sábado, dezembro 23, 2006

Pela chaminé empoirada, descem presentes coloridos. Amanhã tem Post de Natal...

ps: eu definitivamente AMO o natal...

domingo, dezembro 03, 2006

O MÁGICO AMARELO

O mágico amarelo era um daqueles mistérios estranhos que surgem na cabeça durante uma cochilada na cadeira e ficam na memória.
Ele transformava letras soltas em versos sorridentes com um simples gesto. De sua cartola cartola brilhante saíam estranhas criaturas: borbolefantes, interrogrilos, crocodilírios, tamanduárvores e outros tantos...
De suas mangas compridas voavam estrelas, e dos dedos pipocos coloridos. Mini fogos-de-artifício...
Nas cartas de baralho, aqueles leques bem distribuídos de possibilidades, entre ases vermelhos e negros, sempre surgia uma foto velha de um tempo remoto que só o espectador via, e só faria isso por uma pequena fração de segundo, o bastante pra fazer aparecer num passe de mágica um turbilhão de memórias...
Mas o mágico era estranho. Transformava coelhos em anões de jardim com compulsiva vontade de conhecer o mundo; e esboços de um dia cinzento em olhinhos apertados e bochechas contraídas.
Um dia resolveu, só por curiosidade, usar o truque do desaparecimento. Apontou para si a varinha e um clarão esfumaçado tomou o palco.
Abracadabra...

segunda-feira, outubro 30, 2006

SOBRE DOMINGO, 29 DE OUTUBRO E AS ESCOLHAS

"L'art est mort. Ne consommez pas son cadavre!"
[A arte morreu. Não consumam o seu cadáver!]

Cada povo tem o govenante que merece. Que venha o fogo e consuma o pouco que restou.

[Cartaz e frase: França, Maio de 68]

segunda-feira, outubro 16, 2006

LADO A

Recompôs-se, tratando de esconder a surpresa mas traído pelo rubor das faces. Olhou o relógio e constatou que mal passaram 30 segundos desde a última olhada. Colocou-se de pernas cruzadas elegantemente uma vez mais e tentou pensar sobre outras coisas, enquanto esperava o doce calafrio fugir de suas carnes.
Às vezes os sonhos escorregam pela nuca e dão aquele arrepio gostoso que faz a boca encher de saliva e as mãos se apertarem. Tinha aquela incoerente mania de perder-se em possibilidades tocadas no gramophone de sua imaginação.

sábado, outubro 14, 2006

SOPA DE LETRAS

Arremedo em escritas as palavras em digestão.
Embaralhando a língua nas estrelas apagadas do céu da boca, cravo os dentes naqueles versos nunca ditos por esses lábios desertores.
Não sairão! Não sairão!
Engulo em seco, empurrando goela-abaixo pronomes pessoais e reticências. O faria a noite inteira, não fosse essa interrogação engasgada na garganta...
Sufocado, entalado, vomito verborrágico a sopa de letras mal-digeridas daquele jantar. Antes tivesse me alimentado da chama das velas que desenhavam a penumbra. Queimaria menos, a gastrite que essa palavras gordas, saturadas de ambigüidade e entonação duvidosa me causam...
É o castigo por essa fome desgraçada de palavras enfileiradas, frases e versos. Me torno um bulímico devorador de letras infames.
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[Sr. Pan, crie vergonha e ajeite meu template. tenho saudade dos meus links. hunf.]

sábado, outubro 07, 2006

Cores cores.

Aquele universo de cores que perambulavam à sua volta, trazia uma interrogação em cada. Cores sorridentes, cores afoitas , cores compulsivas, cores exóticas, cores da madrugada, cores sumidas, cores incertas...
Aquarelecia em suspiros longos e lágrimas escondidas. Era um tal de "pinte-se tudo" e "espalhe tons"... transtornava olhos desprovidos de cor com suas aberrantes ilustrações e só, já que por mais que tentassem, cores nao iriam ver.
Pincéis em forma de letras eram o instrumento, e imaginações, suas telas favoritas. Fugia do impressionismo com doses de surrealismo torto e cartum. Desenhava fora das linhas e pintava até as molduras. Cores subversivas que repousavam em delicados traços fugidos de um delírio.
Praticava dança de salão com aqueles azuis mais guardados e rumba com os vermelhos. Tcha-tcha-tchá com as mais animadas.
Cores perambulam sempre e vão pelo caminho que escolhem...
Latas de tinta esparramada em forma de sorrisos de sábados saudosos...

domingo, outubro 01, 2006

Teresa e seus amores - Parte Final

Enfim, a última parte de Teresa. Aos que tiveram paciência de regar os olhos com a doce cajuína, agradecimentos enviados do lado de cá.
[à doce boneca de olhos interrogativos e beijos açucarados]

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Teresa então arregalou os olhos. Só então se apercebia de quem era ele e do que havia lhe pedido.
O índio sacudiu suas quatro asas poderosas, retirou da tanga a faca feita com o grito da mãe do pescador Crispim. Ela brilhava como a lua.
- Teresa, Teresina minha amada, eu arrancaria do bucho do céu todo o azul, se tu me pedisse. Mataria de novo o boi-estrela, de quem Nêga Catirina devorou a língua, e até gritaria mais alto que a voz-trovão de teu pai, se tu assim me pedisse.
- Tua mãe deu de presente aos de minha linhagem uma moradia em seu vestido. Por que iria eu negar-te uma estrela, se é isso que me pedes como prova de amor?

Poty cravou fundo a faca no peito. Do talho escorriam sonhos e cores. A cor do vermelho-único do urucum.
Teresa desesperava-se, enquanto Poty se desmanchava em sangue.
- O que você fez ???
Tentava falar enquanto o soluço roubava sua voz e as lágrimas lhe escorriam dos olhos.
Poty sorria.
- Minha doce Teresa, meu sangue vermelho pinta o agora, mas meu brilho-estrela escreverá na noite dos dias-amanhã o teu nome e o meu. Aqui parto pra cumprir minha promessa. Meus pés velozes não mais tocarão essa terra, mas se teus olhos me beijarem no céu todas as noites, irei brilhar tua cor e ser estrela de um só dono, até que teus pés miúdos também larguem esse chão cinza e voltes pro útero da noite, onde te espero. Não demore, minha amada, ansioso parto pra te brilhar noites a fio, esperando o beijo doce de teus lábios de mulher com jeito de menina.

- Leva em teu vôo meu olhar, meus beijos e minha alma, doce e louco Poty. Hei de todos os dias cantar ao vento esperando tu chegar na noite, e quando te vir minha voz cantará o silêncio, até que minha mãe se compadeça de meu sofrimento e me dê casa em ti, minha estrela amada.

E Poty subiu.
De suas asas poderosas saiam tornados. Em seu sangue vermelho único faiscavam gotas cintilantes. Num pipoco estridente, saíram cores histéricas e músicas atordoantes. O índio subia alto e aos poucos era menos gente e mais sonho. No meio da noite negra, nascia uma nova estrela. Brilhava verde no céu, enquanto as outras eram azuis ou vermelhas. Aquele era o tom de verde da cidade-mulher, sua amada.
E foi assim que nasceu a estrela de cor única, feita de sonho de um amor separado e imaginação ”

- Poty morreu, vovó?
- Não, minha querida. Ele virou uma estrela.
- Por causa do presente da noite ao índio curioso, né?
- Sim... e porque sua Teresa amava estrelas, e queria uma só dela.
- E o que aconteceu com Teresa?

“Teresa sentou e chorou. Passaram-se dias sem que ela saísse dali ou desviasse o olhar perdido do céu. Foram tantas as lágrimas que escorreram de seus olhos brilhantes que ali nasceu um rio. Um rio de forte correnteza, que desliza por toda aquela terra imaginária, onde os seres feitos de mágica iam festejar em tempos remotos.
O rio de lagrimas de Teresa, gotas tristes de saudade, carregava a felicidade das lembranças, o tesouro dos sorrisos e as borboletas imaginárias que nascem no meio da barriga em dias felizes, tudo encharcado pela dor das despedidas.
Por onde cruza o rio de Teresa, que hoje chamam de Poty, nascem girassóis insanos e outras flores subversivas, de cor apaixonada e saudade pintada em melodia.”

- Teresa chorou um rio inteiro. É muito amor em uma pessoa só, mamãedinha.
A velha repousou o cachimbo sobre o vestido desbotado, e com um sorriso brincou apertando o nariz de Teresa:
- Um dia seu coraçãozinho também vai crescer, querida. Vai se encher tanto de amor por alguém, que vai vazar pra alma, subir pros lábios em forma de sorrisos bobos e pros olhos em um olhar perdido, e depois escorrer pras pernas, onde vai virar aquela tremedeira incerta.
Teresa riu marota, apoiando o queixo nas mãos e querendo pra si um amor que causasse tanto rebuliço.
- Teresa não teve filhos, vovó?

“Teresa ainda espera o dia de ir morar com seu amado. Às vezes chora de novo por seu índio, fazendo subir as águas do rio. Há quem diga que ela chorou outro rio por um tal Monge Parnahyba que morreu salvando-a do tenebroso Crispim-pescador, que de tanto guardar maldade nas idéias, ganhou uma cabeça inchada como uma cuia. Mas isso é só fuxico sem rumo daquela cidade esverdeada.
Quando chega setembro e os outros meses de perto, o calor da saudade consome Teresa. É um B-r-o-bró de desejos. Nessa época, a noite tem pena de sua filha, e usa aquele vestido enfeitado e brilhante, pra matar parte da saudade que Teresa tem de beijar seu índio-estela amado. Ele pega carona no corisco e escapole pra dentro de Teresa, nadando no reflexo do rio, até que chegue o dia dos dois terem um só riso-poema, no toque de beijos apaixonados.
Ela, que tem o dom de transformar tudo o que toca, danou-se a parir arte, música e poesia na forma de filhos talentosos. Eles são gerados na imaginação e paridos do bucho do Piau, e se espalham por todo canto. Dizem que eles são parte do plano de sua mãe de misturar de novo os mundos, pra que a mágica saia das lembranças e volte pro mundo dos homens.”

