sábado, abril 14, 2007

INVASÕES BÁRBARAS


Esperou lá fora até a luz apagar e dois instantes mais. Sorrateiramente chegou à janela e adentrou o quarto tão silencioso quanto um sonho manso. Pé-ante-pé, foi ao guarda-roupas, abriu e encontrou o que procurava: a caixinha de sapatos onde ela guardava seu diário. Compulsivamente começou a apagar todas as páginas borradas de lágrimas-de-sábado. Tudo!
Retirou do bolso um pacote cheio de giz de cera e encheu com desenhos infantis as amareladas páginas e devolveu tudo ao seu lugar.
Saiu pela janela como um garoto travesso, com um sorriso exagerado de satisfação: Queria que ela guardasse na memória só as melhores lembranças.
[Dar boas histórias de presente era um passatempo que lhe fazia sorrir feliz.]

quinta-feira, fevereiro 01, 2007

TODOS DANÇAM NUS NO ELEVADOR DO CAOS

[Da Série Terrorismo Poético - Primeiro Ato]


Um velho mendigo, sujo, barbado e bêbado, trajando um vestido longo vermelho daquela famosa marca. Novo, impecávelmente novo. Dança loucamente no meio da avenida na hora do Rush.

O garotinho de cachos loiros e lindos olhos verdes no ápice de seus 9 anos de idade sobe no telhado de casa e se masturba à vista de todos enquanto brada com uma risada insana: “-Deus não passa de um velho safado!!!”.

Deitado no altar, chora o padre gordo usando uma coroa de espinhos e um ensanguentado manto vermelho do mesmo tom de sua Lingerie, abraçando a imagem da Virgem Maria. Em sua cinta-liga, farelos de hóstias e amassada dentro do cálice de ouro a homilia do dia; “queria morder tua carne ainda no corpo e sentir o sangue quente escorrer na boca, Senhor”.

A velhinha assiste à novela das 8 com um sorriso efêmero enquanto acaricia a cabeça do Rotweiller de seu neto que repousa entre suas coxas. Ele lhe retribui lambendo indecorosamente suas partes.

Todos aqueles carros com um único cartaz no pára-brisas: Logo abaixo da foto de um colorido girassol e em letras garrafais: BEBEZINHOS NATIMORTOS SÃO BENVINDOS À COZINHA DO NHECDONALD´S.

Um casal de idosos saindo do elevador. Ele sentindo-se um Jim Morrison da terceira idade, cantarola Wild Child; ela traz na mão uma versão moderna do Kama-Sutra e na virilha a tatuagem do coelhinho da Playboy . Ambos trajando nada mais que óculos de praia.

Todos dançam nus no elevador do Caos. A promessa do êxtase provocativo é como um pequeno Cocktail Molotov Poético: causa a fagulha explosiva do Terrorismo Romântico.

domingo, janeiro 28, 2007

NOITES DE SÁBADO

“Colocava o cinto e ligava o carro vagarosamente. Apertava o play [sempre tinha suas trilhas sonoras especiais à mão]; conferia o cabelo e a maquiagem no espelho [tinha um jeitinho de colocar o cabelo ligeiramente sobre o olho...]. Nem mesmo três quarteirões adiante, já estava com o esguicho sobre o pára-brisas. Era louca por aquela sensação de dirigir na chuva...”
[todas as chuvas são suas, das tormentas que derrubam a casa aos chuviscos que descem incertos pelo lado. Amo...]

sexta-feira, janeiro 05, 2007

DESASTRONIRONAUTA PULULANTE

O desastronauta perpétuo, desastrado andarilho do mundo imaginário, levara esse tempo perambulando suas [ir]realidades, fuçando letras passadas e imaginações semi-esquecidas. Sonhando...
Era de fato estranho seu relacionamento com os números em giro do relógio, e tornava-se um tanto imprevisível em suas aparições e sumiços: fazia vezes de Coelho Atrasado e Gato de Cheshire, aparecendo em partes, correndo e desaparecendo em todo sem deixar de estar ali mesmo.
Na favorita data, desamarrou laços de fita colorida, entregou caixas, sorriu, chorou, pulou e, como o faz reticentemente, sonhou. Esteve onde devia estar e continua...
Nos seis que teimam em virar sete trezentas e sessenta e tantas vezes, recolheu-se com sua amada boneca de olhar interrogativo e borbulhou inebriantes fogos coloridos na ponta da língua.
Agora era a vez de fazer os dormentes projetinhos pululantes saírem da gaveta um a um e começarem a fazer bagunça. Tinha um calendário novinho em folha pra transformar suas desconstruções em um desfile para olhos tantos quantos resolvessem assim passear.
Da terra inclinada do avesso do espelho, restam coisas por demais a contar, em um outro passeio assim corrido, pois "- é tarde! é tarde!! é tarde!!!"...

