia do cinzel e do martelo para vir à tona.

O que a maioria das pessoas não entendia era que seu trabalho não consistia apenas de vender o corpo reformado de alguém, mas também uma lembrança. Uma memória de suas feições em vida. Sua satisfação vinha dos olhos chorosos que inclinavam-se sobre os caixões sem partilhar do horror da morte barulhenta e suja. O resultado de sua arte era um suave aroma amadeirado e uma pele com os tons de um sono da tarde.

Era assim que ganhava a vida e aproveitava seus dias. "Carpe Diem. Carpe Mortem". Um “amigo” que visita quando um amado se vai. Um tanto alfaiate, artista e açougueiro, trajando ternos bem passados, esguio como um lamento, como sorriso escondido por uma volumosa e bem cuidada barba negra e um frio aperto de mão. Sua presença era precedida sempre pelas batidas de seus sapatos de sola de madeira e pelo cheiro estranhamente agradável de morte e hortelã.

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[Na foto acima, de autoria desconhecida, Gunther Von Hagens, criador da Body Worlds, exposição de arte cujo objeto são corpos humanos plastificados e também é chamado de Dr. Morte. Ele não foi o que me inspirou pra escrever o texto acima, apenas achei conveniente constar essa informação]




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Domingo, Abril 18, 2010

CÁRCERE





Hoje foi um dia de comemoração para a sociedade. Um desordeiro de talento duvidoso foi preso nas imediações da biblioteca municipal, enquanto tentava substituir exemplares da História Nacional por impressos vagabundos e também escritos à mão de várias obras, tais como releituras do Antigo Testamento ilustrado com gravuras do Kama Sutra; pequenas receitas de explosivos caseiros utilizando gasolina, suco de laranja e detergente; uma versão do Livro Vermelho onde Mao é um travesti de meia-idade narrando suas aventuras sexuais ao longo da carreira política e o e "Manual do Auto-aperfeiçoamento sexual do viajante solitário", de autoria não informada.
O deliquente resistiu à prisão bradando ser o Monarca do Éter e Guardião do Poço das Volúpias, além de Terrorista da Filarmônica Meia-noite.
Será providenciada uma cela com isolamento acústico o quanto antes, visto que os impropérios proferidos por ele são "efervescentes e contagiosos para as famílias de bons costumes", conforme afirma o Secretário de Segurança. Até lá o anarquista será mantido em uma antiga cela para presos políticos que não foi usada nos últimos 30 anos mas ainda guarda a atmosfera elétrica dos choques e o aroma de óleo de motor. Testemunhas afirmam ter ouvido batuques e danças xamânicas, vindos da cela, outros ainda afirmam ter ouvido do próprio que antes do terceiro dia pregaria todos os pintores da cidade nas hastes da ponte nova, mas provavelmente isso se trate de boatos.
Hoje muitos cidadãos irão para seus leitos bem mais tranquilos.


Sábado, Janeiro 30, 2010

GIM BARATO

O velho bêbado entregava-se ao chão sob os auspícios de uma garrafa de gim barato. Esfolava as mãos e os joelhos na queda, mas continuava ostentando um sorriso largo de dentes amarelos e quebradiços. Cantarolava músicas de outros tempos – que provavelmente não haviam sido criadas de fato em um outro momento e nem efetivamente neste - um grande punhado de palavras sem relação aparente ou um sentido claro. Mas ele estava feliz.

Pedestres desviavam quase que subconscientemente o caminho, evitando pisá-lo. Encostado na parede, silenciava por um instante, sentindo o vento em sua barba suja e seu rosto enrugado, e também deslizando pelos buracos da casaca verde-ontem que poderia ou não ser, ainda que hoje um monte de farrapos, o que já fora uma exuberante farda militar. Erguia a garrafa em um brinde com o universo ou o que quer que saísse de sua boca. “Cada um dá ao Diabo o seu quinhão!” poderia ser o teor de suas palavras. Não se sabia. Se visto momentaneamente, alguns o invejariam e diriam se tratar de uma comemoração muito adequada. Outros porém, talvez dissessem ser apenas mais um mendigo sem nome com hábitos particularmente estranhos.