Teresa dormia com um sorriso nos lábios. Sonhava com amores incríveis, homens-estrela e cajuína. Sonhava com o mundo como ele era antes dos homens inventarem a tal realidade. Sua avó acendia o cachimbo uma vez mais, e daquela brasa diferente subiam formas encantadas desenhadas pela fumaça. Ela, que também era filha da imaginação, se perdia em lembranças da adolescência, quando os que hoje são personagens de histórias eram seus amigos de roda. Tempo em que os olhos sabiam ver e todas as maravilhas da realidade fantástica viviam suas aventuras. Bons tempos que hoje são histórias, contos e lendas.
Deu uma longa tragada no cachimbo.
- são histórias, e devem ser contadas, pois enquanto alguém se lembrar elas não terão Fim...

sexta-feira, setembro 22, 2006

Teresa e seus amores - Parte III

Conforme anunciado anteriormente, Teresa será publicada aqui em 4 partes. Essa é a penúltima...
[o sorriso interrogativo foi passear em horas longas, mas quando estiver de volta os olhos desiguais ainda estarão aqui. Sempre... Amo. Amo...]

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[continuação]


“Os dois dançavam e cantavam. Teresa, que havia aprendido também o dom do vento, misturava-se ao homem-pássaro-brisa. Poty, que fora tocado por Teresa, cantava em assovio entre as folhas de um jeito encantado, como nunca havia feito antes.
Dançaram, até cansar e cair no chão de fim de tarde. Um formigueiro de sorrisos fugia dos dois.
- Tenho sede. -disse ela, enxugando o rosto com as mãos.
O índio passou a mão nos lábios de Teresa e do açúcar que lhes escorria, moldou uma taça rústica. Entregou a ela. Estendeu as mãos abertas ao cajueiro d`ouro e este lhe deu os três cajus mas bem feitos de suas galhas. Poty espremeu os frutos entre os dedos, fazendo escorrer um suco cristalino para dentro da taça. Afastou-se um pouco e sem tirar os olhos de Teresa, sussurrou algo à bebida, que em um redemoinho borbulhante tornou-se da cor do bronze. Com um sorriso entregou à Teresa.
- O que você fez?
- Contei um segredo a ele. Em troca, ele virou cajuína. Virou um espelho da cor dos seus olhos.
Ela experimentou a bebida e se deliciou.
- Um presente pra você.
Ele riu, todo convencido. Os dois ficaram até o sol ir sonhar e a noite aparecer, olhando pra eles misteriosa.
Estrelas pipocavam no céu. Há tempos a noite não usava aquele vestido de festa.
- São lindas, não são? As estrelas... - falou Teresa, parecendo uma criança. Deu uma risada longa, fechando os olhos. Sonhadora.
- Tenho vontade de tocá-las, mordê-las... Ter uma delas só pra mim.
O índio riu ao lembrar de quem eram algumas daquelas estrelas.
- Quero um presente de você. - falou o filho do vento.
- Um presente... - repetiu ela como se já soubesse o que viria.
- O que quer de mim, veloz Poty, filho do vento-águia com o índio curioso?
- Quero seu poema mais doce recitado com o sorriso mais belo e entregue em um beijo duas vezes infinito.
Respirou fundo.
-... pedes um tesouro sem preço e que já é teu, belo Poty. Desde sempre.
Ele se agitava.
- Mas não vou te entregar assim. Ouça-me bem, filho do vento do norte. Já me ensinaste os segredos da mata, a magia do vento e a sussurrar encantos para a cajuína. Tudo isso são cores a mais pro sonho... Da primeira vez que te olhei já era mais que tua. Desde antes do sorriso do sol queimar o céu e fazer nascer a noite. Já eras meu antes mesmo do açúcar fugir da boca da imaginação e se esconder no sorriso dos sonhadores. Nossa história é mais antiga que os amores, que as cores...
Quero de ti, doce índio dourado, uma estrela. Uma estrela pra selar nossa união. Uma estrela só minha pra que seja só nossa.
O índio ergueu-se. Olhava sério para Teresa.
- Nossa história já era contada no zunido das flechas rasgando o ar, no tempo dos deuses, quando os mundos estavam em guerra. Mãe Terra pariu o cajueiro, pra que de meus dedos escapulisse o suco de oferenda a você. Desde que o vento era uma sensação não-nascida, nosso amor já era contado.
- Teresa, filha da negra Noite misteriosa com o Corisco zangado e barulhento, me pedes uma prenda cara, mas eu, Poty, filho da Águia-vento do norte com o Índio curioso que soltou a noite da tucumã, tenho palavra.
Teresa então arregalou os olhos. Só então se apercebia de quem era ele e do que havia lhe pedido.
[a seguir, a última parte...]
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terça-feira, setembro 19, 2006

Teresa e seus amores - Parte II

Do mundo dos sonhos, retorna o desconstrutor com mais um pedacinho de Teresa...
PARTE II DE IV
[continuação]
“ Teresa não conseguia esquecer aquele índio lindo, e em seu sono chamou por ele. Estava caminhando naquela chapada alta. Faceira, colhia flores. Poty a acompanhava com os olhos, se escondendo no assovio do vento das asas dos pássaros dali e no deslize das folhas. Teresa sabia que ele estava lá, mas fingia que não havia notado. Gostava de brincar daquele jeito. Uma brisa correu e mordeu sua orelha:
- vem menina da noite nos olhos. A floresta inteira esqueceu como cantar quando tu foste pra longe. - Sussurrou no ouvido dela. Saiu tão rápido quanto veio, e ela então acordou. Acordou e encontrou três penas no travesseiro: uma verde, uma amarela e uma branca.
Teresa arrumou as penas em um colar e correu em busca do vento. Entrou fundo na mata, sem medo. Na verdade adentrava do domínio de seus sonhos, que eram frondosas árvores de frutos adocicados. Embaixo do Cajueiro d´ouro sentou esperando seu amado.
O vento, sorrateiro como ele, esgueirou-se entre as folhas e sussurrou docemente:
- Sabia que você viria... -Dobrou no ar, levantando folhas.
- Minha curiosidade sempre vence meus pés...
- Belas penas ornamentam seu pescoço. -Riu o índio sentindo-se convencido.
- Surpresas que o vento traz durante os sonhos. -Brincou ela enroscando os dedos no colar.
O vento levantou folhas no ar, rodopiou e deu forma ao índio dourado com pinturas coloridas no corpo e pulseiras trançadas de penas brancas, verdes e amarelas. Ele sorria largamente.
Os olhos de Teresa brilhavam. Tinha um sorriso poético nos lábios.
Poty era da floresta como o açúcar é dos sonhos. Conhecia cada pedra, árvore criatura e som. Conduziu Teresa por caminhos que os homens acordados não conhecem. Catou para ela flores únicas, de cores variadas e cada uma delas tinha uma nota musical. Um ramalhete de cores e música, presas por duas flores de cor incerta: um bemol para dias tristes e um sustenido para dias melhores.
Poty ensinou à Teresa como se vestir de bicho, se esconder sob escamas de peixe, enxergar como o anum e a correr como a capivara. Teresa se perdia sem notar (nem resistir). Poty ensinou à Teresa como arrancar o sangue-tinta das sementes miúdas, para pintar desejos vermelhos em sua imaginação.
- Eu nunca havia visto um vermelho como esse. -disse Teresa olhando para os dedos manchados.
- Foi o desejo em pessoa que misturou tons até chegar a essa cor. Pra proteger seu tesouro, o vermelho único, o escondeu no ventre marrom do urucum-sem-graça.
Teresa esticou os dedos vermelhos e começou a desenhar no ar. Escreveu seu nome tão junto ao de Poty que não se podia dizer onde terminava um e começava o outro. O índio ficou tão maravilhado que mal percebia o vento fugindo de suas asas pra dançar com as folhas.
- Você consegue desenhar sons...
Teresa ria vitoriosa. Prendera Poty ainda mais em seus encantos.
- Desenhar sons é escrever a alma. Ensino a você.
Poty ensinou à Teresa os segredos da mata. Teresa ensinou a Poty a poesia desenhada.
Os dois sentaram sob o Cajueiro d`ouro e conversaram como se já se conhecessem desde sempre. A noite nos olhos dela roubaram o coração de Poty e os dele faziam-na tremer. Conversaram sobre a mágica no vento, verde das árvores e a tinta dos sonhos, pois aquele povo-pássaro sabia bem de sonhos...”

- Teresa fazia poemas, mamãedinha?
- Teresa por si só era um poema.
- E ensinou ele a escrever...
A garota ficou perdida com um olhar distante.
- Ensinou ele a desenhar sons, escrever a alma... Teresa tinha um dom secreto, que nem mesmo ela sabia possuir: tudo o que tocava virava arte, poesia e melodia.

“O índio-pássaro rodopiou em forma de vento ao redor da filha da noite, deslizando entre as árvores, fazendo uma doce melodia flutuante surgir. Teresa dançava fazendo seu vestido se misturar com o próprio vento. Começava a cantar...”

- Mas ela não tinha voz de trovão?
Indagou a pequenina.
- Sim. Cantava com uma voz de trovão, mas daqueles trovões de chuva calma da madrugada, que lhe embalam o sono de uma forma mágica. Faz você dormir sorrindo, se perdendo entre as cobertas.
[continua...]

domingo, setembro 17, 2006

Os amores de Teresa - Parte I

"De pedaços de sonhos flutuantes, cores subversivas, estrelas açucaradas e outros amores, foi feita Teresa."

Primeira parte do conto os "Teresa e seus amores", segundo colocado do concurso Contos de Teresina, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

[www.fotolog.com/cafeinaman]

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Teresa e seus Amores - Parte I de IV


“Os vaga-lumes contam que havia uma terra onde o Sol ardia com gosto. Seu toque, pintava de dourado o que lá vivia. Era tão quente que chegava a derreter sonhos. Mas nessa terra, onde o sol escondia seu sorriso, morava a Noite, e ela era linda...
A Noite era uma negra formosa, que usava um vestido enfeitado de estrelas e trazia o mistério em seus cabelos.
Em um dia nublado, a Noite festejava com a chuva e mal percebia seus encantos roubando a atenção do zangado Corisco, tal qual ele roubava a sua com o fogo azul e sua voz trovejante. Eles se entregaram um ao outro de um jeito mágico, e ainda hoje se fala daquele dia: nunca na terra se viu tantos coriscos pintarem o céu em estrondoso zigue-zague.
Dessa união nasceu Teresa. De sua mãe herdou os cabelos, negros de uma forma ímpar. Do pai, a voz de trovão que a todos silenciava quando proferia um murmúrio que fosse.”