sábado, dezembro 23, 2006

Pela chaminé empoirada, descem presentes coloridos. Amanhã tem Post de Natal...

ps: eu definitivamente AMO o natal...

domingo, dezembro 03, 2006

O MÁGICO AMARELO

O mágico amarelo era um daqueles mistérios estranhos que surgem na cabeça durante uma cochilada na cadeira e ficam na memória.
Ele transformava letras soltas em versos sorridentes com um simples gesto. De sua cartola cartola brilhante saíam estranhas criaturas: borbolefantes, interrogrilos, crocodilírios, tamanduárvores e outros tantos...
De suas mangas compridas voavam estrelas, e dos dedos pipocos coloridos. Mini fogos-de-artifício...
Nas cartas de baralho, aqueles leques bem distribuídos de possibilidades, entre ases vermelhos e negros, sempre surgia uma foto velha de um tempo remoto que só o espectador via, e só faria isso por uma pequena fração de segundo, o bastante pra fazer aparecer num passe de mágica um turbilhão de memórias...
Mas o mágico era estranho. Transformava coelhos em anões de jardim com compulsiva vontade de conhecer o mundo; e esboços de um dia cinzento em olhinhos apertados e bochechas contraídas.
Um dia resolveu, só por curiosidade, usar o truque do desaparecimento. Apontou para si a varinha e um clarão esfumaçado tomou o palco.
Abracadabra...

segunda-feira, outubro 30, 2006

SOBRE DOMINGO, 29 DE OUTUBRO E AS ESCOLHAS

"L'art est mort. Ne consommez pas son cadavre!"
[A arte morreu. Não consumam o seu cadáver!]

Cada povo tem o govenante que merece. Que venha o fogo e consuma o pouco que restou.

[Cartaz e frase: França, Maio de 68]

segunda-feira, outubro 16, 2006

LADO A

Recompôs-se, tratando de esconder a surpresa mas traído pelo rubor das faces. Olhou o relógio e constatou que mal passaram 30 segundos desde a última olhada. Colocou-se de pernas cruzadas elegantemente uma vez mais e tentou pensar sobre outras coisas, enquanto esperava o doce calafrio fugir de suas carnes.
Às vezes os sonhos escorregam pela nuca e dão aquele arrepio gostoso que faz a boca encher de saliva e as mãos se apertarem. Tinha aquela incoerente mania de perder-se em possibilidades tocadas no gramophone de sua imaginação.

sábado, outubro 14, 2006

SOPA DE LETRAS

Arremedo em escritas as palavras em digestão.
Embaralhando a língua nas estrelas apagadas do céu da boca, cravo os dentes naqueles versos nunca ditos por esses lábios desertores.
Não sairão! Não sairão!
Engulo em seco, empurrando goela-abaixo pronomes pessoais e reticências. O faria a noite inteira, não fosse essa interrogação engasgada na garganta...
Sufocado, entalado, vomito verborrágico a sopa de letras mal-digeridas daquele jantar. Antes tivesse me alimentado da chama das velas que desenhavam a penumbra. Queimaria menos, a gastrite que essa palavras gordas, saturadas de ambigüidade e entonação duvidosa me causam...
É o castigo por essa fome desgraçada de palavras enfileiradas, frases e versos. Me torno um bulímico devorador de letras infames.
......................
[Sr. Pan, crie vergonha e ajeite meu template. tenho saudade dos meus links. hunf.]

sábado, outubro 07, 2006

Cores cores.

Aquele universo de cores que perambulavam à sua volta, trazia uma interrogação em cada. Cores sorridentes, cores afoitas , cores compulsivas, cores exóticas, cores da madrugada, cores sumidas, cores incertas...
Aquarelecia em suspiros longos e lágrimas escondidas. Era um tal de "pinte-se tudo" e "espalhe tons"... transtornava olhos desprovidos de cor com suas aberrantes ilustrações e só, já que por mais que tentassem, cores nao iriam ver.
Pincéis em forma de letras eram o instrumento, e imaginações, suas telas favoritas. Fugia do impressionismo com doses de surrealismo torto e cartum. Desenhava fora das linhas e pintava até as molduras. Cores subversivas que repousavam em delicados traços fugidos de um delírio.
Praticava dança de salão com aqueles azuis mais guardados e rumba com os vermelhos. Tcha-tcha-tchá com as mais animadas.
Cores perambulam sempre e vão pelo caminho que escolhem...
Latas de tinta esparramada em forma de sorrisos de sábados saudosos...

domingo, outubro 01, 2006

Teresa e seus amores - Parte Final

Enfim, a última parte de Teresa. Aos que tiveram paciência de regar os olhos com a doce cajuína, agradecimentos enviados do lado de cá.
[à doce boneca de olhos interrogativos e beijos açucarados]

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Teresa então arregalou os olhos. Só então se apercebia de quem era ele e do que havia lhe pedido.
O índio sacudiu suas quatro asas poderosas, retirou da tanga a faca feita com o grito da mãe do pescador Crispim. Ela brilhava como a lua.
- Teresa, Teresina minha amada, eu arrancaria do bucho do céu todo o azul, se tu me pedisse. Mataria de novo o boi-estrela, de quem Nêga Catirina devorou a língua, e até gritaria mais alto que a voz-trovão de teu pai, se tu assim me pedisse.
- Tua mãe deu de presente aos de minha linhagem uma moradia em seu vestido. Por que iria eu negar-te uma estrela, se é isso que me pedes como prova de amor?

