Aquela música de uma cantora negra de voz grave, era um perfeito complemento à um fim de noite, tal qual as piores histórias, que terminam em um bar desse tipo e em um Blues.
O homem bêbado, sentado ao lado do balcão com uma garrafa quase vazia de whisky vagabundo, olhava a fumaça azulada subindo devagar. Ela escrevia diante daqueles olhos semi-cerrados, a história dos sonhos de um ex-idiota que sofria de um acentuado problema de memória.
A camisa com os botões superiores abertos e a gravata desajeitada davam um ar tragicômico àquela figura, e as nada sutis manchas no colarinho eram um ótimo aviso de "mantenha distância".
O cinzeiro cheio, deixava escorrer a pilha de baganas com filtro avermelhado, espalhando cinzas pelo balcão de cerejeira. Ele era como sua boca amaldiçoada, que sempre deixava escorrer pedaços de histórias possíveis e desejos de sua alma. Seu pior inimigo vivia atrás das lentes raladas de seu óculos [que talvez dessem uma disforme imagem agradavelmente melhor aos seus olhos que se não os usasse], e a arma mais perigosa contra si próprio era aquele degenerado músculo-dos-sabores que vivia sob o céu da boca: o inferno da língua.
Cada nota daquele Blues amargo, parecia conhecer o caminho correto entre seus tímpanos e seu orgulho. Atingiam em cheio e sadicamente todos os ontens que vivera.
As cascas de amendoins do lado esquerdo eram uma das poucas companhias suportáveis, pelo simples fato de sempre saber o que esperar quando cantasse aquele estalo entre os dedos, fazendo a casca se rompr. Quisera esperar o mesmo quando tivesse entre as perguntas, um estalo menos interrogativo, ou surpresas menos desagradáveis.
Fuçou entre os bolsos do paletó e retirou os últimos trocados. Cédulas de dias suados, que sempre lhe serviam bem na persistente tentativa de esquecer seu nome, quando afogava a língua no amargo e fedorento malte escocês vagabundo, cujas cores do Kilt nao enganavam a procedência da cidade vizinha. Catou o que sobrou dos cigarros amassados, e as histórias que contava a si proprio todos os dias e guardou no bolso, junto do relógio, do orgulho e do prazer de dois minutos.
Sentir-se ridículo era o sinal para ir embora cambaleando, deixando o rastro de amargura que parava vez ou outra pra catar.
Dormiria, até que viesse outra noite de bar, blues e memórias.