- Mamãedinha, ela também se chamava Teresa?
Questionou a menina com vestido de chita e olhos de cajú.
- Sim, querida! E a história dela talvez seja a sua, contada de um outro jeito. Agora fique quietinha e escute a vovó contar o resto da história.
Riu a velha senhora, pitando seu cachimbo.

“Naquele tempo os homens-de-pena e criaturas fantásticas ainda andavam entre os homens comuns, antes de chegarem as crenças e obrigarem a mágica à migrar pro mundo dos contos e da imaginação.
Teresa cresceu entre os dois mundos, pois era filha de duas criaturas mágicas, mas fora gerada na terra dos acordados. Caminhava livre entre o real e o fantástico, e adorava brincar com ambos...
Numa de suas andanças conheceu Poty, o veloz. Poty era de linhagem nobre entre os homens-de-pena, filho do vento-águia com o índio curioso que soltara a noite de sua prisão no caroço da tucumã. Dizem que a noite deu à todos dessa linhagem o direito de virar estrela ao morrer e morar em seu céu negro, em agradecimento ao índio que a libertou de seu cativeiro.
Poty e Teresa apenas se olharam naquele dia, mas já foi o bastante para que a Noite nos olhos dela roubassem – era um dom da Noite roubar com seus encantos - o coração de Poty e a rapidez com que ele corria em volta dela se esgueirando, a fizesse tremer de uma forma estranha. Naquele dia os dois fugiram, com medo um do outro. E Teresa se apaixonou pela primeira vez...
Ela voltou pra casa arfante, subiu à janela de seu quarto e olhou a Noite, sua mãe, encantada com aquele ser dourado. Sua avó, uma velha faceira de um peito só a ensinara a enrolar cigarro e brincar com a fumaça. “Boitatá-boitatá”, ela chamava. E da fumaça azulada surgia seu amigo dançarino do vento, feito de fumaça e vício. “ -Uma boa e silenciosa companhia”, pensava ela.”

- A avó dela tinha um peito só... e ela um amigo feito de fumaça.
Pensava Teresa absorta, enquanto sua avó acendia uma vez mais o cachimbo.
- Minha pequenina de olhos de cajú, há muito mais escondido na frente dos olhos do que a mente pode lembrar... se você souber procurar, vai descobrir personagens incríveis escondidos em cada cantinho da sua vida.

“ Teresa olhava a fumaça lembrando de Poty. Via os casais andando em cortejo, sentados no banco da praça, a bandinha no coreto e as senhoras saindo do Theatro-de-setembro. O som de sapatos estalando na calçada desviou sua atenção. Era aquela moça triste de quintas-feiras, cantarolando penosa. Ela parou embaixo da janela de Teresa, esticou –se toda e ficou tão alta que poderia fazer nuvens com a fumaça de seu cigarro, se ele estivesse aceso.
- Boa noite, menina-mulher que sonha na janela. Esse sorriso não mente e teu peito virgem bate tão alto e rápido que eu poderia ouvir do meio de um sarau. Diz, que infeliz te deu sonhos de presente e esse ar gracioso dos que amam?
- Mulher triste, andas com a cabeça tão alta, com os olhos escondidos atrás de lágrimas e ainda assim vê meu tormento indeciso...
- Menina, não me engana! O amor consome seu tempo e o tormento em seus olhos só perde pro tremor em suas pernas. Não há de esconder de ninguém. Mas diz, quem é esse que te faz encher o sereno com suspiros?
- Um filho do vento. Ele corria entre as árvores e agora dança no meu sorriso.
E ria boba, sem perceber que a cada minuto se perdia mais em amores por Poty.
A mulher alta como o céu se esgueirou mais e acendeu o cigarro na brasa de Teresa, sem perder a formosura esguia. Desatou então a chorar: - toma cuidado, pequenina. Desse mal de apaixonada eu sei bem, e mesmo que tu ofereças o coração em uma bandeja de girassóis, ainda assim te arrancam ele sem dó. Num se pode ter felicidade. Num se pode ter amor correspondido. Num-se-pode, num-se-pode... num-se-pode...
E saiu a repetir, caminhando chorosa pela rua. E Teresa ficara então ainda mais confusa.”

- A mulher era triste por que amava, mamãedinha?
- Não. Ela era triste porque não era amada.



[continua]

sábado, setembro 16, 2006

PRELÚDIO À TERESA

Antes de começar a contar sobre Teresa, resolvi publicar um mini-glossário, para aqueles olhos que não são do Piauí não ficarem perdidos, já que o regionalismo predomina.


...



REFERÊNCIAS.

*Teresina tem esse nome por ser uma homenagem à filha do imperador Pedro: Teresa Cristina [teresa+ cristina= Teresina]
*A cidade tem um céu negro diferente, e em suas noites estreladas, parece juntar todas elas pra mostrar em uma noite só.
*É uma das cidades com o maior índice de relâmpagos da America do Sul. Aqui sao chamados de coriscos, que é também umdos nomes da região: Chapada do Corisco.
* Boitatá é uma lenda. Um bicho feito de fumaça, uma espécie de minhoca gigante em forma de fumaça.
*Theatro 4 de setembro, é o nome do primeiro teatro da cidade.
*Teresina é ladeada por dois rios: poty e parnaiba.
* A mulher que se estica é "num-se-pode". uma lenda local, de uma mulher chorosa que se esticava pra acender o cigarro nos antigos postes à gás.
* Cajú é uma das frutas mais comuns da cidade e cajuína é uma espécie de suco concentrado dele. Bebida típica tradicional que tem uma cor de bronze.
*verde, amarelo e branco são as cores da bandeira do Piauí.
* Anum e capivara são animais comuns da região.
* Urucum é a semente de onde se extrai o corante ou colorau.
* O pescador crispim, é conhecido como cabeça-de-cuia, a mais tradicional lenda do Piauí. Um pescador que matou a mãe com golpes de um corredor de boi, e agora assombra as aguas dos rios Poty e Parnaiba.
* Nega Catirina é a mulher que pede a morte do boi, na lenda do bumba-meu-boi.
* "esse seu jeito de mulher com jeito de menina." é um pedaço da letra da musica Teresina, do maestro Aurélio Melo e José Rodrigues.

* Teresina é conhecida como a "cidade verde".
* Parnaiba e Poty, São os rios que cercam Teresina. Parnaiba é conhecido como "o velho monge".
* Nos meses de setembro à dezembro ( os terminados em BRO), a temperatura da cidade sobe de maneira infernal, beirando os 45 graus. Essa época é conhecida como "b-r-o-bró".
* Piau é o nome do peixe abundante no Poty e Parnaiba, que deu nome ao estado.
* a velha cachimbeira, e a velha do peito só, são outras duas lendas locais.

Reabertura desconstruída

Depois de um retiro obrigatório no casulo imaginário, o adestrador de cores e equilibrista de desconstruções reabre as portas do castelo dos sonhos à todos os visitantes.
Devido à mudanças inadiáveis no mundo real, as timidas letras passaram muito tempo sem ser enfileiradas, mas agora retornam com todo o furor e imprevisibilidade que só as palavras tem.
Aos que tiverem paciência de conhecer Teresa, publicarei a partir de hoje o conto em 4 partes.
Sonhe e lembre como voar.
[à minha boneca boneca que devorou mais quatro estações, todas as estrelas açucaradas. amo.amo...]

terça-feira, agosto 15, 2006

O HOMEM QUE ESTAVA LÁ

Ele sempre esteve lá. Havia partido alguns anos antes, mas apesar da longa viagem que resolveu fazer, sempre permaneceu ali perto.
De todas aquelas situações em que deveria, estava lá sentado, olhando com aquele meio-sorriso e as fortes rugas de expressão na testa franzida.
Quando a primeira vez, fui correndo contar, com aquele brilho no olhar de adolescente descobrindo o mundo. No primeiro cigarro, mesmo com um certo descontentamento, surgia do meio da fumaça azulada (como poderia reprimir, sende ele mesmo um habitante daquele mundo-que-se esvai?). Aquelas madrugadas insônia, quando as páginas decoravam os olhos, estava lá com aquele olhar severo e suas frases peculiares de "-é inadmissível". Quando a dança das palavras deu resultado e os cabelos viraram farra no chão, deu aquele abraço firme, como um urso gigante. E todas as lágrimas também foram divididas.
Em todas as decisões, das mais banais às revoluções, sempre ouvia e dava sua opinião em nossos diálogos imaginários.
Sempre soube o que dizer, ficando em silêncio.
Tudo poderia ter sido bem diferente. Sempre pode ser, mas o fato de você ter ido patrulhar em outras rodovias não o tornou ausente. Nunca tornará. Sempre vai estar ali com aquela expressão incerta, sorriso apertado e olhos miúdos vermelhos. Gotinhas de suor na testa...
O cheiro de rosas sempre me deixa triste, carrinhos em miniatura me fazem pensar em "rally na barriga" e fardas caqui me lembram sorrisos. Não há um dia em que passe sem visita sua.
Super-heróis Nunca morrem.
[post de dia dos pais em atraso.]

domingo, agosto 06, 2006


"Tranquilamente acendeu um cigarro, abriu a porta e saiu correndo na chuva, gritando como se o mundo fosse explodir. Deixou tudo atrás de si, chaves, pasta de trabalho, cartões de crédito e vida pública.
Às vezes perder o controle era providencial para manter a sanidade."

[imagem: google+photoshop+vontade de gritar]

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"Foi buscar aquele potinho bem guardado, escondido entre as camisas de outros ontens no fundo da gaveta. Entre o cheiro de mofo e sonhos engavetados, retirou o vidro ainda intacto. Na tampa uma etiqueta com o desenho de uma porta e escrito em letras de forma: "I'M A KING BEE".
Bem propício para momentos de felicidade esperada e comemorações particulares.
Sorria baixinho..."