Poty cravou fundo a faca no peito. Do talho escorriam sonhos e cores. A cor do vermelho-único do urucum.
Teresa desesperava-se, enquanto Poty se desmanchava em sangue.
- O que você fez ???
Tentava falar enquanto o soluço roubava sua voz e as lágrimas lhe escorriam dos olhos.
Poty sorria.
- Minha doce Teresa, meu sangue vermelho pinta o agora, mas meu brilho-estrela escreverá na noite dos dias-amanhã o teu nome e o meu. Aqui parto pra cumprir minha promessa. Meus pés velozes não mais tocarão essa terra, mas se teus olhos me beijarem no céu todas as noites, irei brilhar tua cor e ser estrela de um só dono, até que teus pés miúdos também larguem esse chão cinza e voltes pro útero da noite, onde te espero. Não demore, minha amada, ansioso parto pra te brilhar noites a fio, esperando o beijo doce de teus lábios de mulher com jeito de menina.

- Leva em teu vôo meu olhar, meus beijos e minha alma, doce e louco Poty. Hei de todos os dias cantar ao vento esperando tu chegar na noite, e quando te vir minha voz cantará o silêncio, até que minha mãe se compadeça de meu sofrimento e me dê casa em ti, minha estrela amada.

E Poty subiu.
De suas asas poderosas saiam tornados. Em seu sangue vermelho único faiscavam gotas cintilantes. Num pipoco estridente, saíram cores histéricas e músicas atordoantes. O índio subia alto e aos poucos era menos gente e mais sonho. No meio da noite negra, nascia uma nova estrela. Brilhava verde no céu, enquanto as outras eram azuis ou vermelhas. Aquele era o tom de verde da cidade-mulher, sua amada.
E foi assim que nasceu a estrela de cor única, feita de sonho de um amor separado e imaginação ”

- Poty morreu, vovó?
- Não, minha querida. Ele virou uma estrela.
- Por causa do presente da noite ao índio curioso, né?
- Sim... e porque sua Teresa amava estrelas, e queria uma só dela.
- E o que aconteceu com Teresa?

“Teresa sentou e chorou. Passaram-se dias sem que ela saísse dali ou desviasse o olhar perdido do céu. Foram tantas as lágrimas que escorreram de seus olhos brilhantes que ali nasceu um rio. Um rio de forte correnteza, que desliza por toda aquela terra imaginária, onde os seres feitos de mágica iam festejar em tempos remotos.
O rio de lagrimas de Teresa, gotas tristes de saudade, carregava a felicidade das lembranças, o tesouro dos sorrisos e as borboletas imaginárias que nascem no meio da barriga em dias felizes, tudo encharcado pela dor das despedidas.
Por onde cruza o rio de Teresa, que hoje chamam de Poty, nascem girassóis insanos e outras flores subversivas, de cor apaixonada e saudade pintada em melodia.”

- Teresa chorou um rio inteiro. É muito amor em uma pessoa só, mamãedinha.
A velha repousou o cachimbo sobre o vestido desbotado, e com um sorriso brincou apertando o nariz de Teresa:
- Um dia seu coraçãozinho também vai crescer, querida. Vai se encher tanto de amor por alguém, que vai vazar pra alma, subir pros lábios em forma de sorrisos bobos e pros olhos em um olhar perdido, e depois escorrer pras pernas, onde vai virar aquela tremedeira incerta.
Teresa riu marota, apoiando o queixo nas mãos e querendo pra si um amor que causasse tanto rebuliço.
- Teresa não teve filhos, vovó?

“Teresa ainda espera o dia de ir morar com seu amado. Às vezes chora de novo por seu índio, fazendo subir as águas do rio. Há quem diga que ela chorou outro rio por um tal Monge Parnahyba que morreu salvando-a do tenebroso Crispim-pescador, que de tanto guardar maldade nas idéias, ganhou uma cabeça inchada como uma cuia. Mas isso é só fuxico sem rumo daquela cidade esverdeada.
Quando chega setembro e os outros meses de perto, o calor da saudade consome Teresa. É um B-r-o-bró de desejos. Nessa época, a noite tem pena de sua filha, e usa aquele vestido enfeitado e brilhante, pra matar parte da saudade que Teresa tem de beijar seu índio-estela amado. Ele pega carona no corisco e escapole pra dentro de Teresa, nadando no reflexo do rio, até que chegue o dia dos dois terem um só riso-poema, no toque de beijos apaixonados.
Ela, que tem o dom de transformar tudo o que toca, danou-se a parir arte, música e poesia na forma de filhos talentosos. Eles são gerados na imaginação e paridos do bucho do Piau, e se espalham por todo canto. Dizem que eles são parte do plano de sua mãe de misturar de novo os mundos, pra que a mágica saia das lembranças e volte pro mundo dos homens.”

