domingo, setembro 17, 2006

Os amores de Teresa - Parte I

"De pedaços de sonhos flutuantes, cores subversivas, estrelas açucaradas e outros amores, foi feita Teresa."

Primeira parte do conto os "Teresa e seus amores", segundo colocado do concurso Contos de Teresina, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

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Teresa e seus Amores - Parte I de IV


“Os vaga-lumes contam que havia uma terra onde o Sol ardia com gosto. Seu toque, pintava de dourado o que lá vivia. Era tão quente que chegava a derreter sonhos. Mas nessa terra, onde o sol escondia seu sorriso, morava a Noite, e ela era linda...
A Noite era uma negra formosa, que usava um vestido enfeitado de estrelas e trazia o mistério em seus cabelos.
Em um dia nublado, a Noite festejava com a chuva e mal percebia seus encantos roubando a atenção do zangado Corisco, tal qual ele roubava a sua com o fogo azul e sua voz trovejante. Eles se entregaram um ao outro de um jeito mágico, e ainda hoje se fala daquele dia: nunca na terra se viu tantos coriscos pintarem o céu em estrondoso zigue-zague.
Dessa união nasceu Teresa. De sua mãe herdou os cabelos, negros de uma forma ímpar. Do pai, a voz de trovão que a todos silenciava quando proferia um murmúrio que fosse.”

- Mamãedinha, ela também se chamava Teresa?
Questionou a menina com vestido de chita e olhos de cajú.
- Sim, querida! E a história dela talvez seja a sua, contada de um outro jeito. Agora fique quietinha e escute a vovó contar o resto da história.
Riu a velha senhora, pitando seu cachimbo.

“Naquele tempo os homens-de-pena e criaturas fantásticas ainda andavam entre os homens comuns, antes de chegarem as crenças e obrigarem a mágica à migrar pro mundo dos contos e da imaginação.
Teresa cresceu entre os dois mundos, pois era filha de duas criaturas mágicas, mas fora gerada na terra dos acordados. Caminhava livre entre o real e o fantástico, e adorava brincar com ambos...
Numa de suas andanças conheceu Poty, o veloz. Poty era de linhagem nobre entre os homens-de-pena, filho do vento-águia com o índio curioso que soltara a noite de sua prisão no caroço da tucumã. Dizem que a noite deu à todos dessa linhagem o direito de virar estrela ao morrer e morar em seu céu negro, em agradecimento ao índio que a libertou de seu cativeiro.
Poty e Teresa apenas se olharam naquele dia, mas já foi o bastante para que a Noite nos olhos dela roubassem – era um dom da Noite roubar com seus encantos - o coração de Poty e a rapidez com que ele corria em volta dela se esgueirando, a fizesse tremer de uma forma estranha. Naquele dia os dois fugiram, com medo um do outro. E Teresa se apaixonou pela primeira vez...
Ela voltou pra casa arfante, subiu à janela de seu quarto e olhou a Noite, sua mãe, encantada com aquele ser dourado. Sua avó, uma velha faceira de um peito só a ensinara a enrolar cigarro e brincar com a fumaça. “Boitatá-boitatá”, ela chamava. E da fumaça azulada surgia seu amigo dançarino do vento, feito de fumaça e vício. “ -Uma boa e silenciosa companhia”, pensava ela.”

- A avó dela tinha um peito só... e ela um amigo feito de fumaça.
Pensava Teresa absorta, enquanto sua avó acendia uma vez mais o cachimbo.
- Minha pequenina de olhos de cajú, há muito mais escondido na frente dos olhos do que a mente pode lembrar... se você souber procurar, vai descobrir personagens incríveis escondidos em cada cantinho da sua vida.

“ Teresa olhava a fumaça lembrando de Poty. Via os casais andando em cortejo, sentados no banco da praça, a bandinha no coreto e as senhoras saindo do Theatro-de-setembro. O som de sapatos estalando na calçada desviou sua atenção. Era aquela moça triste de quintas-feiras, cantarolando penosa. Ela parou embaixo da janela de Teresa, esticou –se toda e ficou tão alta que poderia fazer nuvens com a fumaça de seu cigarro, se ele estivesse aceso.
- Boa noite, menina-mulher que sonha na janela. Esse sorriso não mente e teu peito virgem bate tão alto e rápido que eu poderia ouvir do meio de um sarau. Diz, que infeliz te deu sonhos de presente e esse ar gracioso dos que amam?
- Mulher triste, andas com a cabeça tão alta, com os olhos escondidos atrás de lágrimas e ainda assim vê meu tormento indeciso...
- Menina, não me engana! O amor consome seu tempo e o tormento em seus olhos só perde pro tremor em suas pernas. Não há de esconder de ninguém. Mas diz, quem é esse que te faz encher o sereno com suspiros?
- Um filho do vento. Ele corria entre as árvores e agora dança no meu sorriso.
E ria boba, sem perceber que a cada minuto se perdia mais em amores por Poty.
A mulher alta como o céu se esgueirou mais e acendeu o cigarro na brasa de Teresa, sem perder a formosura esguia. Desatou então a chorar: - toma cuidado, pequenina. Desse mal de apaixonada eu sei bem, e mesmo que tu ofereças o coração em uma bandeja de girassóis, ainda assim te arrancam ele sem dó. Num se pode ter felicidade. Num se pode ter amor correspondido. Num-se-pode, num-se-pode... num-se-pode...
E saiu a repetir, caminhando chorosa pela rua. E Teresa ficara então ainda mais confusa.”

- A mulher era triste por que amava, mamãedinha?
- Não. Ela era triste porque não era amada.



[continua]

4 comentários:

aris disse...

eu quero pedir pra passarem o filme la no ceut.
eu vou conseguir, eu vou!
;P
beijinhossss

aris disse...

aaaaaah. que monga!
parabéns!!!!!! vou esperar pelas outras partes. :)
abraçooo...

bell disse...

sai do orkut e vim direto pra cá.
bjs.

Valéria disse...

saboreando...
beijo em tus