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Getting late, I just can't wait
Ten o'clock and I know I gotta' hit the road
First I drink, then I smoke
Start the car and I try to make the midnight show
Get up!
Everybody's gonna' move their feet
Get down!
Everybody's gonna' leave their seat
You gotta' lose your mind in Detroit Rock City
[KISS - Detroit Rock city - ou música pra se ouvir correndo]
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www.fotolog.com/cafeinaman

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[Everything it´s always for you, Mrs. Hobinson... Amo]

sexta-feira, julho 21, 2006

Dias Consumidos

Foi acometido por aquela insanidade típica de finais de semana atribulados. De uma hora pra outra, já era sexta feira. O que teria acontecido com a quinta, quarta e todos mais??.
Devia ser uma daquelas viroses novas que ataca o centro nervoso tornando mais longos os dias e mais curtas as semanas. Quando menos se esperasse, dias inteiros teriam sumido e a semana só teria cinco dias. Que pelo menos o domingo fosse poupado (ou aqueles 5 minutos após o almoço, para tomar um café num copinho de plástico e fumar um cigarro sob o sol aterrador.).
O mundo não era o mesmo depois do toque do despertador.
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[Não vou dar explicações para a ausência contínua, além do fato das palavras serem criaturas estranhas e tímidas em certos tempos: saem quando bem querem.]
[www.fotolog.com/cafeinaman]

segunda-feira, julho 10, 2006

suspiro perdido e apressado.

Aquela maneira corrida de andar, somada à forma como olhava com olhos de quem vê tudo-ao-mesmo-tempo-agora, era um terrível contraste com o jeito manso de falar.
Passadas longas e silenciosas, parecia cruzar sempre obstáculos imaginários e disputar uma maratona invisível.
Andava com a cabeça longe e o sorriso guardado para telefonemas inesperados [e os esperados também, porque até as surpresas sabidas tem gosto de jujuba]. De tanto correr com aqueles envelopes amarelos pra um lado e outro, terminava ficando longe das palavras adestradas do mundo de zeros e uns, suas e alheias. Passeava sempre, mas falava nada. Ninguém podia recriminá-lo por ser estranho...
Hoje por acaso, escapuliu da zona esburacada do front pra dar um suspiro corrido e dizer pros olhos curiosos: "- estou sonhando mais do nunca" ainda que completasse secretamente com "- e dormindo menos ainda".
Deixava guardada uma promessa de novas palavras enfileiradas muito em breve [ou não...], e pra cobrir o buraco dos dias sem letras, recorria ao baú perdido, onde as coisas já ditas fazem festa.

"SALTOS QUÂNTICOS

Pulou tão alto que bateu a cabeça na estrela.
Ela explodiu em pó cintilante. Uma aquarela de intermináveis desejos.
Misturavam-se os sonhos e os pedaços da estrela...
O engraçado, é que de tão teimoso que era, mesmo com um galo na cabeça e os desejos espalhados, daria outro pulo."
[publicado originalmente no meu primeiro fotolog, um dia desses na vida.]
......
[feliz dia.amo.amo...]

quinta-feira, junho 29, 2006

Teresa e seus amores

E Teresa, coitadinha, tinha pernas curtas e a cabeça nas estrelas: atrapalhou-se toda com os degraus e ficou no segundo batente.

"Teresa e seus amores" ficou em segundo lugar no concurso Contos de Teresina da Fundação Cultural Monsenhor Chaves, e será publicado na revista Cadernos de Teresina edição de agosto.

Se você não tem idéia do que se trata isso, clique no link:
http://www.fcmc.pi.gov.br/base.asp?ID=702


Àquelas pessoas chave para o parto da menina de olhos de cajú, o agradecimento especial.

sexta-feira, junho 23, 2006

Onironauta



O primeiro sinal foi aquele olhar perdido. Aquela expressão de quem não tem os olhos e a imaginação no mesmo lugar que o resto. Logo que começou a andar veio o segundo sinal: os pés trocados. Vivia aos tropeços e tombos.
Com os anos se acumulando em páginas tortas de um conto estranho, iam aparecendo todas aquelas marcas imaginárias de uma vida entre-mundos. O deleite de perambular entre [ir]realidades enquanto enganava a todos com aquele discurso de racional-cético-normalóide, enquanto se divertia sozinho com as faces chocadas dos normalóides em tempo integral.
Agora que boa parte de seu castelo de sonhos com paredes de guloseimas e jardins de jujubas já estava com a construção bem adiantada, escolhia cuidadosamente cada membro de sua corte. Já tinha sua rainha-fada-interrogasonho-de-bico-inclinado, que solta borboletas histéricas pelo umbigo e rouba sua alma com o olhar; a família real, que possuía superpoderes bem especiais e era dos mais importantes pilares daquele lugar; as músicas para dias de festa; toda a sorte de personagens inventados, fugitivos de seus delírios tortos e finalmente um exército de letras enfileiradas, pra mostrar aos contrassonhosassíduos, raça desprezível e cinza, que o Povo Inclinado ainda Sonha.
E tinha ainda aquela mania boba de transformar Haikais em discursos inflamados...

segunda-feira, junho 19, 2006

Fugas Imaginárias.

Tudo havia sido planejado cuidadosamente: Peguei dois pares de meias, três camisas, duas calças, algumas peças íntimas, os sonhos amarelados da infância, os desejos reprimidos da adolescência e os medos de uma vida inteira. Catei tudo e metodicamente guardei na velha mochila verde.
A parte mais difícil era guardar o segredo. Tudo devia ser executado como uma pequena conspiração.
Há muito tempo sentia como um escravo, vivia mergulhado naquele banzo interminável.
Esperei vir a noite escura, quando as estrelas ficam menos tímidas, para executar aquele ato libertador. Quando meu captor adormeceu naquele leito com cheiro de ontens, saí da cama pé-ante-pé, calcei meu all star velho, tirei a bolsa de subversões escondidas e abri a janela devagar. Tudo no mais perfeito silencio.
Coloquei o primeiro pé do lado de fora e lembrei de tudo que deixaria para trás: os doces de tia Teresa, os afagos da mãe carinhosa e toda sorte de criaturas fantásticas fugidas da cabeça. Coloquei o segundo pé do lado de fora e olhei pela janela uma vez mais. Ele ainda estava ali deitado adormecido como um velho mapa, cheio de caminhos a percorrer mas sem pés andantes, enquanto eu preparava toda aquela fuga imaginária. Desde que ele decidiu não mais sonhar, decidi que precisava ir embora.
Foi assim que aconteceu no dia em que Eu resolvi fugir de Mim.

terça-feira, junho 06, 2006

Um estranho no banheiro

A primeira vez que o vi foi em uma manhã de terça-feira. Eu enrolado em uma toalha, o rosto coberto de espuma. Foi no meio da trajetória, enquanto deslizava a lâmina naquele ato subversivo, quando pele e aço se unem para arrancar do semblante parte dos anos e histórias que se acumulam em forma de pêlo. Foi ali, num dos mais íntimos atos da vida de um homem, que notei sua presença. Parecia ter tomado consciência de mim ao mesmo tempo que eu dele. Ficamos lá, nos encarando, franzindo a testa e percorrendo o corpo um do outro com os olhos.
Não sei o que me perturbava mais, o fato de ter um homem semi-nu no meu banheiro, ou aquele estranho ter algo sublinearmente familiar, ainda que distante.
Sua feição se contraía. Talvez a mesma sensação de familiaridade e estranheza casadas passasse na sua cabeça.
Ficamos lá parados, barbeadores à mão. Uma espécie de duelo silencioso, como dois samurais empunhando suas lâminas travando um combate de espírito através dos olhos. Ninguém cederia.
Toquei meu rosto com uma das mãos e ele correspondeu de forma simétrica. Aproximamos os rostos e avaliamos as linhas que marcavam nossas vidas, desenhadas em traços incertos. Eu analisava com uma estranha curiosidade aquelas marcas em sua testa, entre seus olhos e nas maçãs do rosto. Marcas de noites mal-dormidas, dias estressantes e sorrisos de momentos agradáveis. Eram marcas suaves ainda, mas que com o tempo ganhariam mais destaque, dependendo das escolhas e dos fatos da vida de cada um. Havia algo naqueles olhos negros, uma espécie de brilho infantil escondido atrás de um olhar carregado de responsabilidades e uma agenda lotada. Era como um feriado bom que fica na memória e quando o sorriso de um dia feliz se manifesta, ele desliza para ver o sol. Ele parecia ver também no fundo dos meus algo intrigante.
Milhares de coisas passavam na minha cabeça naquele instante, naquela eternidade contida em segundos de tempo parado. Observava as linhas em seu rosto e me perguntava o que teria sido da vida daquele estranho. Como seria sua rotina de trabalho, sua vida social, seus amores, suas vitórias, decepções... Tudo estava escrito ali, naquele estranho rosto familiar.
Por duas ou três vezes simultaneamente ensaiamos dizer algo um ao outro. Erguemos a mão entreabindo a boca e iniciamos, obedecendo à regra das boas maneiras, cedemos a iniciativa. Cedemos e silenciamos. Ambos demos um sorriso. O que mais se fazer em tão incomum situação?
O rádio voltou a tocar, o relógio antes parado observando tudo que se desenrolava voltou a correr. Dizem que o tempo é o voyer por excelência. Tentei ignorar tudo que se passava e voltei a me barbear. Ele decidiu fazer o mesmo.
Ficamos lá eu e aquele estranho no meu banheiro, tentando tocar a vida. Quem sabe um dia eu descubra quem é aquele que de uma hora pra outra resolveu morar no meu reflexo e dividir comigo minha sombra. Quantas vezes ainda teria aquele diálogo silencioso diante do espelho com esse estranho no banheiro, até descobrir ao menos o seu nome?
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Estranhos no espelho andam povoando o mundo inclinado.
Não é novidade, mas anda tudo corrido.
Eu ainda arranjo um jeito de me clonar pra poder dar conta de tudo.
[ps:Eu vou bolar o ensaio, prometo. E vai ser muito mais colorido. Amo]
[www.fotolog.com/cafeinaman]

segunda-feira, maio 29, 2006

A balada do homem inclinado - Parte I


O homem inclinado sempre fora daquele jeito.Quando nasceu, todos pensavam ser ele um gancho [ou alguma outra coisa que não um alguém].Quando criança, todos na sala caçoavam dele, pelo andar esquisito e por sempre estar olhando praquele outro lado que ninguem mais vê. Olhar inclinado para a realidade adjacente...Na adolescência, seu "defeito" ganhou ainda mais evidência. Havia praticamente cortado todo tipo de contato com pessoas "retas" e cada dia se recolhia mais naquele mundo que ficava na curva diagonal à esquerda. Os personagens inclinados costumavam ser companias bem mais interessantes, quando se é torto...Logo após aquele período de confusão que acompanha a tenra idade, veio se assentar o peso das responsabilidades juvenis. Arcava com todas mas do seu jeito. Seu corpo às vezes tinha de virar à direita mas a imaginação seguia por onde queria. Nunca ia com os outros...
De tanto andar naquele lado entre os espaços, terminaria por desligar-se inteiro daquele mundo normalóide de pessoas desinclinadas. Andaria com a cabeça de lado e as idéias tortas atravessadas: Viveria no seu mundo imaginário junto da boneca de labios vermelhos, que era outra moradora daquele mundo-entre-mundos...