Teresa dormia com um sorriso nos lábios. Sonhava com amores incríveis, homens-estrela e cajuína. Sonhava com o mundo como ele era antes dos homens inventarem a tal realidade. Sua avó acendia o cachimbo uma vez mais, e daquela brasa diferente subiam formas encantadas desenhadas pela fumaça. Ela, que também era filha da imaginação, se perdia em lembranças da adolescência, quando os que hoje são personagens de histórias eram seus amigos de roda. Tempo em que os olhos sabiam ver e todas as maravilhas da realidade fantástica viviam suas aventuras. Bons tempos que hoje são histórias, contos e lendas.
Deu uma longa tragada no cachimbo.
- são histórias, e devem ser contadas, pois enquanto alguém se lembrar elas não terão Fim...

sexta-feira, setembro 22, 2006

Teresa e seus amores - Parte III

Conforme anunciado anteriormente, Teresa será publicada aqui em 4 partes. Essa é a penúltima...
[o sorriso interrogativo foi passear em horas longas, mas quando estiver de volta os olhos desiguais ainda estarão aqui. Sempre... Amo. Amo...]

.........................................

[continuação]


“Os dois dançavam e cantavam. Teresa, que havia aprendido também o dom do vento, misturava-se ao homem-pássaro-brisa. Poty, que fora tocado por Teresa, cantava em assovio entre as folhas de um jeito encantado, como nunca havia feito antes.
Dançaram, até cansar e cair no chão de fim de tarde. Um formigueiro de sorrisos fugia dos dois.
- Tenho sede. -disse ela, enxugando o rosto com as mãos.
O índio passou a mão nos lábios de Teresa e do açúcar que lhes escorria, moldou uma taça rústica. Entregou a ela. Estendeu as mãos abertas ao cajueiro d`ouro e este lhe deu os três cajus mas bem feitos de suas galhas. Poty espremeu os frutos entre os dedos, fazendo escorrer um suco cristalino para dentro da taça. Afastou-se um pouco e sem tirar os olhos de Teresa, sussurrou algo à bebida, que em um redemoinho borbulhante tornou-se da cor do bronze. Com um sorriso entregou à Teresa.
- O que você fez?
- Contei um segredo a ele. Em troca, ele virou cajuína. Virou um espelho da cor dos seus olhos.
Ela experimentou a bebida e se deliciou.
- Um presente pra você.
Ele riu, todo convencido. Os dois ficaram até o sol ir sonhar e a noite aparecer, olhando pra eles misteriosa.
Estrelas pipocavam no céu. Há tempos a noite não usava aquele vestido de festa.
- São lindas, não são? As estrelas... - falou Teresa, parecendo uma criança. Deu uma risada longa, fechando os olhos. Sonhadora.
- Tenho vontade de tocá-las, mordê-las... Ter uma delas só pra mim.
O índio riu ao lembrar de quem eram algumas daquelas estrelas.
- Quero um presente de você. - falou o filho do vento.
- Um presente... - repetiu ela como se já soubesse o que viria.
- O que quer de mim, veloz Poty, filho do vento-águia com o índio curioso?
- Quero seu poema mais doce recitado com o sorriso mais belo e entregue em um beijo duas vezes infinito.
Respirou fundo.
-... pedes um tesouro sem preço e que já é teu, belo Poty. Desde sempre.
Ele se agitava.
- Mas não vou te entregar assim. Ouça-me bem, filho do vento do norte. Já me ensinaste os segredos da mata, a magia do vento e a sussurrar encantos para a cajuína. Tudo isso são cores a mais pro sonho... Da primeira vez que te olhei já era mais que tua. Desde antes do sorriso do sol queimar o céu e fazer nascer a noite. Já eras meu antes mesmo do açúcar fugir da boca da imaginação e se esconder no sorriso dos sonhadores. Nossa história é mais antiga que os amores, que as cores...
Quero de ti, doce índio dourado, uma estrela. Uma estrela pra selar nossa união. Uma estrela só minha pra que seja só nossa.
O índio ergueu-se. Olhava sério para Teresa.
- Nossa história já era contada no zunido das flechas rasgando o ar, no tempo dos deuses, quando os mundos estavam em guerra. Mãe Terra pariu o cajueiro, pra que de meus dedos escapulisse o suco de oferenda a você. Desde que o vento era uma sensação não-nascida, nosso amor já era contado.
- Teresa, filha da negra Noite misteriosa com o Corisco zangado e barulhento, me pedes uma prenda cara, mas eu, Poty, filho da Águia-vento do norte com o Índio curioso que soltou a noite da tucumã, tenho palavra.
Teresa então arregalou os olhos. Só então se apercebia de quem era ele e do que havia lhe pedido.
[a seguir, a última parte...]
[www.fotolog.com/cafeinaman]

