terça-feira, janeiro 31, 2006

Senhor Pés-trocados. [Parte III]

Pés trocados era um trapezista.
Usava cores que tinha guardadas, mas andava nu.
Tinha cores e açúcar de sobra sempre. Guardava tão junto que pareciam vestí-lo. Somou a habilidade de chaveiro [abria as trancas e deixava os sorrisos fugirem livres], a ousadia de pular entre chamas [pois uma ou outra queimadura faziam parte do caminho, e era sempre divertido descobrir o que havia do outro lado], misturou com o que conhecia de truques [parou de fazê-los e descobriu a mágica de verdade. Acreditava Nela....] e finalmente suas infinitas possibilidades de sonhar. Nasceu o Trapezista. Seus pés trocados andavam pela corda, ameaçando sempre virar, mas nunca estivera caminhando melhor. Pés-certinhos não conseguiriam andar ali. Equilibrava cores, delírios, sonhos e risos, todos na ponta do nariz. As mãos gesticulavam, soltando estrelas [componente básico para a mágica]. Tinha dois trunfos que guardava para a grande Noite [que era todo Dia]: um belo par de asas, e sua língua esquiva, que usava para adestrar palavras, de forma que nunca soubessem se elas estavam ou não domadas. Agora, que estava no caminho [in]certo, só uma dúvida lhe corroía....
[fim do início. Para recomeçar denovo do começo]
o.

domingo, janeiro 29, 2006

Senhor Pés-trocados. [Parte II]

Pés-trocados entrou para o circo. Fez de tudo um pouco: pintava nariz e sorriso, calçando botas largas que destacavam ainda mais seu jeito tropêço, mas não se sentia confortável assim. Não gostava de sorrisos pintados, mas sim dos que fogem dos olhos e da boca quando menos se espera; tentou ser domador de feras, armado com chicote e fúria. Denovo sua estranha habilidade de trocar as coisas atrapalhou: queria cavalgar as feras e pular entre os arcos incendiários. Seria divertido. Tentou truques mágicos de palco, mas seus olhos eram tão rápidos que sempre sabia onde estavam escondidas as cartas. Não achava justo, pra que fosse mágica ele também não poderia saber.Resolveu se despir das roupas coloridas e das botas largas. guardou o chicote e as caixas de fundo falso. Estava se tornando quem ele era...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Senhor Pés-trocados. [Parte I]

Pés-trocados era um desajeitado.
Toda sua infância andava pisando desengonçado pelo caminho. Entre tropeços e aterrisagens forçadas, caía. Foi seu estranho jeito de andar quem lhe rendeu esse nome.
Estranhava a forma como os outros caminhavam reto, vestiam roupas coloridas e falavam tudo tão direitinho. Nunca se acostumava com aquilo.
Teve de aprender a guardar suas cores e disfarçar aquela forma peculiar de andar.
De tanto caminhar pelo mundo reto, quase resolver acertar o passo e virar mais um caminhante-corretinho-da-rua-ao-lado. Ensaiou, ensaiou, até que "normalizou-se". Fingia andar pelo mesmo caminho, mas nunca pisava com os dois pés ao mesmo tempo.
E isso o tornava ainda mais estranho, para quem o visse com olhos do mesmo tamanho...

terça-feira, janeiro 24, 2006

Dois diálogos e uma descoberta.



[imagem: filme coffee and cigarettes]
- toma um café comigo?
-...sim. Sim.
- eu adoro a forma como as bolhas vão se acumulando nas bordas da xícara.
- Cansada.
- esse cheiro me faz pensar em manhãs felizes. Você não sente isso?
- Não. Nunca me ocorreu.
- tudo bem.. acontece... adoça pra mim?
- er.. desculpa, esqueci quantas colheres de açúcar você gosta.
..................................................................
Sentado olhando a fumaça. Dois dedos inclinados e o cigarro levemente apertado entre eles. Subia sinuosa, daquele jeito só seu: imprevisível.
Olhava...
- aonde vai?
- onde o vento me levar.
- e se isso não der onde você quer chegar?
- não é o caminho nem o destino, mas a viagem é o que importa.
E foi, subindo em seu blues-balanço. Seja lá pra onde fosse.
o.

domingo, janeiro 22, 2006

palavras e esconderijos.

Eu vivo em constantes brincadeiras de esconde-esconde.
Escondo intenções, pensamentos, palavras e sonhos.
Escondo desejos e principalmente a mim mesmo.
De tanto ME esconder, esqueço onde estou.
Esconder é um passatempo interessante. É também uma brincadeira perigosa.
Descobri que o melhor lugar para se esconder algo, é deixar bem à mostra. Ninguém lembra de procurar onde não se esconde...
Hoje quero [des]esconder Entre consoantes e vogais.
Esconder entre letras é muito eficaz, mas letras juntas em palavras, sofrem de uma espécie de síndrome reacionária de massa: em comitês declaram brados de liberdade, e terminam se corrompendo. Traem, vez ou outra.
Mas algumas delas também eu escondo separadas. A maioria das vezes escondo até de mim [ai de minha memória perfeita, que sabe bem onde essas estão].
Esconder é um bom ofício. Sou bom em esconderijos, e já que encontrei aquelas palavras, melhor ir ali, me esconder.
Ouvir James Brown faz bem pras bochechas.