[continua...]

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O sr. tic-tac tem me devorado mais do que devia e ando em falta com os olhos dos ilustres seres que povoam o mundinho de zeros e uns. Do meio do front, resta dizer: ainda respiro! ainda sonho! e, mais do nunca, ainda sorrio!

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[www.fotolog.com/cafeinaman]



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[and you know that i´m here for you. always. for every thing. amo ]


o.

[para minha surpresa, no mesmo dia em que comecei a escrever esse texto vi uma pesquisa no jornal que revelou que cerca de 70 % das pessoas têm a postura inclinada para a direita]

segunda-feira, maio 22, 2006

mais tarde... mais tarde...

Se o crocodilo-tic-tac deixar, o sr coelho apressado de pés estrelados volta mais tarde pra diluir um pouco a realidade em forma de letras.

[suspiro]


ps: só você pra transformar meus fins de semana de cama e enxaqueca em felicidade colorida e açucarada.
amo.

domingo, maio 14, 2006

A senhora de imaginação acinzentada

O Ponto Duplo destoante, era filho da inconsistencia com o herói do mundo rodoviário. Desde cedo havia perdido o lado caqui, e portanto teve de assumir como pai-mãe a doce mulher que tinha o dom de trasformar qualquer coisa em guloseimas deliciosas [e os quilos a mais eram seus inimigos, ficavam bem longe dele].
A linda senhora tinha uma vida dura, mas um dos seus superpoderes era a capacidade de equilibrar abacaxis e dar cambalhotas triplas apoiada nos dedinhos dos pés sem perder o sorriso. Adivinhe de quem ele herdou o dom dos malabares...
Mais uma vez era um dos 365 dias anuais dela, e alguns quilômetros os separavam, mas seus orbitais eram ligados pela alma e mesmo sem ele poder dar um gostoso abraço apertado pelo quarto ano consecutivo, ela sabia bem que o conjurador de sonhos parido de seu ventre seria eternamente grato por tudo, e devia uma reticente soma imaginária. Impagável.
[Porque minha mãe tem superpoderes e hoje eu queria muito dar um abraço nela]

quarta-feira, maio 03, 2006

Apanhador de Sonhos

Ele era um colecionador.
Colecionava cores, delírios, incertezas, histórias, memórias, sorrisos e uma longa lista de coisas.
Entre seus itens de coleção favoritos, estavam os sonhos.
Catava sonhos de forma compulsiva. Listava e engavetava uns, soltava pela casa outros. Era divertido vê-los pululando pelos corredores.
Há muito tempo perdera a noção da quantidade de itens existentes ali mas a cada momento queria mais...
Os sonhos, que são criaturas totalmente imprevisíveis e portanto muito difíceis de se capturar, requerem um método apurado para a coleta e iscas especiais.
Usava iscas de açúcar pra pegar aqueles sonhos sorridentes; manhãs chuvosas e camas quentinhas para os dengosos; e para os suspirantes, beijos imaginários.
Para aqueles sonhos mais raros, únicos, usava palavras. Enfileirava elas de forma insana, regando com pretensões de poesia. Desconstuía em letras.
Atraia esse devagarinho, com cuidado para não assustá-lo. Enfeitava o caminho com pés de jujuba e sorrisos brilhantes pra que ele definitivamente não quisesse fugir.
Esse em particular não seria catalogado, muito menos engavetado, nem deixado solto pela casa. Não mesmo. Para esse havia pintado uma casinha bem colorida, com música alegre e cadeiras feitas de sonhos-bobos. Tudo bem construído no jardim de sua alma.
O colecionador cuidava bem de suas peças, e até aprendera com o pesadelo de oito patas a tecer um fio delicado, onde acrescentava miçangas colhidas de seus suspiros e longas penas de suas asas, pra fazer um belo filtro de sonhos gigante, e deixar os sonhos feios e sem cor bem longe, para que nunca chegassem perto do sagrado paraíso de seu mundo imaginário.
O apanhador de sonhos andava bem feliz com a última peça encontrada, a que faltava para a sua coleção, e já estava bem guardada em sua alma e vez ou outra brincava de escapulir pelo seu sorriso ou suas histórias

segunda-feira, maio 01, 2006

livros em chamas.

Às vezes acordava com aquele desconforto poético. Uma fagulha revoltada que inflamava dentro de si.
Era uma irritante necessidade de revolução, de enfrentar com marcha dura, aos brados fortes e irados a massa de normalóides fardados.
Era de fato um desconforto poético, literário, artístico...
Costumava se flagrar imaginando aquele cenário em chamas; ele com um lenço vermelho cobrindo o rosto e nas mãos livros pra atirar, verdadeiros cocktails molotov de desconstrução. Os lábios parindo aos gritos poesia, contra os assustadores gritos linearidade e moralismo cortando o ar.
Em seu mundo imaginário, plantava contos e colhia irrealidades. Lutava a guerra silenciosa no país da contra-cultura.
Às vezes ia dormir de mau-humor.

quarta-feira, abril 26, 2006

Receita de uma Guloseima Rara

Os ingredientes:
* quatro medidas de Sonhos felizes, que se colhe na imaginação daqueles seres sorridentes;
* uma colher de chá de melodias, daquelas que mexem com os batimentos cardíacos;
* cores à gosto. Dê preferência àquelas que escorrem de suspiros bem adocicados;
* uma dose livre de futuros possíveis, pra dar um certo ar de "huuum" à especiaria.
* para a cobertura, glacê à base de marshmallow e surpresas-de-quarta-feira.
Recheio:
* use e abuse da imaginação.
OBS: Caso resolva tornar a mistura mais deliciosa, adicione uma dose tripla de loucura, e todos os outros ingredientes em quantidades exageradas.
Modo de preparo:
* em uma vida bem corrida e por vezes cinzentas, misture tudo. Não há uma ordem específica.
* agite bem.
* é possível que pareça sem sentido. Isso é sinal de que a receita está funcionando.
* aqueça em dias chuvosos com costela coladinha: primeiro enlouqueça, só depois veja no que dá...
Sirva diariamente, de preferência em momentos inesperados, enfeitado com um laço roxo ou música [etíope, de preferência, que faz bem pro coração].
Sonhe e seja feliz.
OBS 2: O USO CONSTANTE CAUSA DEPENDÊNCIA, E EVIDENTES SINAIS DE FELICIDADE, FACILMENTE PERCEBIDOs PELO SORRISO BOBO ESTAMPADO E ARRITMIA CARDÍACA.
[you´re my favorite ice cream]

quarta-feira, abril 19, 2006

Pés de Gato

Às vezes era como um gato. Andava daquele jeito seu, silencioso. Parecia deslizar sobre o chão andando apressado mas sem fazer barulho algum.
Divertia-se, vendo o susto dos transeuntes [quando ele deixava eles perceberem sua passagem]: Tinha aquela coisa boba de brincar sozinho.
Quando não estava naquele bailado silencioso, ficava quietinho observando. Prestava atenção em tudo: nos gestos das pessoas, suas roupas, sua interação; nos pássaros pulando daquele jeito engraçado, perto da barraquinha de cachorro-quente; nas cores da rua, seus barulhos, cheiros... adorava observá-la, quando ela não estava olhando [e também quando ela não estava lá, pois vivia perambulando pela imaginação dele]. O jeito como cruzava as pernas e mexia os pés, como suas mãos delicadas percorriam o cabelo, a forma como o lábio dela se encurvava enquanto falava... prendia-se à esses detalhes bobos.
Era realmente impossível não andar sempre com aquele olhar tranquilo [mas deveras certeiro], e com seu jeito desastrado terminava desviando a atenção dos que pensavam observá-lo.
O que não dava mesmo pra disfarçar era aquele sorriso bobo com um ar de mistério. Talvez sempre soubesse de algo a mais que a maioria das pessoas; talvez risse de suas piadas pessoais que quase ninguém mais entenderia ou talvez mesmo estivesse apenas feliz, como há muito tempo não ficava...
E continuava a caminhar, silencioso, felino, brincando de ser invisível se escondendo dos olhos mais atentos...

sexta-feira, abril 14, 2006

Ele esqueceu o título legal que havia pensado.

Sr pés trocados, o equilibrista de sonhos e aerobata de ilusões, andava praticando um novo truque: equilibrar sorrisos em uma perna só, dando cambalhotas e cantarolando. Aperfeiçoava-se.
O público agradece.
Metia-se em confusões arriscadas, com jeito de realidades prometidas. Já havia sido dito que ele era bom em aritmética: "o preço que se paga em relação ao custo benefício era percentualmente proporcional ao sorriso largo e aos borbolumes e vagaletas que tamborilavam na barriga. Aplicando-se uma taxa de juros moratórios abusiva pra compensar uma vida de espera, teria de regar diariamente os girassóis histericos com momentos mágicos. O resultado da conta é um lucro em forma de sonhos pintados de realidade e futuros desejados. Simples."
Corria pra ver se o tempo passava logo, pra poder acrescentar denovo aquele tom à sua alma sorridente.