Em todo caso, a luz do sol também brilhava para ele.

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Quinta-feira, Janeiro 21, 2010

ENCONTRANDO O TEMPO




O que relato a seguir é nada mais que um punhado de considerações obvias, porém a vida é um delicioso clichê.



A vida acontece em um ritmo alucinante. Diariamente fazemos uma escolha atrás da outra, nas mais variadas relevâncias, seja a gravata que você vai usar para trabalhar, o que você pretende ser no resto da sua vida – e essa em particular é uma decisão que necessita constante renovação - seja um pedido de casamento. É inevitável fazermos as escolhas erradas vez ou outra. A gravata que foge completamente ao padrão de cor da sua camisa pode fazer você parecer um pateta, independente de quantos MBAs seu currículo possui, mas ainda assim o seu currículo não sofre. Trabalhar com o que não agrada você tem conseqüências mais sérias. Muito mais sérias.
Sempre levei a frustração muito a sério. Esse é um sentimento que conduz ao fracasso em qualquer orbe da sua vida. Ser um pai frustrado, um marido frustrado, um esportista frustrado, um profissional frustrado. Esse último em particular eu nunca consegui compreender. Como alguém pode dedicar uma vida inteira a algo que não o satisfaz? Como levantar todos os dias mecanicamente, sem o menor senso de desafio, de emoção, de satisfação?
Algumas pessoas tem uma boa mira. Acertar de primeira não é tão simples. Não pra mim. Por muitos anos fantasiei sobre um determinado modo de vida que há algum tempo percebi ser de fato mera fantasia. Não que eu seja frustrado no que faço, muito pelo contrário, levo até jeito, mas no fim do dia sentia que faltava alguma coisa. Nos dias em que saio pra fotografar, escrevo ou converso sobre cinema com meus amigos, essa lacuna já não aparentava estar vazia. E é nesse ponto que eu queria chegar.
Recentemente tomei uma decisão séria: resolvi por fim definitivo e irrevogável à carreira jurídica. Trabalho a 4 anos na área, tenho bons contatos e constantemente boas propostas. Agradeço, mas não é mais pra mim. Martelei muito antes disso, posso dizer sem qualquer dúvida que não foi algo levado pelo impulso, apesar do que a grande maioria dos mais próximos pensou. Amadureci silenciosamente a idéia, pesando o que podia ser pesado, prós, contras e tudo mais. Na última sexta feira decidi arriscar e a menos de 24 hs das provas fiz vestibular. Mantive segredo pelo bem do meu ego. Temia o fracasso. A aproximadamente uns 7 anos sem estudar matérias de segundo grau, parei diante das provas como um velho soldado que volta às trincheiras depois de anos longe dos disparos e explosões. Um sentimento de fraqueza me dominou um instante. Fraqueza, medo... muita coisa seria decidida em um questionário de 60 perguntas. Respirei fundo e mandei ver. Pra minha surpresa fui aprovado e com uma colocação surpreendentemente gratificante. Meu ego ronrona como um gato manhoso.
Começar um novo curso aos 27 anos, não vai ser algo fácil. Passear por corredores de adolescentes cheios de energia vai ser... estranho. Não ligo.
Costumo dizer que minhas duas asas são a literatura e a fotografia. Posso dizer que é o que mais me satisfaz. Na verdade, nada me arranca mais sorrisos que a “família”: a literatura, a fotografia e o filho (como gosto de pensar) desse adorável casal: o cinema. Pra mim as três coisas se complementam e fazem goiabada com queijo, o velho Romeu e Julieta gastronômico, parecerem um casal sem graça.
Em Teresina não temos um curso de cinema ainda. E eu tenho meus motivos pra não sair daqui. Acho que o curso de jornalismo é o que mais se aproxima disso – dentro da realidade acadêmica da minha cidade, pelo menos – e me possibilita pelo menos uma especialização em cinema, futuramente. Não tenho outras pretensões senão o que já faço: contar histórias, sejam elas reais, fictícias, vividas, ouvidas ou mesmo imaginadas. Eu posso dizer com um bom grau de certeza algumas das coisas que NÃO quero pro meu futuro. E o que quero? Bom, a vida inteira acontece agora e pro meu agora, sei o que quero.