terça-feira, setembro 19, 2006

Teresa e seus amores - Parte II

Do mundo dos sonhos, retorna o desconstrutor com mais um pedacinho de Teresa...
PARTE II DE IV
[continuação]
“ Teresa não conseguia esquecer aquele índio lindo, e em seu sono chamou por ele. Estava caminhando naquela chapada alta. Faceira, colhia flores. Poty a acompanhava com os olhos, se escondendo no assovio do vento das asas dos pássaros dali e no deslize das folhas. Teresa sabia que ele estava lá, mas fingia que não havia notado. Gostava de brincar daquele jeito. Uma brisa correu e mordeu sua orelha:
- vem menina da noite nos olhos. A floresta inteira esqueceu como cantar quando tu foste pra longe. - Sussurrou no ouvido dela. Saiu tão rápido quanto veio, e ela então acordou. Acordou e encontrou três penas no travesseiro: uma verde, uma amarela e uma branca.
Teresa arrumou as penas em um colar e correu em busca do vento. Entrou fundo na mata, sem medo. Na verdade adentrava do domínio de seus sonhos, que eram frondosas árvores de frutos adocicados. Embaixo do Cajueiro d´ouro sentou esperando seu amado.
O vento, sorrateiro como ele, esgueirou-se entre as folhas e sussurrou docemente:
- Sabia que você viria... -Dobrou no ar, levantando folhas.
- Minha curiosidade sempre vence meus pés...
- Belas penas ornamentam seu pescoço. -Riu o índio sentindo-se convencido.
- Surpresas que o vento traz durante os sonhos. -Brincou ela enroscando os dedos no colar.
O vento levantou folhas no ar, rodopiou e deu forma ao índio dourado com pinturas coloridas no corpo e pulseiras trançadas de penas brancas, verdes e amarelas. Ele sorria largamente.
Os olhos de Teresa brilhavam. Tinha um sorriso poético nos lábios.
Poty era da floresta como o açúcar é dos sonhos. Conhecia cada pedra, árvore criatura e som. Conduziu Teresa por caminhos que os homens acordados não conhecem. Catou para ela flores únicas, de cores variadas e cada uma delas tinha uma nota musical. Um ramalhete de cores e música, presas por duas flores de cor incerta: um bemol para dias tristes e um sustenido para dias melhores.
Poty ensinou à Teresa como se vestir de bicho, se esconder sob escamas de peixe, enxergar como o anum e a correr como a capivara. Teresa se perdia sem notar (nem resistir). Poty ensinou à Teresa como arrancar o sangue-tinta das sementes miúdas, para pintar desejos vermelhos em sua imaginação.
- Eu nunca havia visto um vermelho como esse. -disse Teresa olhando para os dedos manchados.
- Foi o desejo em pessoa que misturou tons até chegar a essa cor. Pra proteger seu tesouro, o vermelho único, o escondeu no ventre marrom do urucum-sem-graça.
Teresa esticou os dedos vermelhos e começou a desenhar no ar. Escreveu seu nome tão junto ao de Poty que não se podia dizer onde terminava um e começava o outro. O índio ficou tão maravilhado que mal percebia o vento fugindo de suas asas pra dançar com as folhas.
- Você consegue desenhar sons...
Teresa ria vitoriosa. Prendera Poty ainda mais em seus encantos.
- Desenhar sons é escrever a alma. Ensino a você.
Poty ensinou à Teresa os segredos da mata. Teresa ensinou a Poty a poesia desenhada.
Os dois sentaram sob o Cajueiro d`ouro e conversaram como se já se conhecessem desde sempre. A noite nos olhos dela roubaram o coração de Poty e os dele faziam-na tremer. Conversaram sobre a mágica no vento, verde das árvores e a tinta dos sonhos, pois aquele povo-pássaro sabia bem de sonhos...”

- Teresa fazia poemas, mamãedinha?
- Teresa por si só era um poema.
- E ensinou ele a escrever...
A garota ficou perdida com um olhar distante.
- Ensinou ele a desenhar sons, escrever a alma... Teresa tinha um dom secreto, que nem mesmo ela sabia possuir: tudo o que tocava virava arte, poesia e melodia.

“O índio-pássaro rodopiou em forma de vento ao redor da filha da noite, deslizando entre as árvores, fazendo uma doce melodia flutuante surgir. Teresa dançava fazendo seu vestido se misturar com o próprio vento. Começava a cantar...”