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- tenho chado ele estranho. você não?
- ele SEMPRE é estranho.
- é... mas estranho estranho, entendeu?
- ...
- vai ver ele tem um segredo.
- ele sempre tem um segredo.
[e ele ri bobo, brincando com suas descontruções]

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Aceito um alto-falante bem potente de presente.

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E Teresa será entregue na segunda-feira. desejem-me sorte.

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segunda-feira, abril 10, 2006

sufoco-sufoco-corre-derruba-cata-corre-mais-respira

Ele andava com a cabeça nas nuvens, os pés no chão, o coração na mão e o juizo sabe-se lá onde.
Nesses dias ofegantes, se dedicava a tentar escrever sonhos [o que era difícil, já que o monstro papa-sonhos chamado relógio devorava seus momentos entre-horas], desconstruir e brincar com idéias pernetas.
Tornava-se um feirante de primeira, aprendendo involuntariamente a fazer malabarismo com pepinos e abacaxis espinhentos: fazia mágica pra tapar o buraco feito pela retirada do tapete sob seus pés por vegetais de globo ocular obeso. Multiplicava-se, e naquele dia até conseguiu estar em três lugares ao mesmo tempo. sufoco-sufoco-corre-derruba-cata-corre-mais-respira [sem parar de correr] - assina [suaviaminhaviaeadoMeritissimo]-corre-corre. ufa.
Ainda espremia um instante pra convencer cores açucaradas a entrar em uma caixa [e que por favor não saiam aos tapas com o pirlimpimpim que ele anda muito estressadinho] e colava estrelas (e seus dedos juntos, já que era todo desajeitado) pra ficar bonito. De recompensa recebia sorrisos, que valiam tudo (até os arranhões por tentar separar a briga das cores e pirlimpimpim dentro da caixa).
Quando chegava a noite, descobria que as costas tinham virado pátio de rally de tratores, e que algumas partes (que ele sequer sabia que existiam e talvez a descoberta merecesse um nobel) doíam de verdade.
Agora estava ali, e só então descobriu que terminara driblando os ponteiros, sonhando um pouco em forma de letras e que amanhã talvez as olheiras nem incomodassem. Mas precisava de sapatos novos, já que em tantas que anda, não há solado que aguente [menos ainda pés, e trocados...].
E acaba a segunda, enfim. só falta o resto da semana, e vai ser ótimo saber que espécie de vegetal, fruta ou legume de cor estranha o aguarda.
- suspiro -
o.

sábado, abril 08, 2006

Manhãs de sábado imaginárias.

Um café da manhã imaginário na cama:

-bom dia!

-huuum... (sorriso de manha, acompanhado de um apertar de olhos dengoso)

-te trouxe um café da manhã. Torradas, geléia especial, biscoitinhos e um café quentinho com cheiro de "bom dia feliz".

Ela não diz nada, apenas puxa ele de volta pra cama e o beija como se a madrugada ainda não tivesse ido embora.
Ainda restam todos os outros dias da vida de manhãs felizes.

*Café da manhã: "refeição mais importante do dia".
*Esquecer o café no criado mudo e sonhar entre as cobertas: refeição importantíssima para a alma.

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segunda-feira, abril 03, 2006

Curtas, da terra dos sonhos confundida com a outra.

Tamanho foi o susto do Sr. Coelho naquela manhã quando percebeu que seu relógio sem ponteiros havia parado.
Prestes a entrar em pânico lembrou: Seu tempo era reticente.
Se aninhou denovo entre as cobertas com um sorriso bobo e voltou pro mundo das cores, pra sonhar mais um pouquinho.
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Teresa foi moldada de forma apressada.
Entre passos corridos e horas marcadas, ia nascendo.
Pobrezinha, mal nascera e já tinha uma acentuada crise de identidade: não sabia se era filha da Noite Negra com o Corisco Zangado ou dos espasmos involuntários da mão do garoto inclinado.
Fosse como fosse, esperava sair do mundo amarelo-envelope pra imaginação dos devoradores de letras [que é de onde talvez tivesse vindo].
Em breve ele apresentaria Teresa, escapulindo dos cueiros pra irrealidade.
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Lá em cima, estratosféricamente falando: saltando em queda livre.
Aquela sensação de "não ter a mínima idéia", acompanhada do frio na barriga e do gosto das estrelas.
Entendeu??
é. Nem eu.
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quarta-feira, março 29, 2006











- Às vezes é tão dificil ser um sonhador...

- hunpf.

...................


Delírios histéricos e Interrogassonhos.



o.


[...]

domingo, março 26, 2006

ACORDORMECENDO.

Acordormecia.
Sorriava em lagrisos estrangraçados.
Perdiava-se.
Mordeijava estrelidentes borbolumes e vagaletas.
Retisentia interrogrilos pululantes no meio da imaginealidade.
Acordormecia.
Perambulava em reviravaivolta. Desachava.
Coloriava nova historealidade em vontasejos de açúCor.
Apostarriscava em ritmadelinhas.
Que infinite em retinuação.
Acordormecia.
.............
Tinha aquele andar torto e sorriso engraçado..
Uma vida sonhos, que coloriam o imaginário.
Mas cores gostam de passear.
Batia a cabeça em estrelas, pois era dado a voar alto.
Atordoado, ficava confuso. Lembrava de voltar.
Livre de si, percorria os caminhos escondidos.
Aterrisava vez ou outra, pra recuperar o fôlego.
Lembrava quando devia esquecer.
Acreditava uma vez mais.
Ia fundo. Ainda que não errasse o chão e caísse feio.
Kaffeetasse, para o corpo. Farbe, para a alma.
Aquele adorável teatro de sonhos verdadeiros...
.............
Sábados deveriam ser mais reticêntes e domingos menos saudosos.
.............
Caminhar na chuva e gritar de vez enquando junto dos trovões é um otimo exercício insano para a sanidade.
.............
[...]
O.

domingo, março 19, 2006

TEOREMAS INCERTOS E CORES REDUNDANTES.

Sentou-se na cadeira desconfortavelmente acomodado. Retirou mais uma daquelas lanternas da alma, com uma brasinha na ponta. Degustou lentamente o momento... sorriu.
Andava em uma luta contra a vida acordada e os sonhos, que descoloriam de vez em quando. Escrevia, escrevia... apagava, apagava e apagava. Só aquelas incertas não se apagavam, teimando em ficar ali, hora faiscando, hora dançando diante dos olhos, em seu caminho de subida incerto.
Adorava aquela sansação caótica, quando tudo parecia perder o controle. Sentia-se mais vivo. Sentia-se ainda ali.
Era intuitivo, bem sabido isso pelos transeuntes eventuais. Seguia as reticências adiante, com suas estrelas amarradas nos pés. Era uma caminhada longa até aquele sonho novo e colorido, cheio de possibilidades. Algo dizia, algo sorria. algo parecia...
Mas... há sempre um "a mais", entornando a taça e deixando escorrer o carmim seco sobre a toalha... onde dariam suas escolhas? onde dariam as escolhas que não eram suas?
o meio-caminho-perdido era dois algarismos anterior ao ponto de interrogação da variável inconsistente. Que seja bom, de cálculos ou de chute, e que o resultado não pareça com mais um teorema estranho ou fórmula embaralhada.
Dias de chuva chegam. se arco-íris ou trovões, só o tempo reticente dirá...
me viro do avesso.
[...]
o.

domingo, março 12, 2006

0:32 - entre a carteira amassada e a lacrada.

Chovia de uma forma engraçada naquele dia. Era uma chuva de inconsistentes interrogações. Umas chegam em forma de zeros e uns, outras em olhares e sorrisos indefinidos, e muitas mais criadas dentro de sua própria cabeça.
Corria para um lado e outro, mais perdido [achado] do que nunca.
Figurava em letras as objetividades acentuadas de suas idéias. Mascarava, para poder seguir adiante... "ah,mas tem aquele que disse severo: permita-se". E ele então decidiu que aquela era uma carta muito especial, dentre as outras 21, então iria segui-la.
Daqueles dias guardado em si em diante, seria tudo diferente. Como eram todos os dias.
[resolveu que enfeitar o cenário demorava tempo demais e os atores principais terminavam partindo. Adotaria o "agora" como tempo-desverbal-vivendo]

sexta-feira, março 03, 2006

sexta-cinza

Eu quero um sonho bem colorido pra me aquecer a imaginação nessa sexta-feira cinzenta. Ou um delírio inconsequente, pra saciar minha vontade de me perder...
[e minha imaginação compulsiva anda tímida, quanto à este espaço...]

quarta-feira, março 01, 2006

Bar, Blues e Memórias...

Aquela música de uma cantora negra de voz grave, era um perfeito complemento à um fim de noite, tal qual as piores histórias, que terminam em um bar desse tipo e em um Blues.
O homem bêbado, sentado ao lado do balcão com uma garrafa quase vazia de whisky vagabundo, olhava a fumaça azulada subindo devagar. Ela escrevia diante daqueles olhos semi-cerrados, a história dos sonhos de um ex-idiota que sofria de um acentuado problema de memória.
A camisa com os botões superiores abertos e a gravata desajeitada davam um ar tragicômico àquela figura, e as nada sutis manchas no colarinho eram um ótimo aviso de "mantenha distância".
O cinzeiro cheio, deixava escorrer a pilha de baganas com filtro avermelhado, espalhando cinzas pelo balcão de cerejeira. Ele era como sua boca amaldiçoada, que sempre deixava escorrer pedaços de histórias possíveis e desejos de sua alma. Seu pior inimigo vivia atrás das lentes raladas de seu óculos [que talvez dessem uma disforme imagem agradavelmente melhor aos seus olhos que se não os usasse], e a arma mais perigosa contra si próprio era aquele degenerado músculo-dos-sabores que vivia sob o céu da boca: o inferno da língua.
Cada nota daquele Blues amargo, parecia conhecer o caminho correto entre seus tímpanos e seu orgulho. Atingiam em cheio e sadicamente todos os ontens que vivera.
As cascas de amendoins do lado esquerdo eram uma das poucas companhias suportáveis, pelo simples fato de sempre saber o que esperar quando cantasse aquele estalo entre os dedos, fazendo a casca se rompr. Quisera esperar o mesmo quando tivesse entre as perguntas, um estalo menos interrogativo, ou surpresas menos desagradáveis.
Fuçou entre os bolsos do paletó e retirou os últimos trocados. Cédulas de dias suados, que sempre lhe serviam bem na persistente tentativa de esquecer seu nome, quando afogava a língua no amargo e fedorento malte escocês vagabundo, cujas cores do Kilt nao enganavam a procedência da cidade vizinha. Catou o que sobrou dos cigarros amassados, e as histórias que contava a si proprio todos os dias e guardou no bolso, junto do relógio, do orgulho e do prazer de dois minutos.
Sentir-se ridículo era o sinal para ir embora cambaleando, deixando o rastro de amargura que parava vez ou outra pra catar.
Dormiria, até que viesse outra noite de bar, blues e memórias.