E você o que quer agora?

Quarta-feira, Janeiro 20, 2010

Ano novo, cara nova.

Com dor no coração, resolvi dar uma mudança geral e alterar o template do meu blog. O antigo foi um presente do meu querido amigo Pedro Pan - o mesmo preguiçoso que não quis fazer um novo - mas com as alterações do próprio blogspot, não aceitava o uso de alguns recursos com um link pro flickr e twitter.
Aos poucos vou acrescentando os links dos meus favoritos ok? não percisa ninguém chorar. ;)

Sábado, Dezembro 05, 2009

ALMA DE CEGO NÃO DERRETE

Trabalhava diariamente na calçada de uma sapataria. Sentado sobre as pernas e restos de uma caixa de geladeira. Erguia a bacia suja e desbotada quando ouvia passos em sua direção. Recebia com um sorriso de dentes gastos e agradecia com um “deus-lhe-abençoe” a um trocado qualquer que lhe deixassem.

As cores do mundo o abandonaram em uma desilusão amorosa de fim de semana. Um desalento daqueles que arranca um naco da alma e desafina os verbos. Moço, inconseqüente, jovem e apaixonado, terminara por desistir de ver o mundo e seus tons e semi-tons. Descobrira que a liquidez da alma se dava pelo encanto que entrava pelas suas janelas. Sem hesitação foi à cozinha e com uma colher de sopa arrancou fora os olhos e os atirou janela a fora. Trocou as luzes por um par de olhos vítreos e opacos.

Anos mais tarde e muitos tombos depois, conhecia os caminhos com os dedos. Na ponta de seu toque estavam os mapas de todos os lugares por onde seus pés o haviam conduzido. Quem vive no escuro aprende esbarrando e caindo pelo caminho. Nessas andanças esquecera também o sabor do doce já que é nas cores que moram o açúcar dos dias saudáveis.

Vivia a deslizar pelas calçadas e vez ou outra um banco de praça para um sono breve e sem sonhos. Um intervalo de escuridão desperta e outro adormecido. Um dia em sua mendicância ouviu um tilintar diferente em sua bacia. Com dedos sujos e longas e amarelas unhas, remexeu e misturado às moedas encontrou uma esfera estranha e coberta por um pó grosso. Seus dedos conheciam aquilo, mas sua memória o traía. Tateou, circulou, cheirou... nada. Por fim resolveu levar à boca, na esperança de que sua língua dormente pusesse fim ao seu tormento de cego. Hesitou por um instante... a vida às escuras o havia feito um tanto inconseqüente, mas sempre havia a segurança em braile a lhe resguardar. Dessa vez era pura ousadia e risco. Respirou fundo. Nada tinha a perder. Colocou na boca e depois de passear com a língua em volta deu uma mordida forte.

Por um instante sentiu a língua formigar e o ar lhe escapar pelas narinas. Antes que pudesse racionalizar o que se passava, um gosto se formou em suas papilas. Era doce. Fora traído por sua própria cegueira e terminara por levar à boca uma jujuba. Sequer podia praguejar, pois no céu de sua boca já brotavam estrelas e em seus olhos vazios uma coceira desesperada. Sentia um calor crescendo em seu interior à medida que seu corpo amolecia. Podia ouvir o próprio coração acelerando. Batia como tambores tribais, cada vez mais alto. Sentia a alma liquefazendo-se, como uma vela de natal derretendo em puro inverno. Por um instante não conseguiu mais coçar os olhos e um clarão irrompeu deles. Brilhavam forte, transparecendo as vidraças opacas das janelas de sua alma. A luz ganhou espectros e se lançou ao céu em 7 raios coloridos.

Seu corpo desprendia-se como uma casca vazia à medida que sua alma escorria pelos olhos em um arco-íris radiante, até que não passava mais de um conjunto de mulambos sujos e rotos na calçada enquanto ele mesmo, doce e colorido, jogado ao céu sem fim. Não era dia de chuva mas toda a cidade viu o arco íris.