- Mas ela não tinha voz de trovão?
Indagou a pequenina.
- Sim. Cantava com uma voz de trovão, mas daqueles trovões de chuva calma da madrugada, que lhe embalam o sono de uma forma mágica. Faz você dormir sorrindo, se perdendo entre as cobertas.
[continua...]

domingo, setembro 17, 2006

Os amores de Teresa - Parte I

"De pedaços de sonhos flutuantes, cores subversivas, estrelas açucaradas e outros amores, foi feita Teresa."

Primeira parte do conto os "Teresa e seus amores", segundo colocado do concurso Contos de Teresina, promovido pela Fundação Cultural Monsenhor Chaves.

[www.fotolog.com/cafeinaman]

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Teresa e seus Amores - Parte I de IV


“Os vaga-lumes contam que havia uma terra onde o Sol ardia com gosto. Seu toque, pintava de dourado o que lá vivia. Era tão quente que chegava a derreter sonhos. Mas nessa terra, onde o sol escondia seu sorriso, morava a Noite, e ela era linda...
A Noite era uma negra formosa, que usava um vestido enfeitado de estrelas e trazia o mistério em seus cabelos.
Em um dia nublado, a Noite festejava com a chuva e mal percebia seus encantos roubando a atenção do zangado Corisco, tal qual ele roubava a sua com o fogo azul e sua voz trovejante. Eles se entregaram um ao outro de um jeito mágico, e ainda hoje se fala daquele dia: nunca na terra se viu tantos coriscos pintarem o céu em estrondoso zigue-zague.
Dessa união nasceu Teresa. De sua mãe herdou os cabelos, negros de uma forma ímpar. Do pai, a voz de trovão que a todos silenciava quando proferia um murmúrio que fosse.”

- Mamãedinha, ela também se chamava Teresa?
Questionou a menina com vestido de chita e olhos de cajú.
- Sim, querida! E a história dela talvez seja a sua, contada de um outro jeito. Agora fique quietinha e escute a vovó contar o resto da história.
Riu a velha senhora, pitando seu cachimbo.

“Naquele tempo os homens-de-pena e criaturas fantásticas ainda andavam entre os homens comuns, antes de chegarem as crenças e obrigarem a mágica à migrar pro mundo dos contos e da imaginação.
Teresa cresceu entre os dois mundos, pois era filha de duas criaturas mágicas, mas fora gerada na terra dos acordados. Caminhava livre entre o real e o fantástico, e adorava brincar com ambos...
Numa de suas andanças conheceu Poty, o veloz. Poty era de linhagem nobre entre os homens-de-pena, filho do vento-águia com o índio curioso que soltara a noite de sua prisão no caroço da tucumã. Dizem que a noite deu à todos dessa linhagem o direito de virar estrela ao morrer e morar em seu céu negro, em agradecimento ao índio que a libertou de seu cativeiro.
Poty e Teresa apenas se olharam naquele dia, mas já foi o bastante para que a Noite nos olhos dela roubassem – era um dom da Noite roubar com seus encantos - o coração de Poty e a rapidez com que ele corria em volta dela se esgueirando, a fizesse tremer de uma forma estranha. Naquele dia os dois fugiram, com medo um do outro. E Teresa se apaixonou pela primeira vez...
Ela voltou pra casa arfante, subiu à janela de seu quarto e olhou a Noite, sua mãe, encantada com aquele ser dourado. Sua avó, uma velha faceira de um peito só a ensinara a enrolar cigarro e brincar com a fumaça. “Boitatá-boitatá”, ela chamava. E da fumaça azulada surgia seu amigo dançarino do vento, feito de fumaça e vício. “ -Uma boa e silenciosa companhia”, pensava ela.”

- A avó dela tinha um peito só... e ela um amigo feito de fumaça.
Pensava Teresa absorta, enquanto sua avó acendia uma vez mais o cachimbo.
- Minha pequenina de olhos de cajú, há muito mais escondido na frente dos olhos do que a mente pode lembrar... se você souber procurar, vai descobrir personagens incríveis escondidos em cada cantinho da sua vida.

“ Teresa olhava a fumaça lembrando de Poty. Via os casais andando em cortejo, sentados no banco da praça, a bandinha no coreto e as senhoras saindo do Theatro-de-setembro. O som de sapatos estalando na calçada desviou sua atenção. Era aquela moça triste de quintas-feiras, cantarolando penosa. Ela parou embaixo da janela de Teresa, esticou –se toda e ficou tão alta que poderia fazer nuvens com a fumaça de seu cigarro, se ele estivesse aceso.
- Boa noite, menina-mulher que sonha na janela. Esse sorriso não mente e teu peito virgem bate tão alto e rápido que eu poderia ouvir do meio de um sarau. Diz, que infeliz te deu sonhos de presente e esse ar gracioso dos que amam?
- Mulher triste, andas com a cabeça tão alta, com os olhos escondidos atrás de lágrimas e ainda assim vê meu tormento indeciso...
- Menina, não me engana! O amor consome seu tempo e o tormento em seus olhos só perde pro tremor em suas pernas. Não há de esconder de ninguém. Mas diz, quem é esse que te faz encher o sereno com suspiros?
- Um filho do vento. Ele corria entre as árvores e agora dança no meu sorriso.
E ria boba, sem perceber que a cada minuto se perdia mais em amores por Poty.
A mulher alta como o céu se esgueirou mais e acendeu o cigarro na brasa de Teresa, sem perder a formosura esguia. Desatou então a chorar: - toma cuidado, pequenina. Desse mal de apaixonada eu sei bem, e mesmo que tu ofereças o coração em uma bandeja de girassóis, ainda assim te arrancam ele sem dó. Num se pode ter felicidade. Num se pode ter amor correspondido. Num-se-pode, num-se-pode... num-se-pode...
E saiu a repetir, caminhando chorosa pela rua. E Teresa ficara então ainda mais confusa.”