quarta-feira, fevereiro 22, 2006

IMPOSSIBILIDADES RECREATIVAS

[Pra você que quer voar fora da asa, pra quem continuo oferecendo um passeio no céu, pra morder as estrelas . ]

"O Guia do Mochileiro das Galáxias diz o seguinte a respeito de voar:
Há toda uma arte, ele diz, ou melhor, um jeitinho para voar. O jeitinho consiste em aprender como se jogar no chão e errar.
Encontre um belo dia, ele sugere, e experimente.
A primeira parte é fácil.
Ela requer apenas a habilidade de se jogar para frente com todo seu peso, e o desprendimento pra não se preocupar com o fato de que vai doer. Ou melhor, vai doer se você deixar de errar o chão.
Muitas pessoas deixam de errar o chão e, se estiverem praticando da forma correta, o mais provável é que vão deixar de errar o chão com muita força.
Claramente é o segundo ponto, que diz respeito a errar, que representa a maior difiuldade.
Um dos maiores problemas é que você precisa errar o chão acidentalmente. Não adianta tentar errar o chão de forma deliberada, porque você não irá conseguir. É preciso que sua atenção seja subitamente desviada por outra coisa quando você está a meio caminho, de forma que você não pense mais a respeito de estar caindo, ou a respeito do chão, ou sobre o quanto tudo isso irá doer, se você deixar de errar.
É reconhecidamente difícil remover sua atenção dessas três cosias durante a fração de segundo que você tem à sua disposição, o que explica por que muitas pessoas fracassam, bem como a eventual desilusão com esse esporte divertido e espetacular.
Contudo, se você tiver a sorte de ficar completamente distraido no momento crucial [...] você irá errar o chão completamente e ficará flutuando a poucos centimetros dele, de forma a parecer ligeiramente tolo.
Esse é o momento para uma sublime e delicada concentração.
Balance e flutue, flutue e balance. Ignore todas as considerações a respeito de seu proprio peso e simplesmente se deixe flutuar mais alto.
Não ouça nada que possam dizer nesse momento, porque dificilmente seria algo de útil.
[...]
Você pode, então, aprender diversas coisas sobre como controlar seu vôo. O truque está sempre em não pensar muito a fundo naquilo que você quer fazer, apenas deixe que aconteça, como se fosse algo perfeitamente natural.
Você também irá aprender como pousar suavemente, coisa com a qual, com quase toda certeza, você irá se atrapalhar - e se atrapalhar feio - em sua primeira tentativa.
[...]


[retirado de "A Vida, o Universo e Tudo mais". Douglas Adams. pág 76-78]


Porque aprender a errar o chão é tão necessário quanto certá-lo em cheio certas vezes.
Porque Voar é sempre uma opção agradável para os que querem algo mais.
Porque eu sou teimoso.
E porque eu continuo acreditando ná mágica das coisas.

o.

sábado, fevereiro 18, 2006

Os ensaios de Pés-trocados

Pés trocados, o equilibrista, tinha seu ofício como uma dádiva afinal quantos outros teriam malabares de sonhos e uma corda-bamba imaginária como instrumentos de trabalho?
Viver ali nas alturas, esbarrando em estrelas [ainda que isso lhe queimasse a ponta do nariz vez ou outra], cantarolando cores e fazendo truques [mágica, afinal não era bom em truques] com os dedos, entretendo seu público de sonhadores era maravilhoso.
Os olhares e sorrisos compensavam os tombos que eventualmente sofria. Quando caía, se deixava bater no chão com violência. Só usava suas asas pra levantar vôo depois de ter caído, pois considerava evitar quedas por medo do chão algo feio. Era como não lembrar de acordar pra dormir denovo.
Como sempre se pode melhorar, praticava insistentemente. Não que tivesse pretensões de ser o melhor, afinal não haviam disputas naquela arte. Lhe agradava estar ali, se tornando quem era.
Tal qual sorrir, viver ali brincando nas alturas e equilibrando sonhos se tornava cada dia mais uma coisa sua...

quinta-feira, fevereiro 16, 2006

Um segredo, uma mentira e um desabafo, em ordem trocada.


"As coisas não precisam ter acontecido para serem verdadeiras. Contos e sonhos são as sombras de verdades que irão resistir quandoos meros fatos forem poeira e cinzas esquecidos." (Sandman - Neil Gaiman)

Hoje amarrei meu par de asas e resolvi caminhar um pouco: vez por outra uma dor na sola dos pés faz você lembrar do caminho.

As coisas estão acontecendo de forma estranha. Abençoada seja a estranheza de dias impublicáveis.

A soma contida nessa equação é um destoante. Uma primária e uma secundária, dando luz à outra primária. Ao invés de azul, pinto um Blues no sorriso e tropeço nas claves de Sol que deveriam ser ditas.

Saudoso [de algo que não tenho fora da minha imaginação]

o.

[www.fotolog.com/cafeinaman]


quarta-feira, fevereiro 15, 2006

olhos teimosos não fecham

Aquela inquietante sensação de não saber o que realmente aconteceu, pode tirar você da cama no meio da madrugada: roubar seu sono, sonhos e ainda alguns minutos do seu dia ( entre uma e outra "pescada", onde vc consegue sonhar por meia hora em apenas dois segundos) e ainda ter a ousadia de capturar seus pensamentos. É desconfortável, perturbador eu diria.
Sobre certas coisas, nunca se pode ter certeza absoluta (sendo o mais otimista posssível, já que sobre todas elas certeza absoluta nunca é uma palavra utilizável).
Sutilmente você escorrega entre sorrisos, disfarçando os incômodos do dia, fazendo o possível pra não enlouquecer [apesar da insanidade ter suas vezes de dádiva]. Seguir passo-após-passo talvez seja a melhor terapia.
E eu tenho me contorcido entre ponteiros pra roubar fragmentos do que foge dos dedos de meus ilustres visitantes, público restrito e merecedor de mais que momentos corridos. Estou ali, mesmo quando não apareço.
[e certas surpresas às vezes tornam-se desagradáveis com o passar das horas].
frutos de um dia inconstante, corrido e cansativo.

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Acordando...

Resolveu que nem só de estrelas e cores era feita a viagem. Catou a mochila verde, seu mordedor de realidades muito bem carregado, uma careta em forma de macaco e alguns de seus sonhos favoritos e entrou no estranho balanço com rodas, cujo interior era recheado de gargalhadas e reflexões da senhorita aBEbelha. Foi encontrar algumas perguntas (mesmo sendo o rei de numerosas dessas coisinhas interessantes).
Ganhou um tio, o qual tirou do sério [triângulos à parte, por favor], congelou beijos apaixonados de seus pais bem escolhidos [pois apesar de já ter os melhores, era ambicioso: queria os melhores e os melhores denovo]; ensinou ao homem-sublimação como morder-entre-segundos, mas ele vivia caindo sem querer acordar [nem pro gorila], e se vangloriava de causar cãibras nas bochechas da aBEbelha-nanana que não dava pausa em goles. Ganhou uma irmã que já tinha.
Brigou com o sal e o vento, pra saber o que queria. Ele respondeu em chuva e frio. Foi uma conversa agradável.
Enfim, Descobriu duas coisas a mais que sabia, mas teimava em não saber: O [S]ido não importunaria mais os tijolos à frente; e quando as cores são realmente teimosas, é melhor deixar elas correrem pra onde querem [mesmo que isso cause um desconforto tamanho em um dos sonhos guardados no bolso].
Agora que voltava à realidade, depois de ter ido bem fundo nos sonhos, lembraria de que certas coisas são como devem ser. E isso não é conformismo.
turn on:
Depois de três dias em off, ligar os botões e retornar à realidade é proporcionalmente tão agradável quanto perturbador.
Obrigado às melhores companhias que alguém pode ter em um fim de semana [mesmo com espuma, baldes de água, raves indesejáveis e placas de reservado].
o.

quinta-feira, fevereiro 09, 2006

FUGIU, ESCAPULIU.

Mesmo os desconstrutores precisam de folga...

Pra quem fica, até segunda-feira.

[não esqueçam de sonhar, enquanto eu vou ali fazer as estrelas tocarem o sal]

[e eu já estou com saudades das suas cores e dos dois pontos, mesmo com desencontrontros a todo custo]

[o.]