Acho que vou adestrar umas palavras ainda hoje. Enfileirem-se, por favor.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Às sextas, me escondo entre os dedos de Sylvia.

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.

(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste Envelheço, porém,
e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)



(Sylvia Plath)

segunda-feira, janeiro 16, 2006

fugiu.escapuliu./?

[....]


o.

domingo, janeiro 15, 2006

Antenas

Caminhava apressado, a fumaça ficAndo para trás, perdida.
Sob a meia luz do poste parou, olhou em volta e para cima, onde incontáveis estrelas brilhosas [tantas mais que a noite anterior], piscavam sussurrando cores. Se deu conta do que acontecia:

- Ai meu deus, contaminei o céu!

E foi denovo caminhando, amarelo-sonho, esperando o que viria daqui pra frente.
Ria consigo feito um bobo, e procurava fotos de estranhos rasgadas, para sua coleção.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

A arte de esconder cores e adestrar asas....


Juntei as cores, uma a uma, roubadas de sonhos infantis.
Pra que os outros não teimassem em roubá-las de seu destinatário, escondi sobre uma densa camada de açúcar. Chamei de jujubas.
Pra que elas ficassem bem acomodadas, tirei um vício do bolso e pintei com cheiro de bom dia. Sentaram umas sobre as outras em uma aquarela doce.
Prometi dar um teto estrelado, pras cores não ficarem deprimidas no claustro provisório. Peguei um par de asas novinhas e fui catar estrelas. Queimei a ponta dos dedos, mas nada que um ou dois sopros sorridentes não curem.
O toque final seria uma película transparente de intenções e uma fita bonita.
Estava pronto o presente
Estava treinando uma nova mágica: fazer rodas gigantes não parecerem tão assustadoras, e devolver sonhos à alguém, pra que lembrasse como voar.
o.
....

terça-feira, janeiro 10, 2006

Dos atos e dos fatos de ontem hoje e amanha.

Ontem eu encontrei um sonho perdido, que gira em velocidade atordoante, espanta poeira sob entulhos e tem luzes coloridas. E vai me fazer encaixotar sob estrelas, algo interessante.
Ontem também eu vi algo que mexeu comigo, mas sobre essas coisas nao é bom falar.
Hoje uma pessoa me falou algo que engravidou minha imaginação, e ela nem imagina que fez isso. Trabalhei o dia inteiro com a minha cabeça ovulando. Está verde, mas tirando jujuba [sim, vermelhas também são das favoritas, eu sei.], verde nao é uma cor pra pensar. Maduro é bom.
Hoje também eu tive uma idéia que talvez se concretize, e muita coisa irá mudar, mas outra pessoa me avisou pra não contar sobre meus planos, e só duas pessoas sabem disso. E essas duas pessoas já bastam, já que a aprovação delas é fundamental.
Hoje eu também acordei gripado, e vou dormir com febre. mas provelmente quando eu for dormir já será amanha, então essa é uma boa transição para falar de amanhã.
Amanhã finalmente eu terei uma folga, e pretendo colocar ordem nas coisas.
Amanhã alguém vai embora [é a segunda vez em um mês que o cinza me rouba pessoas, e por isso aquele lugar não terá meu perdão]. E eu vou morrer de saudades dele.
Amanhã alguém terá uma entrevista, e eu torço muito pra que tudo dê certo, afinal ela merece.
E depois de amanhã é talvez chova, talvez não, mas com certeza as cores irão querer sair pra brincar.

domingo, janeiro 08, 2006

NOTICIAS DO MUNDO DOS SONHOS

Carta aos ilustres visitantes da terra dos sonhos...
Sonhar é um ofício um tanto cansativo às vezes, mas apesar do fogo cerrado e do avanço do inimigo pelas trincheiras, resistimos.
Eles estao jogando pra valer agora, enviaram pesadelos de classe 4 sob fumaça verde e palavras desconfortantes. Perdemos muitos na ultima noite, durante uma chuva de inconsistentes amanhãs. Foi horrível, acreditem.
O ano novo foi ameno, o inimigo resolver dar folga. Reunimos nosso melhor batalhao, ingerimos atordoantes gelados e dançamos em nuvens baixinhas, pra não nos arriscarmos muito.
Entre amigos de batalha, sonhadores incertos, clubes de 5 (um batalhão especial, o melhor da força), fizemos festa até as novas horas de novos tempos surgirem. Assistir números se transformarem é agradável, principalmete se os canhões miram para o alto, por um tempo.
Mas a guerra continua. O exército de anti-sonhadores avança sobre o chão abalado da terra sem sol. Enquanto nos atiram razões e conceitos, devolvemos jujubas e delírios. Disparamos estrelas.
Novos campos vêm para novas batalhas. Será um ano de guerras. Muitos sonhos já morreram, mas estamos nos esforçando, sonhando todos os dias para fortalecer as linhas. Fizemos e faremos nossa parte.
Entre disparos e pipocos, realçamos as cores e estrelamos melodias. Fogo-cerrado.
Nosso exército não perde os sonhos nem a esperança quanto à vitória, mas são tempos difíceis para os sonhadores.