- A mulher era triste por que amava, mamãedinha?
- Não. Ela era triste porque não era amada.



[continua]

sábado, setembro 16, 2006

PRELÚDIO À TERESA

Antes de começar a contar sobre Teresa, resolvi publicar um mini-glossário, para aqueles olhos que não são do Piauí não ficarem perdidos, já que o regionalismo predomina.


...



REFERÊNCIAS.

*Teresina tem esse nome por ser uma homenagem à filha do imperador Pedro: Teresa Cristina [teresa+ cristina= Teresina]
*A cidade tem um céu negro diferente, e em suas noites estreladas, parece juntar todas elas pra mostrar em uma noite só.
*É uma das cidades com o maior índice de relâmpagos da America do Sul. Aqui sao chamados de coriscos, que é também umdos nomes da região: Chapada do Corisco.
* Boitatá é uma lenda. Um bicho feito de fumaça, uma espécie de minhoca gigante em forma de fumaça.
*Theatro 4 de setembro, é o nome do primeiro teatro da cidade.
*Teresina é ladeada por dois rios: poty e parnaiba.
* A mulher que se estica é "num-se-pode". uma lenda local, de uma mulher chorosa que se esticava pra acender o cigarro nos antigos postes à gás.
* Cajú é uma das frutas mais comuns da cidade e cajuína é uma espécie de suco concentrado dele. Bebida típica tradicional que tem uma cor de bronze.
*verde, amarelo e branco são as cores da bandeira do Piauí.
* Anum e capivara são animais comuns da região.
* Urucum é a semente de onde se extrai o corante ou colorau.
* O pescador crispim, é conhecido como cabeça-de-cuia, a mais tradicional lenda do Piauí. Um pescador que matou a mãe com golpes de um corredor de boi, e agora assombra as aguas dos rios Poty e Parnaiba.
* Nega Catirina é a mulher que pede a morte do boi, na lenda do bumba-meu-boi.
* "esse seu jeito de mulher com jeito de menina." é um pedaço da letra da musica Teresina, do maestro Aurélio Melo e José Rodrigues.

* Teresina é conhecida como a "cidade verde".
* Parnaiba e Poty, São os rios que cercam Teresina. Parnaiba é conhecido como "o velho monge".
* Nos meses de setembro à dezembro ( os terminados em BRO), a temperatura da cidade sobe de maneira infernal, beirando os 45 graus. Essa época é conhecida como "b-r-o-bró".
* Piau é o nome do peixe abundante no Poty e Parnaiba, que deu nome ao estado.
* a velha cachimbeira, e a velha do peito só, são outras duas lendas locais.

Reabertura desconstruída

Depois de um retiro obrigatório no casulo imaginário, o adestrador de cores e equilibrista de desconstruções reabre as portas do castelo dos sonhos à todos os visitantes.
Devido à mudanças inadiáveis no mundo real, as timidas letras passaram muito tempo sem ser enfileiradas, mas agora retornam com todo o furor e imprevisibilidade que só as palavras tem.
Aos que tiverem paciência de conhecer Teresa, publicarei a partir de hoje o conto em 4 partes.
Sonhe e lembre como voar.
[à minha boneca boneca que devorou mais quatro estações, todas as estrelas açucaradas. amo.amo...]