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Entre dias de Janeiro e fevereiro levo mordidas.

tic.tac.tic...tac.tic.tac.
tic.tac...tic.tac.tic...tac.tic.tac.
tic.tac.tic.tac.tic.tac...tic.tac...
Um dia arranquei os ponteiros do meu relógio de bolso, pra que invés de tic-tac, ele fizesse reticências.
Funcionou...
Agora os tique-taques viraram um grande bicho de dentes afiados, que vive me mordendo. Ele se esconde entre números em círculo, traços em 8 que se travestem em outros números, em mostradores digitais e grãos de areia que escorrem dentro do vidro.
Ele se esconde atrás de uma bandeira vermelha, de livros empoeirados e aquelas coisas simples que a centopéia-alga verde não gosta de fazer.
O monstro dos tique-taques me consome...
tic.tac.tic...tac.tic.tac.
tic.tac...tic.tac.tic...tac.tic.tac.
tic.tac.tic.tac.tic.tac...tic.tac...

terça-feira, janeiro 31, 2006

Senhor Pés-trocados. [Parte III]

Pés trocados era um trapezista.
Usava cores que tinha guardadas, mas andava nu.
Tinha cores e açúcar de sobra sempre. Guardava tão junto que pareciam vestí-lo. Somou a habilidade de chaveiro [abria as trancas e deixava os sorrisos fugirem livres], a ousadia de pular entre chamas [pois uma ou outra queimadura faziam parte do caminho, e era sempre divertido descobrir o que havia do outro lado], misturou com o que conhecia de truques [parou de fazê-los e descobriu a mágica de verdade. Acreditava Nela....] e finalmente suas infinitas possibilidades de sonhar. Nasceu o Trapezista. Seus pés trocados andavam pela corda, ameaçando sempre virar, mas nunca estivera caminhando melhor. Pés-certinhos não conseguiriam andar ali. Equilibrava cores, delírios, sonhos e risos, todos na ponta do nariz. As mãos gesticulavam, soltando estrelas [componente básico para a mágica]. Tinha dois trunfos que guardava para a grande Noite [que era todo Dia]: um belo par de asas, e sua língua esquiva, que usava para adestrar palavras, de forma que nunca soubessem se elas estavam ou não domadas. Agora, que estava no caminho [in]certo, só uma dúvida lhe corroía....
[fim do início. Para recomeçar denovo do começo]
o.

domingo, janeiro 29, 2006

Senhor Pés-trocados. [Parte II]

Pés-trocados entrou para o circo. Fez de tudo um pouco: pintava nariz e sorriso, calçando botas largas que destacavam ainda mais seu jeito tropêço, mas não se sentia confortável assim. Não gostava de sorrisos pintados, mas sim dos que fogem dos olhos e da boca quando menos se espera; tentou ser domador de feras, armado com chicote e fúria. Denovo sua estranha habilidade de trocar as coisas atrapalhou: queria cavalgar as feras e pular entre os arcos incendiários. Seria divertido. Tentou truques mágicos de palco, mas seus olhos eram tão rápidos que sempre sabia onde estavam escondidas as cartas. Não achava justo, pra que fosse mágica ele também não poderia saber.Resolveu se despir das roupas coloridas e das botas largas. guardou o chicote e as caixas de fundo falso. Estava se tornando quem ele era...

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Senhor Pés-trocados. [Parte I]

Pés-trocados era um desajeitado.
Toda sua infância andava pisando desengonçado pelo caminho. Entre tropeços e aterrisagens forçadas, caía. Foi seu estranho jeito de andar quem lhe rendeu esse nome.
Estranhava a forma como os outros caminhavam reto, vestiam roupas coloridas e falavam tudo tão direitinho. Nunca se acostumava com aquilo.
Teve de aprender a guardar suas cores e disfarçar aquela forma peculiar de andar.
De tanto caminhar pelo mundo reto, quase resolver acertar o passo e virar mais um caminhante-corretinho-da-rua-ao-lado. Ensaiou, ensaiou, até que "normalizou-se". Fingia andar pelo mesmo caminho, mas nunca pisava com os dois pés ao mesmo tempo.
E isso o tornava ainda mais estranho, para quem o visse com olhos do mesmo tamanho...

terça-feira, janeiro 24, 2006

Dois diálogos e uma descoberta.



[imagem: filme coffee and cigarettes]
- toma um café comigo?
-...sim. Sim.
- eu adoro a forma como as bolhas vão se acumulando nas bordas da xícara.
- Cansada.
- esse cheiro me faz pensar em manhãs felizes. Você não sente isso?
- Não. Nunca me ocorreu.
- tudo bem.. acontece... adoça pra mim?
- er.. desculpa, esqueci quantas colheres de açúcar você gosta.
..................................................................
Sentado olhando a fumaça. Dois dedos inclinados e o cigarro levemente apertado entre eles. Subia sinuosa, daquele jeito só seu: imprevisível.
Olhava...
- aonde vai?
- onde o vento me levar.
- e se isso não der onde você quer chegar?
- não é o caminho nem o destino, mas a viagem é o que importa.
E foi, subindo em seu blues-balanço. Seja lá pra onde fosse.
o.

domingo, janeiro 22, 2006

palavras e esconderijos.

Eu vivo em constantes brincadeiras de esconde-esconde.
Escondo intenções, pensamentos, palavras e sonhos.
Escondo desejos e principalmente a mim mesmo.
De tanto ME esconder, esqueço onde estou.
Esconder é um passatempo interessante. É também uma brincadeira perigosa.
Descobri que o melhor lugar para se esconder algo, é deixar bem à mostra. Ninguém lembra de procurar onde não se esconde...
Hoje quero [des]esconder Entre consoantes e vogais.
Esconder entre letras é muito eficaz, mas letras juntas em palavras, sofrem de uma espécie de síndrome reacionária de massa: em comitês declaram brados de liberdade, e terminam se corrompendo. Traem, vez ou outra.
Mas algumas delas também eu escondo separadas. A maioria das vezes escondo até de mim [ai de minha memória perfeita, que sabe bem onde essas estão].
Esconder é um bom ofício. Sou bom em esconderijos, e já que encontrei aquelas palavras, melhor ir ali, me esconder.
Ouvir James Brown faz bem pras bochechas.

Acho que vou adestrar umas palavras ainda hoje. Enfileirem-se, por favor.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Às sextas, me escondo entre os dedos de Sylvia.

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.

(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste Envelheço, porém,
e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente)



(Sylvia Plath)

segunda-feira, janeiro 16, 2006

fugiu.escapuliu./?

[....]


o.

domingo, janeiro 15, 2006

Antenas

Caminhava apressado, a fumaça ficAndo para trás, perdida.
Sob a meia luz do poste parou, olhou em volta e para cima, onde incontáveis estrelas brilhosas [tantas mais que a noite anterior], piscavam sussurrando cores. Se deu conta do que acontecia:

- Ai meu deus, contaminei o céu!

E foi denovo caminhando, amarelo-sonho, esperando o que viria daqui pra frente.
Ria consigo feito um bobo, e procurava fotos de estranhos rasgadas, para sua coleção.

quinta-feira, janeiro 12, 2006

A arte de esconder cores e adestrar asas....


Juntei as cores, uma a uma, roubadas de sonhos infantis.
Pra que os outros não teimassem em roubá-las de seu destinatário, escondi sobre uma densa camada de açúcar. Chamei de jujubas.
Pra que elas ficassem bem acomodadas, tirei um vício do bolso e pintei com cheiro de bom dia. Sentaram umas sobre as outras em uma aquarela doce.
Prometi dar um teto estrelado, pras cores não ficarem deprimidas no claustro provisório. Peguei um par de asas novinhas e fui catar estrelas. Queimei a ponta dos dedos, mas nada que um ou dois sopros sorridentes não curem.
O toque final seria uma película transparente de intenções e uma fita bonita.
Estava pronto o presente
Estava treinando uma nova mágica: fazer rodas gigantes não parecerem tão assustadoras, e devolver sonhos à alguém, pra que lembrasse como voar.
o.
....

terça-feira, janeiro 10, 2006

Dos atos e dos fatos de ontem hoje e amanha.

Ontem eu encontrei um sonho perdido, que gira em velocidade atordoante, espanta poeira sob entulhos e tem luzes coloridas. E vai me fazer encaixotar sob estrelas, algo interessante.
Ontem também eu vi algo que mexeu comigo, mas sobre essas coisas nao é bom falar.
Hoje uma pessoa me falou algo que engravidou minha imaginação, e ela nem imagina que fez isso. Trabalhei o dia inteiro com a minha cabeça ovulando. Está verde, mas tirando jujuba [sim, vermelhas também são das favoritas, eu sei.], verde nao é uma cor pra pensar. Maduro é bom.
Hoje também eu tive uma idéia que talvez se concretize, e muita coisa irá mudar, mas outra pessoa me avisou pra não contar sobre meus planos, e só duas pessoas sabem disso. E essas duas pessoas já bastam, já que a aprovação delas é fundamental.
Hoje eu também acordei gripado, e vou dormir com febre. mas provelmente quando eu for dormir já será amanha, então essa é uma boa transição para falar de amanhã.
Amanhã finalmente eu terei uma folga, e pretendo colocar ordem nas coisas.
Amanhã alguém vai embora [é a segunda vez em um mês que o cinza me rouba pessoas, e por isso aquele lugar não terá meu perdão]. E eu vou morrer de saudades dele.
Amanhã alguém terá uma entrevista, e eu torço muito pra que tudo dê certo, afinal ela merece.
E depois de amanhã é talvez chova, talvez não, mas com certeza as cores irão querer sair pra brincar.

domingo, janeiro 08, 2006

NOTICIAS DO MUNDO DOS SONHOS

Carta aos ilustres visitantes da terra dos sonhos...
Sonhar é um ofício um tanto cansativo às vezes, mas apesar do fogo cerrado e do avanço do inimigo pelas trincheiras, resistimos.
Eles estao jogando pra valer agora, enviaram pesadelos de classe 4 sob fumaça verde e palavras desconfortantes. Perdemos muitos na ultima noite, durante uma chuva de inconsistentes amanhãs. Foi horrível, acreditem.
O ano novo foi ameno, o inimigo resolver dar folga. Reunimos nosso melhor batalhao, ingerimos atordoantes gelados e dançamos em nuvens baixinhas, pra não nos arriscarmos muito.
Entre amigos de batalha, sonhadores incertos, clubes de 5 (um batalhão especial, o melhor da força), fizemos festa até as novas horas de novos tempos surgirem. Assistir números se transformarem é agradável, principalmete se os canhões miram para o alto, por um tempo.
Mas a guerra continua. O exército de anti-sonhadores avança sobre o chão abalado da terra sem sol. Enquanto nos atiram razões e conceitos, devolvemos jujubas e delírios. Disparamos estrelas.
Novos campos vêm para novas batalhas. Será um ano de guerras. Muitos sonhos já morreram, mas estamos nos esforçando, sonhando todos os dias para fortalecer as linhas. Fizemos e faremos nossa parte.
Entre disparos e pipocos, realçamos as cores e estrelamos melodias. Fogo-cerrado.
Nosso exército não perde os sonhos nem a esperança quanto à vitória, mas são tempos difíceis para os sonhadores.