De um outro canto qualquer, um garoto pensava nas historias que ouvia sobre aquilo. Mal sabia o quanto enganam-se em dizer que no fim do arco Iris há um pote de ouro. No início dele há uma bacia de trocados largados e seu fim se perde entre as nuvens, onde o céu nunca é o bastante e toda alma é líquida e doce.

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Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Tum-tum

Distribuía gentilezas e sorrisos sinceros no decorrer de seus dias. Era naturalmente de boa índole. Desde cedo fora educado assim.
Ainda criança, cedia aos amigos sua vez na partida de pelada, no videogame e até na "salada-mista" com a menina de vestido floral.
Na adolescência, emprestava a bicicleta pra irmã, fazendo o percurso até em casa caminhando e por várias vezes assumia o sumiço do doce da geladeira, ainda que sequer tivesse visto. Não vivia assim como uma forma de auto-punição, muito pelo contrário.
Abria a porta para os outros, cedia a vez, fazia mesuras até aos pedintes de ponta de esquina. Fazia com prazer. Suportava as mais intensas provocações, sempre rebatendo com m sorriso de meia bochecha e um delicado "aaah eu discordo disso". Ate mesmo seu caminhado era sutil e silencioso, mesmo carregando no bolso aquele pesado molho de chaves que sempre o acompanhavam.
Agradava crianças e jovens, e os idosos o queriam adotar. Era esse tipo de gente, que se convida pro almoço logo que se conhece, e pro fim de semana antes que a o almoço acabe.
Um dia, vinha entrando com aquele sorriso de sempre, sem gestos exagerados, passos rapidos e silenciosos e a respiração perfeitamente ritmada sob a camisa branca e bem passada com um leve aroma de amaciante de lavanda. Ao chegar no meio do saguão, trocou as flores da mesinha e então abriu lentamente o paletó, deixando brevemente visíveis aquelas linhas bem distribuídas de de silver tape e dinamite, além de um cronômetro digital sobre o coração. Apertou o botão e com um breve clique mandou tudo pelos ares em uma estrondosa explosão.
Misturavam-se nacos de carne, pedaços do teto, paredes e vidro. Ninguém sobreviveu.
Teve uma vida interira de coração tranquilo e gentilezas, mas o coração de um Homem-Bomba bate uma vez só.

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

Nove x Nove x Nove

Deveria ser hoje. E é.
Não do jeito planejado, não conforme a conspiração previa. Ainda assim é.
Isso não deixa menos especial, apenas nove vezes diferente e outras nove mais, importante.
No amor, nove em pé - 99 - ainda que tenha longo chão entre os pontos. No sexo, amor reverso e sacana - 69. Encaixe seguro. perfeita sincronia.
Nove é o número da perfeição, do equilíbrio. Pra mim é também um número de promessas. E isso não é só "nove horas" como se diz aqui, em referência à conversa fiada. Dou minha palavra por 9x9x9.
Que venham outros noves, dez, onze e etcéteras.
Amor sem noves fora, 9x9x9, amor.

Domingo, Agosto 30, 2009

Twitter

Correndo. Correndo.

Aos queridos visitantes dessa casa, desculpem a ausência dos últimos tempos.
Escorro entre os tique-taques da vida.

Me rendi e agora também estou aqui: www.twitter.com/regisfalcao


Tem novidades aqui também: www.flickr.com/photos/rfalcao

E eu prometo que logo logo vou deixar de ser teimoso e vir atualizar aqui.

Domingo, Julho 12, 2009

FOTOGRAFOS INVADEM CASAS NO PIAUÍ!