terça-feira, agosto 15, 2006

O HOMEM QUE ESTAVA LÁ

Ele sempre esteve lá. Havia partido alguns anos antes, mas apesar da longa viagem que resolveu fazer, sempre permaneceu ali perto.
De todas aquelas situações em que deveria, estava lá sentado, olhando com aquele meio-sorriso e as fortes rugas de expressão na testa franzida.
Quando a primeira vez, fui correndo contar, com aquele brilho no olhar de adolescente descobrindo o mundo. No primeiro cigarro, mesmo com um certo descontentamento, surgia do meio da fumaça azulada (como poderia reprimir, sende ele mesmo um habitante daquele mundo-que-se esvai?). Aquelas madrugadas insônia, quando as páginas decoravam os olhos, estava lá com aquele olhar severo e suas frases peculiares de "-é inadmissível". Quando a dança das palavras deu resultado e os cabelos viraram farra no chão, deu aquele abraço firme, como um urso gigante. E todas as lágrimas também foram divididas.
Em todas as decisões, das mais banais às revoluções, sempre ouvia e dava sua opinião em nossos diálogos imaginários.
Sempre soube o que dizer, ficando em silêncio.
Tudo poderia ter sido bem diferente. Sempre pode ser, mas o fato de você ter ido patrulhar em outras rodovias não o tornou ausente. Nunca tornará. Sempre vai estar ali com aquela expressão incerta, sorriso apertado e olhos miúdos vermelhos. Gotinhas de suor na testa...
O cheiro de rosas sempre me deixa triste, carrinhos em miniatura me fazem pensar em "rally na barriga" e fardas caqui me lembram sorrisos. Não há um dia em que passe sem visita sua.
Super-heróis Nunca morrem.
[post de dia dos pais em atraso.]

domingo, agosto 06, 2006


"Tranquilamente acendeu um cigarro, abriu a porta e saiu correndo na chuva, gritando como se o mundo fosse explodir. Deixou tudo atrás de si, chaves, pasta de trabalho, cartões de crédito e vida pública.
Às vezes perder o controle era providencial para manter a sanidade."

[imagem: google+photoshop+vontade de gritar]

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"Foi buscar aquele potinho bem guardado, escondido entre as camisas de outros ontens no fundo da gaveta. Entre o cheiro de mofo e sonhos engavetados, retirou o vidro ainda intacto. Na tampa uma etiqueta com o desenho de uma porta e escrito em letras de forma: "I'M A KING BEE".
Bem propício para momentos de felicidade esperada e comemorações particulares.
Sorria baixinho..."

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Getting late, I just can't wait
Ten o'clock and I know I gotta' hit the road
First I drink, then I smoke
Start the car and I try to make the midnight show
Get up!
Everybody's gonna' move their feet
Get down!
Everybody's gonna' leave their seat
You gotta' lose your mind in Detroit Rock City
[KISS - Detroit Rock city - ou música pra se ouvir correndo]
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www.fotolog.com/cafeinaman

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[Everything it´s always for you, Mrs. Hobinson... Amo]

sexta-feira, julho 21, 2006

Dias Consumidos

Foi acometido por aquela insanidade típica de finais de semana atribulados. De uma hora pra outra, já era sexta feira. O que teria acontecido com a quinta, quarta e todos mais??.
Devia ser uma daquelas viroses novas que ataca o centro nervoso tornando mais longos os dias e mais curtas as semanas. Quando menos se esperasse, dias inteiros teriam sumido e a semana só teria cinco dias. Que pelo menos o domingo fosse poupado (ou aqueles 5 minutos após o almoço, para tomar um café num copinho de plástico e fumar um cigarro sob o sol aterrador.).
O mundo não era o mesmo depois do toque do despertador.
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[Não vou dar explicações para a ausência contínua, além do fato das palavras serem criaturas estranhas e tímidas em certos tempos: saem quando bem querem.]
[www.fotolog.com/cafeinaman]

segunda-feira, julho 10, 2006

suspiro perdido e apressado.

Aquela maneira corrida de andar, somada à forma como olhava com olhos de quem vê tudo-ao-mesmo-tempo-agora, era um terrível contraste com o jeito manso de falar.
Passadas longas e silenciosas, parecia cruzar sempre obstáculos imaginários e disputar uma maratona invisível.
Andava com a cabeça longe e o sorriso guardado para telefonemas inesperados [e os esperados também, porque até as surpresas sabidas tem gosto de jujuba]. De tanto correr com aqueles envelopes amarelos pra um lado e outro, terminava ficando longe das palavras adestradas do mundo de zeros e uns, suas e alheias. Passeava sempre, mas falava nada. Ninguém podia recriminá-lo por ser estranho...
Hoje por acaso, escapuliu da zona esburacada do front pra dar um suspiro corrido e dizer pros olhos curiosos: "- estou sonhando mais do nunca" ainda que completasse secretamente com "- e dormindo menos ainda".
Deixava guardada uma promessa de novas palavras enfileiradas muito em breve [ou não...], e pra cobrir o buraco dos dias sem letras, recorria ao baú perdido, onde as coisas já ditas fazem festa.

"SALTOS QUÂNTICOS

Pulou tão alto que bateu a cabeça na estrela.
Ela explodiu em pó cintilante. Uma aquarela de intermináveis desejos.
Misturavam-se os sonhos e os pedaços da estrela...
O engraçado, é que de tão teimoso que era, mesmo com um galo na cabeça e os desejos espalhados, daria outro pulo."
[publicado originalmente no meu primeiro fotolog, um dia desses na vida.]
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[feliz dia.amo.amo...]