A edição deste domingo do Jornal "O Dia" publicou uma excelente matéria assinada pelo jornalista Edson Costa sobre o II Varal de Fotografia realizado pelo Piauí Photo Clube.
A exposição em forma de varal possui modelo informal, onde as fotos são expostas em varais e presas por pregadores de roupa. O objetivo é tanto divulgar o trabalho dos artistas como atingir os mais variados públicos, popularizando a fotografia nos mais diversos lugares. O II Varal contou com 60 fotos e em torno de 20 participantes, tendo se realizado no Encontro dos rios (vide posts anteriores).
Na matéria, cuja capa traz a foto do nosso amigo Márcio Anderson, também merecem destaque para as fotos de Nayara Nery, Maurício Pokemon, Mesquita Diniz e Felipe Mendes, além deste que escreve.
O II Varal foi organizado por João Rufino e Márcio Anderson, que encabeçam o PPC e botam essas câmeras pra funcionar, e se tudo der certo em agosto teremos a III edição.
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Agradecimentos: Edson Costa, Marcio Anderson e João Rufino.
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A reportagem de centro da Revista Metrópole onde aparecem as fotos da Nayara Nery, Regis Falcão, Maurício Pokemon, Mesquita Diniz e Felipe Mendes:


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A linda foto do Márcio Anderson que estampou a capa do Jornal:
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E a minha foto, publicada no mesmo:
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E por fim os participantes do II Varal de Fotografia do Piauí Photo Clube:
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[Vejam também: Meu Flickr]

Segunda-feira, Julho 06, 2009

INGLÊS NO PESCOÇO.

Nas segundas era todo engomadinho. Levantava trinta minutos mais cedo que o de costume, pra poder fazer a barba com zelo.
Nessa ocasião trocava religiosamente as laminas do aparelho. Era dado a superstições bobas e laminas com mais de três usos atraíam má sorte.
Fazia a barba com a paciência e a precisão artística de um escultor. Mirava e deslizava suave a navalha até que julgasse seu rosto digno de uma segunda-feira.
Limpo, barbeado e com um leve tom vermelho-azulado nas maças do rosto, parecia mais profissional que o velho gerente do andar de cima com sua abusada colônia de rosas e o paletó quadrado desbotado de trinta e dois anos de empresa. Sentia-se invencível e ninguém podia contradizê-lo.
Era perfeccionista e de fato não arredava o pé até que estivesse com aquela aparência de coluna de mármore, perfeitamente lisa. Era quase como um pequeno ritual de purificação reservado exclusivamente para as segundas, já que a barba de quarta era consideravelmente menos criteriosa e a de sexta uma verdadeira incógnita desleixada. Talvez quisesse com aquele ato sanguinolento de maltrato às curvas de seu rosto, compensar a falta de limites do fim de semana, como se quisesse se livrar de tudo aquilo de condenável que fizera.
Complementava com uma bela e fina gravata atada com "nó inglês" perfeitamente arrematado. A gravata escolhida à dedo para combinar com a camisa bem passada com vincos laterais bem destacados. Ne quarta feira era a primeira que lhe viesse à mão, e da quinta em diante um "deus dará".
Mas na segunda era assim, barbeado, engravatado, alinhado. Perfeitamente concentrado e funcionário exemplar, até que o monstro da semana lhe devorasse o zelo e a vaidade dando em troca as rugas na testa e à gravata um mal feito nó de "Windsor" que resumia toda a mixórdia de sua conturbada semana.
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Sábado, Julho 04, 2009

O CURIOSO CASO DE BENJAMIN CONSTANTINO

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Nascido de amor profundo, entre suor e dor física ele veio ao mundo. Em silêncio, como o caçador que chega sorrateiro com o vento.
Em Lua de sexta, ele nasceu. Traz consigo a Pata do Leão do Norte e o Uivo do Lobo do Inverno.
Que sua jornada seja longa e os perigos não o assustem, bravo Benjamin. Que o mundo, esse grande dragão de dentes afiados, não vença seu escudo, e que o fio de sua espada sempre verta o primeiro sangue.
Voe alto e grite com poderosos pulmões, pois a saga começa.
Bem vindo, Benjamin.
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[Aos meus amados Carla, Gustavo e o pequeno Benjamin. Parabéns!!]

Quinta-feira, Julho 02, 2009







Bem, recebi ontem um e-mail com o aviso da indicação. Um tanto tarde pra concorrer, mas só a indicação ja faz cócegas no ego. Quem quiser votar, à direita e abaixo tem um selinho com o link.
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Amanhã é dia de texto novo.
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